Eve Sanderson leva uma boa vida com a mãe, dentro do possível. Ela superou a timidez da infância e soterrou traumas do passado com uma máscara inabalável, delimitando limites que ninguém consegue cruzar. Embora tenha dificuldade em criar conexões pr...
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As correntes tremeram de maneira trépida, o som agudo atingindo os blocos de concreto que sustentavam as paredes do porão antigo. O soco seco envergou o saco de pancadas vermelho, fazendo-o balançar como um pêndulo, no instante em que um ardor súbito nas mãos me distraiu do meu próximo movimento.
Dei um passo para trás e estendi os dedos, doloridos de tanto ficarem na mesma posição, procurando pela causa do rompante; a reação não tinha a ver com o golpe, e sim com o tamanho das minhas unhas. Grandes, em formato de stiletto, estavam me machucando mais do que o normal. Na maioria das vezes, enfaixar as palmas com uma gaze aliviava a pressão, mas acho que elas nunca tinham crescido tanto. Desastrada do jeito que eu era, elas sempre quebravam antes.
— Que esmalte bonito — Lupe comentou, olhando por cima do meu ombro para o vermelho vivo.
— Obrigada — respondi com um sorriso, segurando o saco, que não parava de tremer e estava começando a me irritar. — Você não estava estudando?
Ela girou para ficar ao meu lado, dando de ombros. Os cabelos loiros e esvoaçantes, presos em duas tranças firmes com laços de cetim nas pontas, resvalaram no meu braço esquerdo com o movimento. Eu não sabia dizer o que a fazia parecer mais com uma criança, as bochechas redondas e sempre vermelhas por causa da rosácea, ou a forma como ela agia.
— Você parou, então eu também parei.
— É difícil praticar com as unhas grandes, mas não quero cortar. É terrível ter que escolher entre ser fodona ou gostosa.
Lupe testou os pés no chão, pulando de um lado para o outro, e deu um soco desleixado no saco. Seu nariz, reto e com a ponta arredondada, tencionou em uma careta quando o objeto mal se moveu.
— Se serve de consolo, eu acho muito atraente quem luta boxe. — Ela suspirou, abraçando o saco de pancadas, como se pudesse vencê-lo de outra forma que não a violência. Então, balançou a cabeça em negativa, como se estivesse repensando. — Ou melhor, eu acho muito atraente você praticar boxe.
Não consegui evitar a risada, tampouco pude fugir da vergonha que me atingiu por causa da forma como ela me olhava, de baixo para cima, com amendoados olhos castanhos e cílios fartos. Parecia uma cantada e, embora eu soubesse que ela estava só brincando, não sabia como agir.
Eu nunca sabia.
— Você deveria aprender. Vive dando socos que nem fazem cócegas.
— Ae! — Ela gritou e, apenas para comprovar meu ponto, me bateu. Se meus braços já não estivessem doloridos pelo esforço, eu mal teria sentido. — Eu não vou nem comentar. Posso ser muito selvagem quando quero.
— Eu imagino.
Seus olhos se estreitaram quando ela me encarou com uma obstinação sombria, as mãos contra os quadris, a ponta do pé batendo no chão de borracha de maneira petulante.