Quarta-Feira

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De mãos dadas nós passávamos o dia de quarta feira. Porque foi numa quarta -feira que nos conhecemos. Porque foi em uma quarta-feira em que o destino começou a escrever nossa história.

A sua semana era corrida. Eu sabia de cor e salteado, pois eu havia há muito tempo decorado.

Segunda tinhas faculdade até as duas e quarenta e cinco. Almoçava. Ia para seu curso das três até às quatro e quinze. Eu te ligava e você ignorava a ligação. Logo após visitava seu avô no hospital, mas antes, claro, passava em uma bela floricultura, e via diversos e variados tipos de flores. Então via quantas ligações perdidas, mais de vinte, então me retornava apenas para me perguntar qual flor escolher. E sempre a rosa branca, ou uma tulipa. Elas me faziam lembrar de você.

Chegavas até lá por volta das quatro e meia ou cinco horas.

Via ele dormindo, conversava com ele acordado sobre como os preços da banana haviam aumentado e sobre como ele queria que sua vó, Isabel, estivesse viva.

Então ia para casa, na chuva, eu desenhava você na aula de arte, e na aula de literatura eu escrevia sobre o jeito que seu cabelo era distribuído perfeitamente desigual entre teus ombros, e como o seu sorriso era quente que me igualava, por um breve momento a mercúrio, nas aulas onde aprendíamos sobre Shakespeare eu nos igualava a Romeu e Julieta, mas você não morreria por mim, e nem eu por você, pois o nosso amor ultrapassaria essa vida, e duraria até outra vida. O amor suportaria a morte.

Chegavas em casa, molhada pela quantidade de gotículas de água que molharam teu cabelo e que escorreram pelo teu sobretudo azul escuro, seus óculos ficavam borrados pela água.

Tomava seu banho quente, e então ia até seu quarto e colocava, com certeza, aquele pijama azul, que eu simplesmente adoro, e que para você é apenas confortável. Deixa o chá para esquentar, enquanto esse tempo passa, estuda diversos livros, e escreve resenha de outros mais livros, enquanto lê o que o louco do Freud escreveu, ri atoa.

Terça-feira o dia se repete, o mesmo, apenas muda o final, onde geralmente sai para ver Paris e escrever poemas sobre o quão maravilhosa essa cidade é. E então me escreve uma carta e deixa no beiral da porta, dizendo o quão gostaria de viver nos anos vinte e andar pelas ruas e encontrar Zelda e Scott Fitzgerald, claro Zelda sempre com seus pensamentos distantes e Scott avoado à ascender o cigarro de Zelda.

Então, finalmente chega quarta- feira, o meu dia favorito. Talvez, por ser o dia em que te levei a uma peça e tentei entrelaçar nossos dedos e você recusou, e depois escreveu um bilhete e colocou em meu bolso. Ou talvez seja por ter eu te levado a conhecer Paris pela minha playlist, onde há jazz e clássicas musicas, onde não falamos uma palavra e apenas andamos, rimos, e nos olhamos. Ou seja talvez pelo dia em que tentei tocar seus lábios e você se recusou.

Eu entendi mais tarde que tudo havia seu tempo. Que o seu escolhi esperar o tempo certo, estava mais que correto.

O tempo certo chegou, e foi sim numa quarta-feira, onde ela me olhou após uma longa risada, eu a fiz rir, e entrelaçamos nossos dedos, e nossos pensamentos se encontraram em uma praça e sentaram-se, e um desenhava enquanto tomava chá de camomila, e o outro escrevia poemas, estranho foi o meu pensamento estar desenhando sobre seu poema. E em nossos pensamentos, após se encontrarem se amaram, loucos, como nós, se beijaram.

Existe vida após à Marte?Onde histórias criam vida. Descubra agora