Olhar a chuva cair era um de meus passatempos, algo que as pessoas não apreciavam da mesma forma que eu, mas que, em certas ocasiões, ajudava a amenizar a dor de certa forma. Este é aquele momento em que você se pergunta se esta dor é física ou emocional, não? Eu posso dizer que é uma espécie de fusão entre ambos os tipos. Veja, eu não era o tipo de pessoa dura e insensível o tempo todo, a realidade é que nem eu mesmo me compreendia em minha totalidade de forma que sempre me via como algo inconstante, como o tempo para além da janela que vai do meu mundo ao mundo externo. Os céus se iluminaram com um relâmpago e nas nuvens grandiosos leões rugiam disputando seu território em um grande espetáculo de riscos luminosos, eu apenas permanecia ali sentado no silencio observando os pingos baterem contra o vidro e escorrerem até onde meus olhos já não pudessem mais vê-los.
O quarto parecia maior à meia luz, eu ainda podia ver cada item presente no cômodo quando os as nuvens abafavam as explosões de luz e aquilo era de fato reconfortante. Era quando eu estava rodeado pelo silencio que minha mente insistia em se tornar barulhenta e estas eram ocasiões recorrentes em minha vida. Ali eu pensava sobre meus sonhos, sobre o dia anterior, as velhas histórias que eu lia na infância e assim por diante até chegar no pensamento mais recorrente... A velha história sobre anjos e demônios que eu havia lido no livro que desapareceu da biblioteca.
Não é como se eu fosse alguém facilmente impressionável ou algo do gênero, para me render a um conto qualquer e começar a enlouquecer, enlouquecer não era um luxo da classe média. A realidade é que eu presenciava fenômenos estranhos desde a minha infância.
O mais assustador de todos eles fora, sem sombra de dúvidas, o surgimento das asas. No incio elas rasgavam a pele e a dor era insuportável para um corpo infantil em formação, porém, era raro me verem chorar já que eu as controlava o suficiente para que só viessem a tona quando eu estivesse sozinho. Isso, e o incontáveis livros da biblioteca sobre pássaros, envergaduras, e contos antigos, me ajudaram a me adaptar a elas e aprender a usa-las, não que eu saísse voando por ai achando que era algum tipo de X-MEN mas acredito que tenha sido claro o suficiente.
Depois de algumas horas observando as nuvens chorar e encharcar o solo eu me levantei do meu lugar e fui até minha cama, não que precisasse acordar cedo no dia seguinte, afinal de contas já era madrugada de um sábado, no entanto todas as viagens que minha mente insistia em fazer, hora ou outra, acabavam por esgotar com minhas forças e nesses momentos eu precisava de minhas habituais noites de "sono em branco", que foi o nome dado por mim as noites em que eu não era capaz de produzir um sonho ou fantasia se quer enquanto dormia.
O despertar veio com leves batidas provenientes do chão do quarto. O fato que não ter uma porta como qualquer outro cômodo da casa não impedia que os visitantes, vez ou outra, viessem até mim.
— HORA DO CAFÉ!
Gritou uma voz infantil que parecia abafada devido à madeira que separava os ambientes. Cocei os olhos e vi que a luz já entrava pela janela e banhava meu quarto deixando tudo destacado naquele pequeno mundo. Toda manhã, ao ter aquela visão eu agradecia, não sei bem se por estar simplesmente vivo e poder me levantar para ter novas oportunidades. Sabe, muitas não pessoas não valorizam coisas como essa, mas é por que estão muito ocupadas tentando impressionar ou agradar umas as outras, algo que é natural no mundo fútil dos dias de hoje.
— Já vou!
Respondi e enfiei a cara no travesseiro, era hora de encarar a realidade novamente. Me levantei depois de afastar o edredom e então andei até o espelho para ver como eu estava, meus cabelos estavam completamente bagunçados, fio-a-fio como uma mata negra e revolta mas tirando isso tudo continuava nos conformes, virei o corpo e vi que a marca em forma de V invertida ainda estava ali o que me lembrava que o que eu havia vivido até hoje era completamente real. Suspirei e peguei uma camiseta do PARAMORE que estava pendurada na espaldar da cadeira e vesti, mantive minha calça de moletom que usava de pijama vez ou outra e me abaixei para abrir a entrada do porão e descer os degraus.
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Laços de Vidro
FantasyForças opostas, céu e inferno, anjos e demônios. Você é do tipo de pessoa que adora de ler sobre as fantásticas aventuras de alguém certo? Pois eu também, mas sinceramente não sei dizer se sua mente pequena e confusa tem maturidade suficiente pra en...