1 | Macbeth

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When shall we three meet again?

In thunder, lightning, or in rain?

— Shakespeare


Os trovões ecoavam e a chuva caía com força abrindo pequenos buracos no solo com o passar das horas. Abrigados no segundo andar de um monastério abandonado, com janelas quebradas e paredes completamente pichadas, os atores tentavam vencer a potência dos raios usando as cordas vocais. Shakespeare era uma tradição entre eles na sua forma mais trágica...

"Quando estaremos à mão com chuva, raio e trovão?" Erika, de cabelos vermelhos esvoaçando na ventania que adentrava as janelas, tentava dar voz à Primeira Bruxa.

"Depois de calma a baralha e vencida esta batalha", Priscila respondeu como Segunda Bruxa, atentando para uma característica mais fria à personagem.

"Hoje mesmo, então, sem falha!" Bruna recitou com um gesto brusco e cabal a Terceira Bruxa.

Conseguiram se esconder no prédio abandonado ao norte da cidade numa noite gélida de chuva. E lá viraram a noite e lá estavam virando outro dia sem que ninguém os importunassem. Os tempos estavam cada vez mais difíceis para pessoas como eles se esconderem, mesmo com a grande massa de sem-tetos e tribos urbanas espalhadas na capital gaúcha: a temporada de caça estava aberta aos praticantes da Arte e seu método de vida era baseado em se misturar na sociedade que sequer entendia do que eram capazes. Em Porto Alegre a situação era pior do que na maioria das metrópoles, mas não tiveram escolha considerando que era ali a reunião bienal entre os seus semelhantes... Não era apenas uma reunião qualquer, não era só uma simples apresentação que os faria descer de Belo Horizonte para o extremo sul do Brasil onde o perigo contra suas vidas era maior.

A tempestade era propícia, afinal recitavam Macbeth. Entre seis pessoas conseguiam com facilidade cobrir mais de vinte papéis, apesar de que, naquele dia, Ethan estava errando as palavras com frequência. Estava distraído e inquieto, mas em alguma escala todos eles compartilhavam esse humor. Jeff, o outro homem ali, reagia de forma diferente: fazia gestos mais intensos e caretas debochadas ao invés de não prestar atenção no seu papel de Banquo, exagero suficiente para provocar risadas de tempos em tempos. Priscila e Bruna tinham anos de prática com ensaios e apresentações e aquele era só mais um dia qualquer com a velha arte grega. As irmãs Herrera eram mais do estilo individual: Erika, a mais nova entre todos com pouco mais de vinte anos, preferia truques de ilusionismo, Agatha fazia apresentações com facas de modo circense e displicente... Todavia, todos participavam do teatro.

Suas mochilas estavam amontoadas entreabertas num canto e dois cobertores ainda restavam no chão de cimento úmido. Agrupados na tranquilidade do segundo andar de um monastério parcialmente destruído, eles que eram um meio termo entre marginais, góticos, punks e mendigos, ganhavam a vida desregrada sobrevivendo das artes que apresentavam e das habilidades estranhas que ocultavam das pessoas comuns, efeitos mascarados cada ato ao público. O teatro era apenas uma das tantas facetas que tinham.

A umidade do ambiente e o suor eram incômodos superficiais que não os atrapalhavam, porque já haviam ficado em lugares muito piores em situações mais arriscadas. De fato, era agradável a paz mórbida de estar num recanto silencioso onde as únicas manifestações de vida eram as suas e dos insetos. Priscila havia comentado sobre fantasmas de padres que morreram no incêndio que destruíra aquele lugar, mas com a exceção de Jeff, ninguém mais sentia-se perturbado pelas almas-penadas.

Naquele momento da tarde, repetiam a primeira cena da peça: o diálogo entre as três bruxas... Mas Bruna não aceitava aquela versão da tradução. Com a última frase, ao eco da sentença proferida pelo trio, a loira franzina e baixinha jogou os braços para cima estressada:

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