Quatorze anos
São 5, talvez 6, horas da manhã e como de costume acordo com as lambidas enérgicas de Iori, meu beagle.O sol entra de maneira preguiçosa pela janela do quarto, e um vento fraco circula ao meu redor.Levanto ainda sonolenta e caminho até o banheiro. Meus pés descalços tocam o chão gélido de ladrinhos verdes, fazendo com que um arrepio suba até minha coluna. Faço minha higiene matinal e troco de roupa.O clima de Montana costuma esfriar ainda mais ao longo do dia, por isso coloco um casaco listrado preto e branco, uma calça jeans, e meu all star surrado, além de uma toca vermelha - que ganhei de Jess, minha melhor amiga - e minha velha mochila quadriculada. Desço as escadas de madeira, que rangem abaixo dos meus pés, caminho até a cozinha e Faço o café, meus pais costumam sair cedo, por isso não os vejo muito e acabo comendo sempre sozinha.Antes nós quatro costumávamos comer juntos, mamãe me acordava com um beijo e papai fazia waffles com calda, os preferidos de Ben. Então íamos junto pra escola e Ben me deixava na minha sala. Hoje em dia tudo é silêncio, o tempo todo, todos os dias.
Saio de casa e atravesso a rua, está começando a garoar e as gotas do orvalho caem sobre as pétalas das rosas do jardim.
Chego na escola.
- Emms! - Jessie grita vindo em minha direção.
- feliz aniversárioooo - ela diz cantarolando.
- obrigada - eu a abraço
- você vai lá em casa hoje, né?
- provavelmente
- e esse desânimo?
- é que... ah, você sabe como eu sou, sempre estou desanimada, nunca satisfeita e bla bla bla
- hmn, pois trate de se animar.
- claro. Não se preocupe.
O sinal toca e nós entramos na sala, Jess fala com o professor que puxa um "parabéns pra você", eu fico envergonhada e sinto minhas bochechas enrubescerem, escondo o rosto na mesa. Jess apenas ri da minha timidez.
Quando a aula finalmente chega ao fim eu estou cabisbaixa e deprimida, saio pelo portão, a solidão claramente estampada no meu rosto, eu sei que quando chegar em casa nao vou receber presentes, nem abraços, nem parabéns, nem nada.
Volto caminhando pra casa, entro na cozinha, coloco ração pro Iori e preparo um lanche pra mim. Meus pais não estão em casa, afinal eles nunca estão. Subo as escadas para o meu quarto, Iori me acompanha com um entusiasmo que me alegra um pouco.
As horas parecem intermináveis e depois de ter feito todos os deveres e lido "As aventuras de Tom Sawyer" duas vezes eu começo a ficar entediada.
Escuto um barulho vindo da cozinha e vou até lá.
- oi - digo para minha mãe, que por algum motivo está sentada na mesa da cozinha.
Por um segundo me agarro em um fio de esperança, talvez ela tenha vindo me ver, talvez ela tenha se lembrado.
- você nao foi pra casa da Jane?
- Jessie - corrijo, enquanto aquele fio de esperança se rompe. É claro que ela não lembra que dia é hoje, ela nem mesmo lembra o nome da minha melhor amiga, que eu conheço desde os dez anos
- isso. Essa ai.
- err... mãe. ..
- o que?
- hoje é um dia especial, sabe?
- especial? O natal ainda vai demorar
- esquece mãe, nao era nada importante.
- ... - um silêncio constrangedor invade o ambiente. Até que ela suspira e diz: - eu esqueci de novo, não foi?
- sim, mãe. - falo em um susurro
- desculpe
- tudo bem, sem problemas
- o que você quer de presente?
- nada. Não precisa. - não estou mentindo, o que eu quero ela não pode comprar em uma loja, ou mandar fazer. Eu quero que ela me ame, que se lembre da minha existência, quero que ela cuide de mim como antes, antes do acidente, antes do Ben partir.
- isso é culpa do seu pai - ela resmunga - nunca fui boa com datas.
- é - eu sei que é mentira. Mamãe sempre foi ótima com datas, pelo menos com as importantes. Obviamente hoje não é um desses casos.
Ela pega o telefone e disca um número, não preciso ser nenhuma gênia pra saber pra quem ela ligou.
- john? Como você pode ser tao irresponsável?! Esquecer o aniversário da própria filha! - eu ja estou acostumada com isso, meus pais em uma briga sem sentido jogando a culpa um pra cima do outro, sempre orgulhosos demais pra admitir um erro.
- mãe...
- sua filha está fazendo trez...
- quatorze - interrompi
- Quatorze anos, John! Quatorze!
- mãe, tudo bem.
- não, John!
- mãe eu vou indo...
Digo tchau e vou caminhando para a casa de Jess. Nao aguentaria ficar naquele lugar nem mais um minuto o ar estava irrespirável.
Então eu fujo, como sempre, eu fujo.
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Sonhos De Vidro (Hiatus)
Sachbücher"Eu tinha oito anos quando fui precocemente apresentada à senhorita realidade, ela disse "cresça e esqueça que seus sonhos sequer existiram" e eu como obediente criança que era, apaguei da minha mente qualquer resquício do que poderia um dia ser so...