-Capitulo 1-

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Comece a escrever sua história                          

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  Hoje acordei tarde. Olhei em volta e vi que era real, não sei como meu mui "digníssimo" esposo não veio me acordar aos tapas a essa hora da manhã; ser mãe e esposa aos 15 anos de idade, significa ser submissa aos caprichos e torturas do seu marido.

Caminhei até a sala para ver se havia alguém na casa, olhei em todos os cômodos e nada; achei estranho, ele nunca era de sair (principalmente com o filho). Confesso que fiquei feliz, meu corpo todo doía por causa da surra que eu levara na noite passada; aproveitei para tomar um banho, a água escorria pelo meu corpo de maneira que relaxava meus músculos e me fazia ir além da minha realidade. Lembrei-me da minha vida antes de ser forçada a casar com esse monstro, partidas de futebol com meus amigos, das cantorias que fazíamos dentro de casa, das viagens até a cidade com o papai. Papai, eu não sei exatamente o que sinto por ele, uma mistura de amor e ódio; eu sinto saudades dele, mas minha vida não teria se tornado um inferno se ele não tivesse me entregado ao vagabundo do seu amigo em casamento. O que ele tinha na cabeça quando me ofereceu feito mercadoria? Eu era apenas uma criança de 12 anos que sonhava em ser médica e ajudar as pessoas no futuro.

Acordei do mar de lembranças e controversas que tomavam conta de mim naquele momento, escutei um som de chave abrindo a porta, era ele. Droga, não tinha feito nada para o almoço ainda; me enrolei na toalha e sai do banheiro o mais rápido que eu pude, coloquei o sorriso mais aproximado de esposa apaixonada e feliz (afinal, não estou em condições de aguentar tapas e murros novamente).

- Oi amor, aonde você foi? Procurei por você a manhã toda. – Não sei como consigo chamar esse ogro de amor.

- Não interessa a você, cadê meu almoço? – Diz ele com uma arrogância insuportável.

- Vou cuidar disso agora. – Disse eu, um pouco temerosa de sua reação.

- Você é uma imprestável mesmo né, não aprende nunca – Ele se levanta do sofá e vem para cima de mim.

- Não, por favor não, eu já estou indo, me perdoa!

- Só não te dou uma boa lição porque estou de bom humor hoje, anda sua vagabunda desgraçada, vai logo!

Eu saio tremendo da sala e corro para a cozinha, faço um arroz e uma carne rápida, se eu demorar quem vira carne abatida sou eu. "Acabei", suspiro de cansaço, mas sei que não vou descansar nem tão cedo; o Patrick não para de chorar na sala, " ele deve estar com fome". Penso. Então faço uma papinha de cenoura e batata para ele, todo o meu amor está depositado no meu filho, a culpa não é dele de ter nascido em um matrimônio totalmente desestruturado, o máximo que eu posso fazer é trata-lo com amor, carinho e todo tipo de afeto que existir nesse mundo. Quando temos apenas um tesouro em nossas vidas, temos que protege-lo e guarda-lo em mil cadeados, para que ninguém o tire de você.

- Aqui está. – Falo chegando com o prato na mão.

- Já era tempo. – Diz ele pegando da minha mão sua refeição.

Peguei o Patrick no colo e fui dar um banhinho nele, o calor era de matar um naquela tarde; enchi a bacia com água fria, deixando brinquedos dentro para deixar o banho ainda mais divertido. O modo como Patrick sorria de alegria me deixava abobalhada, para mim cada instante com ele era especial, ele me fazia ter esperança de que um dia a paz tomaria minha vida novamente e teria uma história nova, só eu e meu filho. Depois de ter cuidado do Patrick e alimenta-lo, fui arrumar a casa e colocar tudo no seu devido lugar; ao chegar no meu quarto, me deparo com uma pilha de papeis em cima do criado-mudo, "Mas é um traste mesmo". Penso em voz alta. Me sento na cama e começo a separar lixo de coisas importantes, estava quase acabando, até que encontro uma carta da minha mãe, uma carta que nunca tinha visto e lido. Abro ela com a maior ansiedade dessa terra e começo a ler.

