Capítulo 3

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Estamos perdendo-o. — uma voz estranha surgiu ao léu.

— A senhora não pode ficar aqui. Ele acabou de operar. Por favor, retire-se. — uma voz ríspida feminina podia ser ouvida.

— Eu quero ficar com ele. Ele me pediu. Não faça isso com a gente neste momento. — uma outra voz, desta vez mais adocicada, mesmo que apresentando cansaço, sabia de quem era.

"Isis." — pensei no fundo do meu eu — "Ela está aqui. Quanto tempo estou..." — a dor no peito voltou a surgir ainda mais forte como se uma agulha perfurasse meu coração. Foi o suficiente para abrir meus olhos.

— Viu? Ele está bem. Está abrindo os olhos. — a voz adocicada retornou com potência e louvor.

— Senhora Isis, a senhora sabe bem o que...

— Eu sei, doutor. — calou-se por alguns segundos — Eu sei. — emudeceu em seguida.

Senti a dor em suas palavras. Algo de ruim estava acontecendo comigo. Ainda estava sonolento e meus olhos pesavam. Aquele local... uma sala de cirurgia. Certeza que era. Movimentei a cabeça com dificuldade para esquerda e pude notar, vestido todo de branco, aquele conhecido como "doutor". Próximo a ele, encontrava-se uma jovem mulher que parecia ser uma enfermeira e, ao seu lado, uma senhora de aproximadamente 60 e poucos anos. Cabelos ondulados claramente pintados de loiro, pele enrugada e um vestido floral leve e fresco. Apesar da idade, Isis continuava bela. Aquela imagem realmente me tocou e, então, tudo veio atoa. Eu estava morrendo. A meses estava doente. Foi com... 60 e poucos anos? Isso. Creio que foi aproximadamente nesta idade que descobri o motivo dos desmaios contínuos. Olhei para cima e vi meu reflexo no espelho do teto. Ofeguei. Aquela imagem. Aquele velho decrépito. Raquítico. Como eu poderia estar...

— Senhor Theodoro, acalme-se. Seus batimentos cardíacos estão acima do normal. O senhor passou dias em um coma profundo e mal acabara de acordar de uma cirurgia. Sei que não é o momento mais oportuno, mas, como seu médico, preciso infelizmente dar notícias ruins. Tentamos, mas não deu certo. Seu corpo está fraco e não resistirá a outra cirurgia. Temo lhe dizer, mas o câncer está alastrado por todo seu corpo. Não há mais nada a fazer. O senhor está... — pelo pausa e tom de voz que aquele doutor dera, sabia que não tinha muito tempo de vida. Talvez horas. Minutos. Segundos. Vai saber.

— Ela pode ficar aqui?

— Theodoro, seu corpo está muito fraco. Só a presença dela já é suficiente para matá-lo.

— E o que isso mudará? Já sabemos o resultado no final.

— Mas senhor Theodoro...

— Por favor, doutor. — limitei.

— Tudo bem. Como quiser. — disse sorrindo sem mostrar os dentes saindo da sala em seguida — Regule a bolsa de soro antes de sair. — finalizou apontado para a enfermeira. Por fim, ficamos só nós dois.

— Isis, meu amor, sente-se ao meu lado. — disse com dificuldade em uma tosse e outra.

Ela estava emotiva. Seu rosto entregava. O calor de sua mão tocou minha testa e acariciou onde a um tempo havia uma cabeleira branca.

— Não quero que vá.

— Nunca ninguém quer. — para não demonstrar dor, evitei tossir. Segurei ao máximo para não a preocupar.

— Eu... — ela gaguejou — ...trouxe seu surrado mp3. Levou um bom tempo até o técnico conseguir arrumá-lo. Mesmo velho, milagrosamente ainda funciona. — ela sorriu para meu deleite — E digo mais: Estou a dias colocando músicas que sempre marcaram nossas vidas. O médico me disse que isso não mudaria nada o seu estado, mas mesmo assim, eu o fiz. Para mim, sabia que lá no fundo você ouviria e lembraria de mim. De seu filho. De nós. — ela sorriu novamente, porém, desta vez, era notório sua angústia — Quero que ouça comigo Angels do Robbie Williams. Você sabe que é uma de minhas canções favoritas.

Sorri enquanto ela plugava um dos fones em meu ouvido. — Mas este não é um adeus. Nem todo adeus é sinônimo de "nunca mais", às vezes podem significar um simples "até mais". Cedo ou tarde nos encontraremos. — pausei para um longo respiro — Eu quero te contar algo. Não sei quanto tempo fiquei ausente, mas neste tempo lembrei da nossa história. Quando nos conhecemos. Mas estava diferente. Muito diferente diga-se de passagem. Cheio de criaturas e um mundo completamente transformado. Até um vilão chamado Pinça tinha. — sorri na medida do possível — E nesta história...

PROLIFERAROnde histórias criam vida. Descubra agora