-Talibã👺-
Ela não percebeu de primeira.
Viviane tem esse jeito de passar despercebida pra quem olha de longe, mas quem chega perto sente: ela é intensa, mesmo calada. E eu sempre fui de notar antes dos outros.
Primeira vez que a vi, foi na porta da escola. Tava com a filha no colo, tentando equilibrar bolsa, lancheira e paciência. Vi ali o peso de quem carrega o mundo sem fazer barulho.
Fiquei observando. Não me aproximei. Porque eu não sou homem de chegar logo. Gosto de entender o terreno antes de pisar.
Mas depois daquele dia no mercado, quando ofereci ajuda com as sacolas, alguma coisa virou. Ela deixou. E ali eu soube: com ela, tinha que ir devagar.
Começamos a conversar. Coisa boba. Tempo, rua, trabalho. Mas eu via no jeito dela que, mesmo rindo, ela media tudo. Cada palavra. Cada silêncio meu.
Só que, com o tempo, ela foi abrindo mais. E foi aí que comecei a mostrar um pouco mais do que sentia. Não com palavra — eu não sou desses. Mas com olhar.
Quando ela falava da filha, eu olhava. Quando ajeitava o cabelo, eu olhava. Quando dava aquele sorriso de canto, sem graça, eu segurava o olhar um segundo a mais.
E ela notou.
Percebi no jeito que ela baixava os olhos. No leve rubor no rosto. No silêncio que vinha depois.
Ela não dizia nada. Não recuava. Mas sabia.
Sabia que eu tava olhando diferente.
E ainda assim... deixava.
Viviane é esperta. Mais do que parece. Ela sente quando algo muda no ar. E por isso mesmo, eu fui ficando mais presente. Não pra invadir. Mas pra marcar território.
Não sou homem de correr atrás. Mas quando eu quero, eu fico por perto.
E dela, eu não vou me afastar.
Demorei pra agir. Porque ela não é qualquer uma. E eu nunca tive pressa com o que realmente importa.
Viviane tem um mundo dentro dela que ela esconde atrás do silêncio. Uma força que não grita, mas que dá pra sentir de longe. Eu não queria estragar isso. Nem assustar.
Só que chegou uma hora em que o olhar já não bastava.
Foi numa noite de quinta. Calor abafado, céu nublado. Ela saiu da loja mais tarde, cansada, o cabelo preso de qualquer jeito, carregando as mesmas sacolas pesadas de sempre.
Esperei ela dobrar a esquina pra falar.
— Tu vai carregar isso até quando sozinha?
Ela virou, meio rindo.
— Até alguém oferecer ajuda, ué.
— E se esse alguém quiser mais do que só ajudar?
Ela parou.
Me olhou de um jeito diferente. Não com medo, nem surpresa. Mas com aquela dúvida que mistura curiosidade com desconfiança.
Cheguei mais perto, devagar. Deixei ela ver nos meus olhos que eu não tava brincando.
— Eu gosto de te ver. Gosto do teu jeito. Do teu silêncio. Da tua calma no meio do caos. E não é só porque tu é bonita — falei, a voz baixa, firme. — É porque tu é diferente de tudo que eu conheço.
Ela não respondeu de imediato. Só desviou o olhar por um segundo, respirou fundo. Como quem não esperava, mas também não estranhava.
— E o que você quer com isso?
— Quero estar por perto. Sem mentira. Sem joguinho. E se tu deixar, quero cuidar.
Ela ficou quieta.
Mas não virou as costas.
Nem disse não.
E pra mim, isso já foi começo.
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Amor Criminoso
FanfictionCarrego a gloria e a dor de viver do meu jeito,meu amor eu sou o chefe do crime perfeito...