Querida Ávila,

Estou aqui para lhe dizer que eu nunca concordei com seu pai, sei que para você ninguém lutou para livra-la dessa situação, mas eu lutei, lutei com todas as minhas forças, nunca enfrentei seu pai por nada, mas fiz por você, infelizmente seu pai nem com todos os argumentos do mundo mudaria de ideia. Eu nunca quis botar sua felicidade em jogo minha filha, para mim você é a joia mais preciosa, e você sabe disso, imagino o quanto você chora e grita por ajuda, eu imagino todos os dias Ávila; não durmo direito mais. Você só era uma criança, me perdoe, me perdoe minha filha, eu queria muito te ajudar, mas você sabe que quem manda aqui em casa é seu pai. Perdoe-o, a crise financeira fez ele cometer essa bobagem, ele lhe ama, perdoe-nos Ávila. Eu te amo minha filha, o meu amor é imenso por você nunca se esqueça disso.

Maya

Nem percebi que estava com um rio em meus olhos, eu sabia que a mãe tinha feito tudo o possível para me livrar, sabia do seu amor e ainda hoje posso senti-lo. "Ah mamãe, se a senhora soubesse o quanto eu gritei pelo seu nome, o quanto eu chorei lhe querendo por perto". Penso. Peguei a carta e guardei dentro do bolso do meu casaco, sabendo que Omar nunca mexeria naquele casaco, fechei o guarda roupa, limpei meu rosto e sai do quarto como se nada tivesse acontecido.

- Porque seu rosto está vermelho desse jeito? – Fala ele com um tom de desconfiança.

- A poeira, estava limpando o quarto, a alergia atacou. – Disse eu, torcendo para que ele acreditasse.

- É bom que seja isso mesmo – Diz chegando perto do meu ouvido, chego a ter calafrios.

- Vou sair para resolver algumas coisas, é bom que você se comporte direitinho.

- Agora? Já está anoitecendo e amanhã você volta a trabalhar. – Tento fingir interesse, mas para mim ele pode sair e voltar nunca mais, só iria fazer um favor.

- Eu saio a hora que eu quiser, só não quero chegar e ter surpresas – Diz ele me encarando.

Eu assenti com a cabeça e ele foi embora, sinto-me livre sem ele na casa, ligo a televisão e vejo que está passando meu programa culinário favorito; estão ensinando a fazer bolinho de batata doce, receita que minha mãe fazia todo fim de semana, o sabor daquele bolinho era magnifico, anotei a receita e fui fazer uns testes antes de dormir. Não ficaram deliciosos como os da mamãe, mas para quem fez pela primeira vez estava delicioso, dei um pouco ao Patrick e vi que ele gostou, fiquei animada, comi tantos bolinhos que parecia grávida novamente, ri de mim mesma; o modo que eu me divertira naquela noite era inacreditável, eu e Patrick juntos, somente nos dois. Falando nele, já estava na hora dele dormir, sentei na cadeira de balanço e embalei-o até ele pegar no sono, estava com um anjo em meus braços, um anjo.

Depois de ter colocado o Patrick no berço, fui tomar um banho, tomando cuidado com os hematomas da noite passada que ainda estavam com um tom arroxeado e outros esverdeado. "Nada melhor que um banho no meio da noite". Falo aproveitando o momento. Ao terminar, sai do box e escovei meus dentes, o sono batia na minha porta cada vez mais. O Omar ainda não tinha chegado, sinal de uma noite de sono tranquila, para evitar aperreios desnecessários fui preparar o jantar dele. Fiz macarrão com molho de tomate fresco, deixei uns bolinhos que sobraram e tinha suco na geladeira, chequei mais uma vez e vendo que estava tudo certo, desliguei as luzes e fui para o quarto. Ajoelhei-me com dificuldade (minhas pernas doíam muito) e então orei para que deus me livrasse dessa situação, era difícil manter a fé depois de 3 anos de sofrimento, mas é o que minha mãe sempre dizia "Nunca desista. Geralmente é a última chave do chaveiro que abre a porta".

Após fazer minha oração noturna, deito-me na cama. Pouco a pouco meus olhos iam fechando, até que um sono profundo tomou conta de mim.



A boneca que vestiu brancoOnde histórias criam vida. Descubra agora