Pensei que aquela crise horrorosa de choro nunca mais fosse acontecer, que era só tristeza, que ia passar. Mas foi se tornando cada vez mais frequente, o vazio foi me dominando a cada segundo, e eu não fiz nada para impedir que acontecesse.
Sempre fui boa em fingir estar bem, era mais fácil do que colocar todos os meus sentimentos pra fora, mas doía muito mais esconder. Com dez anos conheci o Arthur, que se tornou o meu melhor amigo, ele entendia perfeitamente o que eu sentia e sabia como ajudar nas horas de pânico.
Nossa amizade sempre foi extremamente especial, o que me ajudou a superar algumas coisas, como o abandono materno e paterno. Ele é a minha família que não precisa ter laços sanguíneos, a coisa mais importante de toda a minha vida e também uma das razões pela minha melhora no hospital.
Cada visita tem me deixado mais feliz, uma felicidade que até então eu não sabia que existia mais. Pensava que talvez o vazio nunca sairia do meu peito, que morreria assim, fria e vazia. Quem diria que uma internação me faria mudar de ideia não é mesmo? A vida tem coisas muito imprevisíveis mesmo.
Nesse final de infância as coisas começaram a mudar, os gostos, olhar as pessoas com outros olhos, os sentimentos diferentes surgindo, o corpo mudando, os malditos padrões de beleza caindo sobre mim. Tudo veio como uma avalanche e eu não soube como fugir ou ao menos jogar toda essa neve de cobranças pra fora do meu corpo. Talvez ainda não saiba direito, mas posso tentar.
O final da infância é algo engraçado as vezes, pensamos que vamos ter mais liberdade, mas não vamos, pensamos que iremos ser tratados de forma diferente, mas não vamos. Queremos responsabilidades, confiança, porque nos sentimos imortais, e quem sabe até somos, mas não entendemos nada do mundo e nem ao menos como ele funciona.
As porcarias dos padrões ridículos de beleza nos fazem doentes, ser magra, ter cabelo liso, olhos claros, ser popular, ter um namorado, mas nada dessa porra vai nos fazer felizes e realizadas, sabemos disso, mas corremos atrás dessa perfeição estúpida mesmo assim. No final das contas ficamos cegas por essa perfeição tão infeliz, somos todos cegos por essa merda, e olha onde eu vim parar depois de tanto me cobrar por não ser o padrão, em uma ala psiquiátrica porque tenho depressão e ansiedade, nunca imaginei que toda essa babaquice poderia me trazer até aqui, que toda essa babaquice faz meninas de dez ou onze anos se auto-mutilarem por não ser o padrão, a droga do padrão.
Os sentimentos em relação as pessoas muda completamente, as dúvidas em relação à sexualidade que podem trazer mais uma vez pessoas ao mesmo lugar onde eu estou. Ver que sente atração pelo sexo oposto e também ver que as pessoas acham isso uma aberração, não ter nenhuma referência ou algo que possa explicar para que nos deixem menos confusos em relação a isso, nos deixa perdidos e assustados. Lembro exatamente de quando me descobri bissexual, tinha tanto medo do preconceito, do que as pessoas iam pensar, de apanhar na rua ou por algum familiar, sempre foi tudo muito assustador.
É tão triste ver pessoas que só querem amar ficando depressivas porque negam delas o direito de amar, e vê-las chegando aqui, gostaria de ter uma saúde mental melhor para ajudar todas, porque sei exatamente o que é ser um LGBT no Brasil e sei como é se descobrir logo no final da infância. Arthur foi a primeira pessoa a saber, lembro do abraço apertado que ele me deu e o sorriso caloroso de quem dizia "eu amo você e não me importa, é seu direito de amar quem quiser", foi a maior demonstração de amor que já recebi em toda vida.
Sempre foi nós dois contra tudo e todos, e saber que ele ia enfrentar a adolescência comigo era o suficiente pra saber que eu podia enfrentar tudo. Porque somos invencíveis.
"Querido Arthur,
Em alguns dias irei dar alta, quero que saiba que te amo muito e que logo vamos tomar nosso café com pãezinhos de queijo enquanto conversamos sobre as nossas interpretações das suas poesias.
Com todo amor, Liana"
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Ela Salva a Si Própria
Teen FictionMeu nome é Liana, Liana Rossetti, atualmente estou na ala psiquiátrica, a história antes de eu chegar aqui é longa. Não posso mudar esse passado, mas quando der alta amanhã, farei uma vida diferente pra mim.