#Açafrão
🐈Parte dois:
Pouco após chegar em casa, uma tempestade iniciou uma lavagem nas calçadas e telhados brancos por toda a cidade. Sem previsão alguma. Jimin a considerou uma tentativa de purificar o mundo em que Kang, um homem tão porco, vive. Como se a sujeira dele contaminasse toda a cidade.
Ele próprio se sentia sujo, mesmo após trocar de roupa e deixá-las na máquina lavando.
Em seguida, ajudou sua avó a guardar a louça do jantar enquanto conversavam sobre o clima maluco de verão.
Quanto mais azul estiver o céu, mais intensa é a tempestade que vem o acompanhar. O clima quente de outrora pareceu-lhe sufocar e, agora, as rajadas de vento estavam tão fortes que o levariam para longe se saísse lá fora.
Ao fim da limpeza da cozinha, sentou-se no sofá perto da janela, na sala de estar. A abriu para sentir as gotas frias caindo em sua mão que pendia para fora e permaneceu olhando a chuva desaguar lamúrias até cessar aos poucos. Amava o cheiro de terra molhada e a sensação de paz que a acompanhava, o que podia ser controverso ao caos tempestuoso que assistiu.
Viu o momento em que Jungkook chegava em casa, com um caminhar calmo pela rua e o olhar para cima como se quisesse ver por trás das nuvens negras e maciças que choravam céu abaixo. Embora o clima soasse melancólico, fúnebre até, deduziu que ele estava em tranquilidade, com uma pequena brecha de sorriso no canto dos lábios, mesmo que fosse impossível visualizar ㅡ com certeza ㅡ naquela distância que estavam.
O vizinho estava ensopado. Os cabelos escorrendo soltos e selvagens por seu rosto até os ombros, as roupas sociais grudadas ao corpo másculo, mas Jungkook não parecia nenhum pouco preocupado. Desfilava como se a chuva fizesse parte do show.
Jimin, já recluso totalmente a sala, o observou sentado na calçada e de lá pegar o maço de cigarro do bolso da calça, sabia que sequer um resistiu ao tormento da caminhada sob a chuva, porém, ainda assim o viu levar um à boca. Não tentou acender, seria inútil, mas manteve aquilo preso aos lábios.
Um escravo do hábito, deduziu.
A curiosidade por aquele vício veio atingir sua mente que até então praguejava sobre odiar fumantes, do cheiro amargo de suas roupas e do sorriso distorcido pela nicotina. Lembrou-se que, há muito tempo, quando crianças, Jungkook também disse odiar a fumaça intoxicante e que jamais levaria um cigarro aos lábios, pois já bastava a consciência da passividade de ser fumante quando visitava seus tios e avós.
Todavia, lá estava ele queimando suas promessas junto aos cigarros e jogando as cinzas pútridas ao vento.
Enquanto julgava a insistência de Jungkook em esperar que aquela porcaria em seus dedos fosse secar como mágica, se recordou de que, durante o primeiro ano do ensino médio, ele próprio se perdeu ao vício de nicotina como uma válvula de escape para a pressão escolar e sua insistência de ser bom o suficiente, mesmo que usasse adesivos que levavam a química por entre os seus poros e não diretamente acendia o pequeno cilindro de câncer.
Um hipócrita.
Quando seus pais acharam cartelas e mais cartelas dos adesivos escondidos embaixo de seu colchão, trataram de o levar a um psicólogo que logo recomendou um psiquiatra. Foi diagnosticado com transtorno de ansiedade e de obsessão compulsiva. Achou que seu perfeccionismo tinha a ver com o signo de virgem que regia sabe se lá o que em seu mapa astral ㅡ como sua colega de sala lhe disse ㅡ, porém, nunca encarou como sendo um transtorno dos grandes.
Os anos de terapia o livrou de um vício para logo arrumar outro: cafeína; foi então que percebeu o quanto ferrado é. Nunca estaria sóbrio. Nunca nem esteve.
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Gato Ruivo Na Avenida Das Dores • jikook
Fanfiction[EM ANDAMENTO] Park Jimin incontestavelmente acredita que a única coisa que tem em comum com Jeon Jungkook é o ódio. Na infância, foram inseparáveis, mas tudo mudou quando Jungkook roubou seus sonhos e destaque num projeto escolar. A amizade se tran...