Lohen

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O vento fresco que sopra pelas colinas ao norte de Mondstadt carrega o aroma doce de grama orvalhada e o frescor característico daquela nova região montanhosa. É o tipo de cenário que os poetas da Cidade da Liberdade descrevem em baladas românticas, mas eu consigo ver de longe que essa paz é quase uma ofensa pessoal para Lohen. Ele não está apenas entediado; ele parece estar digerindo vidro.

Eu o observei do alto de uma pequena elevação perto do Porto de Dornman. O grande e temido cavaleiro, cuja mente trabalha melhor entre venenos e emboscadas táticas, está segurando uma vassoura de palha gasta, encarando o quintal dos fundos de um comerciante local como se estivesse diante de um abismo. Perto dele, sacos de grãos empilhados esperam para ser carregados e uma lista de tarefas mundanas, rabiscada à mão por algum burocrata de Mondstadt, está espetada em uma caixa de madeira.

Ajudar cidadãos necessitados, varrer folhas secas, ouvir as lamentações de idosos sobre o preço da cevada. Tudo isso suga a energia introvertida e ácida de Lohen de uma forma que nenhuma batalha sangrenta seria capaz de fazer. Dá para ver no peso dos ombros dele, na rigidez de sua mandíbula sempre que um camponês se aproxima para lhe agradecer com um tapinha nas costas. O contato humano não solicitado e a banalidade daquelas obrigações são o verdadeiro veneno para ele.

Assim que dei o primeiro passo na direção dele os olhos de Lohen se estreitaram. Ele captou a minha presença antes mesmo que eu fizesse qualquer ruído perceptível. A postura dele mudou em um milésimo de segundo; a apatia cansada sumiu, substituída por um foco agudo, predatório e intensamente focado. Parece que acabei de me tornar a rota de fuga perfeita que ele tanto implorou aos deuses.

- Desperdiçando seu tempo com a gloriosa burocracia prática dos Favonius, Cavaleiro? - Brinquei, parando a poucos passos de distância, cruzando os braços e sustentando o olhar dele com um sorriso.

Lohen largou a vassoura contra a parede de pedra sem o menor cuidado, sequer se importando se o dono do estabelecimento veria o seu abandono de posto. Ele se aproximou, limpando as palmas das mãos enluvadas nas calças, exalando uma aura que mistura um alívio genuíno com essa perigosidade magnética que ele sempre carrega como uma segunda pele.

- Se eu tivesse que ouvir mais uma palavra sobre como o mofo está afetando o porão daquela taverna, eu teria testado um composto de arsênico no estoque de sidra deles. - Ele respondeu, a voz mansa, arrastada, dando um passo lento na minha direção que reduziu perigosamente o espaço entre nós. - Mas você chegou. O Viajante. O herói de Teyvat condescendendo a caminhar entre os mortais cansados. Você é uma distração infinitamente mais interessante do que o dever, Aether.

Nossa conversa fluiu com facilidade, um vaivém coreografado de provocações rápidas e flertes velados que já cultivamos há algum tempo.

- Venha comigo. - Lohen murmurou, inclinando o corpo ligeiramente para a frente, o suficiente para que eu sentisse o calor de sua respiração contra a minha pele. - Minhas acomodações ficam logo ali, atrás daquela fileira de armazéns. Tenho coisas muito mais produtivas e estimulantes para fazermos com as mãos do que carregar sacos de farinha.

A menção ao que poderíamos fazer fez meu pulso acelerar discretamente, mas mantive a postura firme.

Caminhamos lado a lado pelas ruelas de pedra, o silêncio que se instalou entre nós sendo muito mais barulhento do que qualquer diálogo. Quando finalmente paramos diante da pesada porta de madeira da residência dele, uma estrutura discreta que dá vista para as águas escuras do porto, ele parou. Lohen deu um meio passo para o lado e estendeu o braço em um gesto falsamente polido, os cantos dos lábios curvados nesse sorriso enigmático e ligeiramente cínico de sempre.

- Primeiro os convidados. Siga em frente. - Ele indicou a entrada, os olhos brilhando com uma expectativa oculta.

Sorri dessa cortesia exagerada, fingindo não notar a armadilha implícita, e dei o passo inicial para cruzar o limiar da porta escura. Eu não tive tempo de avançar sequer dois metros para dentro do cômodo. Assim que minhas costas ficaram totalmente expostas e meus olhos tentaram se ajustar à penumbra do ambiente, a farsa do cavalheirismo ruiu.

Aether... haaa (+18) {Concluída}Histórias para pegar e não largar. Descubra agora