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Um estrondo ecoou pelo meu quarto, virei para o outro lado da cama para ver o que havia acontecido: e lá estava Omar, em pé com um de seus braços fixos na porta. Seu olhar me "fuzilava", não fazia ideia do que tinha feito; não despertei totalmente (e nem gostaria), dormir é meu momento de paz, meus sonhos me levam ao tempo onde a calma e a diversão prenominavam incessantemente. Lamentavelmente, máquina do tempo não existia sem ser em filmes.
- Acorda, vaca do inferno – Diz ele, me pegando pelo braço.
- Aiiiiiiiiiiii! Tá me machucando! – Grito de dor.
- E quem disse que eu me importo, bora! – Diz ele, me arrastando com mais força.
É assustador ver o prazer que ele tem em me machucar, ele ri, se sente bem com isso. Ele me leva até uma gaveta de cor escura, do tipo vintage.
- Cadê o dinheiro que estava aqui? – Diz ele, me mostrando a gaveta vazia.
- Eu não sei, nunca mexi aí. – Respondi.
- Vamos, eu sei que você tá mentindo sua ladra de merda. – Diz ele, apertando e torcendo meu braço cada vez mais.
- Ahhhhhhhh! – Urro de tanta dor e começo a chorar – Eu juro que não sei!
- Você continua mentindo, acho que você esqueceu do que acontece se mentir para mim, que tal refrescarmos a memória? – Diz ele, em seguida me joga no chão e começa a me espancar.
Tapas e murros passeiam pelo meu corpo como uma montanha russa, fico inerte em meio as pancadas. Sinto gosto de sangue em minha boca, então tento abrir os olhos para avaliar o meu estado; "Que horror". Penso. Minha condição é deplorável, mesmo com dificuldade consegui abrir meus olhos, eles estão inchados e queimam a todo instante. Ele descontinuou, fico deitada por alguns minutos, não tenho forças para me levantar, então arrasto-me até o banheiro; as gotas de sangue fazem uma trilha até o local na medida em que me movo, a minha única companheira nesse momento são elas, as marcas do meu sofrimento.
Tento tirar minha roupa, mas não consigo; olhei para o lado e vi que o monstro caminhava na minha direção.
- Quer ajuda? – Diz ele com um ar sereno, eu me retraio.
- Calma, vou ajudar você – Ele chega perto de mim e tira minha roupa. Não sei qual é a sua intenção, não confio nele e nunca confiarei; ouço o barulho do chuveiro ao ser aberto, a água começa a cair sobre mim, limpando o sangue que escorria por todo o meu corpo.
Ele me levanta e pega a escova de madeira que utilizamos para tomar banho, por um segundo pensei que sua intenção era realmente verdadeira, até que o monstro começa a apertar meus cortes, não existe descrição para a dor que estou sentindo. Como se não bastasse, o cabo da escova se torna objeto de tortura, aquela coisa rígida indo e vindo sobre minha pele, deixando marcas que durariam meses. Ele não tem dó, piedade ou qualquer tipo de remorso; frio, calculista, psicopata. São os adjetivos que o definem perfeitamente.
Pensei que tivesse desmaiado, mas não. Aguentar dois rounds de bofetadas não é para todo mundo (se é que alguém gostaria de passar por isso). Mesmo fraca, caminhei até o quarto, tudo em mim tremia, sentei na cama e desmoronei em lágrimas; "Por que justamente comigo? ", "O que eu fiz? ". É tudo o que consigo pensar. Apanhei por uma coisa que eu não fiz, de que dinheiro ele estava falando? ele escondia dinheiro, pelo seu desespero o valor devia ser alto, mas não quero pensar nisso; não posso deixar que a curiosidade acabe com o resto da "carcaça" que tenho.
Me olho no espelho, estou irreconhecível. Tenho 15 anos, porém meu rosto é de uma mulher de 28, meu rosto envelhece a cada dia que passa e as crises de Omar só colaboram. Parece que o dia para mim já acabou, queria eu, ainda é de manhã; mesmo nessa situação tenho que cumprir minhas obrigações, se eu não o fizer estarei abrindo minha própria cova. Me ergo e vou até o quarto do Patrick, ele ainda está dormindo, é bom saber que ele não escutou nada, não quero que meu filho veja essas atrocidades.
Eu luto com unhas e dentes para que nem um mal aconteça ao Patrick, acho que isso todas as mães fazem, mas nem todas obtêm sucesso. Ele irá crescer e terá um destino totalmente diferente, irá ser um bom homem, terá uma família linda e será feliz. Dou um beijo em sua testa e vou para sala, ligo a tv e me deito no sofá; tudo que eu quero é descansar um pouco e assistir um bom programa, está passando Grey's Anatomy (uma série que eu amo). Rio dos episódios (mesmo com o maxilar dolorido) e sonho que um dia poderei ser feito eles e salvar vidas, será muito difícil porque deixei de frequentar a escola, as únicas coisas que eu tenho para ler são revistas de tecidos, mas é como as pessoas dizem "Nunca é tarde demais quando se trata de estudos". "A esperança é a última que morre". Penso. Digo que minha casa é uma prisão domiciliar, faz exatamente 3 anos que nunca pus o pé na rua ou senti o vento balançar os meus cabelos. Como será a vida fora de quatro paredes? Queria tanto poder ter essa liberdade de novo, mas ainda sonho com esse dia e espero confiante de que encontrarei a luz no fim do túnel.
Como o Omar voltou a trabalhar, não me preocupei em fazer almoço, fiz só uma mamadeira para o Patrick, estava sem fome. A tarde já era chegada, bebi um copo de água e voltei a me acomodar no sofá, peguei alguns lençóis e almofadas para deixar mais aconchegante; coloquei o Patrick sobre o meu peito, ficamos abraçados naquele momento; o silêncio é agradável aos ouvidos, somente a televisão emitindo som, sem gritos, murros ou torturas. Sinto a tranquilidade fluindo dentro de mim, mesmo com novos hematomas e cortes que com certeza precisam de sutura, mas eles não me impediriam de sentir essa emoção.
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A boneca que vestiu branco
Mystery / Thriller- O que ele tinha na cabeça quando me ofereceu feito mercadoria? Ávila é uma criança alegre, extrovertida e amável. Mas ela não imaginava que sua vida seria transformada em um verdadeiro inferno. Oferecida em matrimônio pelo seu pai, Ávila irá faz...