a dor e o alucinógeno

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" antes tudo era barulhento, papai cantava um parabéns desafinado enquanto cold play tocava no fundo da sala, hoje tenho medo do silêncio que ecoa pelas paredes e tira meu sono todos os anos,  meu aniversário se tornou algo solitário desde aquele maldito dia. Mas me lembro de Ben me chamando pra dançar e da mamãe cortando o bolo"

Casa da Jess

Eu bato na porta, Sra. Carter abre e me dá um abraço apertado e reconfortante.
- Emmy eu comprei um bolo de cenoura do jeito que você gosta.
- obrigada tia Cassie.
- e sua mãe, ela vem?
- acho que não.  Ela esqueceu de novo.
- ah. Eu sinto muito
- tudo bem, tia Cassie, já estou acostumada.
Ela me dá mais um abraço e dá espaço para que eu entre.
Vou até o quarto de Jess, seguindo pelo corredor e observando a coleção de relógios da tia Cassie, sempre me perguntei por que ela tinha tantos, considerando que a maioria não funciona.
A porta de Jess está aberta, eu entro e me sento na cama.
Jess sai do banheiro com um vestido vermelho tomara-que-caia rendado, um pouco acima dos joelhos e um salto também vermelho, além da maquiagem impecável, seus cabelos ruivos e longos estao presos em uma trança lateral.
- uau - é a única coisa que consigo dizer
- querida - ela olha pra mim de cima à baixo - vou ter que te arrumar. Eles ja devem estar chegando
- eles quem?! - pergunto surpresa
- todo mundo. Vamos ter uma super festa - não me surpreendo, Jess adora festas, tudo pra ela é motivo pra comemoração. Fico feliz de ter a Jess em minha vida, ela é sem dúvidas a única que ainda se lembra de mim, seja mandando eu lavar o cabelo ou me convidando para a ceia de natal.
Ela abre o guarda-roupa e pega um vestido preto com renda, ele tem uma saia de tule que faz com que a parte de baixo tenha mais volume, me lembra o tutu de uma bailarina,  uma bailarina gótica no caso.
Eu o visto e Jess arruma minha maquiagem e meu cabelo. Me olho no espelho e me surpreendo com os talentos de Jess, aquilo foi praticamente um milagre.
Eu me encaro no espelho. Meus cabelos pretos estão soltos, no entanto mais enrolados do que de costume, meus olhos azuis acinzentados estão destacados com um delineador preto e meus cílios que ja sao grandes de nascença estao ainda maiores, há um batom vermelho-cereja em minha boca e minha pele nao parece tao palida quanto normalmente.
- meu deus Jess, que macumba foi essa?
- macumba o caramba.  Isso chama-se talento - nós rimos e vamos até a sala.
Tia Cassie nos olha admirada
- vocês estão lindas!
- obrigada - digo em um sorriso tímido.
- mãe você ja ta indo?
- o que? - pergunto
- estou sendo expulsa da minha própria casa, Emmy.
- Jess! - digo em tom de desaprovação.
- o que? - Jess fala como se não fosse nada demais
- tudo bem. Eu vou sair e volto amanhã.
- amanhã?  - pergunto incrédula
- a festa vai demorar - jess cantarola
- juízo - tia Cassie diz pegando sua bolsa
Ela abre a porta, mas antes de sair se vira pra nós e diz:
- amo vocês.  Jessie fique com deus e com roupa. Emmy cuida da Jess e não deixa eu virar avó.
Eu rio, Jess me dá um tapa no braço e resmunga algo, provavelmente me xingando.
Nós organizamos tudo, comida, bebidas - Jess comprou algumas cervejas escondido da sua mãe - e a musica.
Então as pessoas começam a chegar. Eu não conheço nem metade dessas pessoas.
Só o que faltava eram meus pais, mas isso seria pedir demais.
Eu estou sentada no sofá, quando dois caras se aproximam de mim. Um deles é Tobbie, o "ficante permanente" de Jess e eu não conheço o outro.
- cadê a Jess? - Tobbie pergunta
- sabe aquela última porta no corredor onde tem uma placa escrito "não entre"?  É só entrar.
- que convidativo - o amigo de Tobbie comenta e eu rio.
- obrigada - Tobbie fala indo atrás de Jess.
O amigo dele continua parado ao meu lado.
Ele é alto, com costas largas,  tem cabelos pretos maiores do que a maioria dos garotos - me lembra aquele ator gostoso que fez o retrato de Dorian Gray -  com olhos verde-musgo penetrantes.
- senta ai - digo cordialmente.
- tudo bem.
- qual seu nome?
- Jeff. O seu?
- Emily. Ou Emms, como me chamam.
- parabéns
- o que?
- seu aniversário.
- como você. ..
- sua mãe
- o que?
- meu gato, Tomoe entrou na sua casa hoje, sua mãe estava no telefone. E eu escutei.
- ah..  obrigada então - forcei um sorriso.
- escuta...
- o que?
- você não quer tipo... sair amanhã?
- o que? - perguntei de novo pra ter certeza, aquele cara lindo estava mesmo me chamando pra sair??
- tipo sair comigo. ..
- sim - eu respondo sorrindo.
E naquele momento eu esqueço da dor, esqueço de tudo.

Sonhos De Vidro (Hiatus)Onde histórias criam vida. Descubra agora