e quando paro em frente ao espelho, percebo que estou chorando: chorando pela perda, por saudades, por culpa, por não ser feliz e por sentir que não tenho ninguém - mesmo que já tenham me dito que não estou sozinha
e então eu quero voltar ao passado; desejo saber se o que eu sinto, sentirei e, principalmente, se o que senti, foram coisas reais ou tudo ficção criada pela minha própria mente; viciada em buscar finais felizes.
os contos de fadas que costumava ler para minha alma só... não me recordo de ter consumado um parágrafo sequer no qual o amor não estivesse presente; a aceitação, os sonhos, a paixão por ser alguém e por alguém... isso não existe de verdade, não é?
o meu reflexo não me responde;
ele permanece intacto;
seus olhos castanhos me analisam dos pés à cabeça, me fornecem detalhes do quão inchado o meu rosto está e logo se direcionam para a sala vazia que me rodeia, tornando-me uma piada por estar rodeada apenas pela escuridão e pelos pequenos resquícios de lamúrias que ainda pairam pelo ar, se distanciando aos poucos de minha boca rosada, do nariz pálido e das sobrancelhas que ameaçam sumir devido á expressão carregada que me adorna no momento.
já não me reconheço mais perante aquela peça de vidro adornada pelo mais vivido ouro e elegantes detalhes marcados brevemente por fortíssimas manchas vermelhas que dançam por seus desenhos, chegando ao chão e caminhando em direção à meu corpo já não mais reluzente como anteriormente.
não consigo mais sorrir em meio á piadas sem graça;
meus olhos mal conseguem se manter abertos;
meu corpo está pálido, frígido...
quem sou eu?
não me reconheço mais agora que estou mergulhada em um oceano profundo preenchido pelas lágrimas que me recusei a deixar caírem sobre meu rosto, embora tenha permitido, de fato, que recriassem tempestades de verão recorrentes dentro de meu coração oco.
meu reflexo agora me olha, embora eu desvie o olhar do espelho que nos conecta.
o vermelho está se tornado mais vívido em volta de mim; ele deseja subir pelas minhas mãos - eu aceito a proposta.
- Olhe para mim. - escuto as palavras calorosas se direcionarem para meu corpo praticamente sem vida e me viro em direção ao meu outro eu - se é que poderia chamá-lo desta maneira.
o sorriso que preenche o rosto de meu reflexo me deixa calma, como se ele abraçasse meus erros, meus defeitos e minhas incertezas; aceitando o meu coração da maneira como é: impuro, oco, destruído e podre.
podre como maçãs abandonadas em fazendas repletas de macieiras; como palavras falsas nunca verdadeiras; como promessas nunca cumpridas ou reflexos em espelhos quebrados que não podem ser remendados.
seu sorriso me traz esperança; talvez eu finalmente possa ir embora.
é o que eu peço com meus olhos aflitos, rosto inchado e mãos preenchidas pelo vermelho estragado que corre por minhas veias corrompidas devido ao ódio, a frieza e minha obsessão por finais felizes.
meu reflexo me direciona o desfecho de minha história.
eu estou me corroendo por dentro;
quero ir embora;
assim como um espelho, sinto cada parte de mim ser quebrada como milhares de pedaços de vidros destruídos pelo vento.
meu corpo vai de encontro ao chão, permitindo que eu me misture com o fervor da escuridão que aclama seu desejo por minha sobriedade restante.
e então eu fecho os olhos, sentindo toda a minha essência se esvair junto ás tempestades de verão, as folhas caídas de outono e as pétalas nunca florescidas na primavera.
como as nevascas de inverno que congelam as montanhas pelo globo terrestre, as minhas extremidades resfriam... tornando-se tão gélidas e translúcidas quanto o gelo.
já não reconheço mais o reflexo que capto através da visão periférica de meus olhos castanhos, então digo adeus;
me despeço de quem um dia fui, de quem sou e de quem serei.
me despeço da vida
e aclamo a longevidade da minha sina.
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reflexo
Short StoryEspelho, espelho meu. Existe um eu dentro do reflexo seu? »2018, son hyejoo ₍loona ♡°◌̊¨̮