"Vai ficar tudo bem"

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(Sarah POV)

Uma semana depois.

Segunda-feira, 12:10 PM.

"Sarah, bom dia, é a Nina. Tentei ligar mais cedo, mas a chamada foi encaminhada diretamente para a caixa postal, então resolvi deixar este recado no correio de voz. Precisei sair e devo chegar apenas no fim do dia. Peço desculpas por não estar em casa para recebê-la e ajudá-la com as compras. Ian também está fora, em reunião, e provavelmente só retorna por volta do jantar. Obrigada por cuidar da reposição da dispensa, mesmo sendo um pedido de última hora. Já depositei o valor por esse serviço na sua conta, me diga se chegou direitinho, sim? Ah, e se você estiver com fome, por favor, fique à vontade para preparar algo para comer. Até."

O recado de Nina se encerra no exato instante em que meus dedos encontram a maçaneta da porta, o metal frio contrastando contra a minha pele quente. O clique baixo da fechadura soa aos meus ouvidos no momento em que digito o código de acesso no painel; o amplo corredor se encontra silencioso, apenas os sons ocasionais das portas do elevador, se abrindo e fechando, quebrando-o. As três sacolas de papel pesam contra os meus tornozelos, alças brancas e firmes roçando e fazendo cócegas na pele fina. Seguro meu celular na outra mão, a voz de Nina ainda vibrando em meus ouvidos como uma onda que se retrai. O estremecimento é involuntário, e meu coração salta dentro do peito; uma culpa que assola, ondas e ondas sobrepujando minha determinação. Eu vacilo, sentindo a caixa torácica tremular ao compasso da minha respiração acovardado que falha, entrando em espasmos curtos em meus pulmões que queimam a cada inspiração.

Suspiro. Um som baixo, contido. Inclino-me para pegar as sacolas, então, guardando o telefone no bolso traseiro do jeans. Faço um breve malabarismo com as compras; minha respiração escapa em ofegos curtos enquanto mantenho a porta aberta com o pé, o espaço exato para que eu e o que carrego possamos atravessar. O clique baixo volta a soar, dois dessa vez, quando a porta se fecha e o alarme de segurança ativa atrás de mim.

Quando adentro a vasta cobertura, por fim, mesmo ainda no hall de entrada, sou recebida pela quietude. A única evidência de que o casal esteve aqui sendo o aroma residual de café passado que ainda paira no ar.

Seria de praxe Nina me pedir para repor a dispensa por volta de quarta-feira. Mas, segundo ela, ela e Ian decidiram fazer uma pequena reunião de última hora com alguns amigos próximos, o que exigiria condimentos que normalmente não teriam em casa. Por isso, ainda que hoje seja segunda-feira e não meio de semana, estou aqui. De qualquer forma, não é como se eu não estivesse recebendo a mais por isso. Então, não reclamo. Eles me pagam bem. Gosto de trabalhar para eles. É mais honesto do que eu mereço, é o que a vozinha cruel no fundo da minha mente diz. É bom se sentir útil ao invés de algo a ser usado e explorado, eventualmente descartado.

Eu me movo, então. Sendo útil.

Desembalo as compras calmamente, cantarolando baixo e para mim mesma, recusando-me a me perder no espiral ansioso que leva meu coração a acelerar sem motivo aparente. Eu alinho as latas no armário da despensa enquanto os alimentos frescos encontram seu devido lugar dentro da geladeira. Disponho um a um, repondo o que precisa e organizando espaço para o que ainda não havia. É quase terapêutico, me distrai, me acalma. Expiro longamente, tensionando a mandíbula até que o bolo denso preso na minha garganta, aos poucos, se dissolva. Até que o gosto ácido que se espalha pelas papilas recue, como uma maré amarga que insiste em voltar, mas acaba cedendo. Passo a língua pelo céu da boca e seguro o ar por um instante, tentando reorganizar meus pensamentos e o que sinto.

Em determinado momento, perco a noção do tempo.

As embalagens vazias, como papel, plástico e isopor, vão se acumulando ao lado, uma pequena pilha que prontamente amasso e jogo fora quando termino.

THE CONTRACT || Nian Histórias para pegar e não largar. Descubra agora