6 - Quebrada

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Sabrynna estava estonteante em seu vestido vermelho sob a luz fulgurante de um poste da rua. Jogou sua bolseta sobre o ombro e enrolou o dedo num dos cachos louros de sua peruca. Aquela noite seria de arrasar.

Um astra preto se aproximou em marcha lenta. Ela logo se debruçou sobre a porta do carona empinando propositalmente seus glúteos torneados pela academia e disse: "boa noite, gato".

Arnaldo exibiu seu sorriso funesto, mais feio do que briga de foice, e entoando seu português deplorável perguntou: "quanto fica pra nois dar um passeio?"

Sabrynna ponderou, isso porque o valor da "experiência" que ela oferecia não era fixo dependendo da avaliação que ela fazia: dependia da aparência do sujeito, da iniciativa, até mesmo do carro; indicações também contavam de forma positiva e, havia casos em que Sabrynna não cobrava, mas isso era extremamente raro.

"Mil reais", disse ela tornando quase caricata sua imitação de voz feminina. Esse era o valor mais caro que ela já havia cobrado. "O motel é por sua conta", completou. Havia um outro fator que influenciava no preço e este era o instinto dela. Jogar um valor impagável era uma forma de espantar um cliente sem dizer não.

"Entra no carro" disse Arnaldo. A travesti ponderou mais, como se estivesse decidindo se faria mesmo aquele programa. Todas as sirenes e alarmes dentro da sua cabeça haviam sido acionadas pelo seu instinto. Mas eram mil reais, ela não iria largar aquela oportunidade. Até porque Sabrynna sabia se virar e, muitas vezes, as pessoas corriam mais risco perto dela do que o contrário. Ela era o perigo. Pelo menos, era o que pensava quando  se sentou no banco do caronas do carro de Arnaldo que logo tratou de colocar sua viatura em movimento.

"Toca pro Blue-Star", ela mandou. Porém Arnaldo sacou um 38 debaixo do banco e apontou para ela, que no susto arrancou a arma da mão daquela jagunço e praticamente a arremessou pela janela. O carro parou quando caiu numa vala entre a grama e o acostamento e Arnaldo desferiu um soco no belamente maquiado rosto dela.

Com o susto, Sabrynna deu uma joelhada no aparelho de som que começou a tocar Dude is Like a Lady  do Aerosmith.

Sabrynna revidou o soco sem pensar duas vezes e o melado escorreu do nariz de Arnaldo que só pensou em sair do carro, e foi o que tentou fazer quando ela o agarrou pelo colarinho socando sua nuca com toda força que seu corpo travestido tinha.

Ele conseguiu se desvencilhar dos ataques incessantes de Sabrynna e se arrastou pelo asfalto, e se levantando tentou avistar sua peça que havia caído na pista. Mas eis que uma pedra acertou suas costas e Arnaldo gemeu cortando o silêncio da noite com sua voz mais nefasta do que o gemido moribundo de um demônio.

Só teve tempo de olhar para trás e ver que ela agora tinha uma pedra ainda maior que acertou seu crânio duro fazendo com que o capanga caísse no chão inconsciente, que fora iluminado por um farol triste de um Jacaré, uma carreta Scania 1313, que esmagou aquela cabeça horrenda assim como um tomate podre ao ser apertado com força demais.

Travesti não é BagunçaOnde histórias criam vida. Descubra agora