Parecia que já estava tudo planeado. Chama-se rotina.
Pois, rotina. Uma das coisas que odiava na vida de um humano. O Humano é feito de rotinas, sempre a mesma coisa. Têm sempre medo de mudar um pouco o que é costume, como se tivessem medo de arriscar, como se pudesse correr mal.
Tinha o meu uniforme já passado a ferro em cima da secretária, sim, porque a minha querida mãe já nem se dá ao trabalho de pôr os pés naquele quarto. Eu também não quereria. Arrastei o meu corpo até à cozinha, onde comi que nem um monstro. Poderia ser que fosse um, talvez noutra vida.
Apanhei um táxi e fui até ao colégio. Um colégio de freiras. Perfeito.
"Só tens que aguentar a porra de um ano letivo, não mais. Tu consegues!" Encorajei-me.
Tinha ido para um colégio onde a maioria do pessoal tinha um pouco o nariz empinado. Como odiava essa gente, que só por ter dinheiro achavam-se os melhores deste mundo. Desde de nova que gente dessa me fez a vida num inferno. Daí o meu grande ódio. Dei grandes e apressados passos para chegar o mais rápido que conseguia ao pavilhão. Entrei para a sala e sentei-me numa das cadeiras mais afastadas de toda a gente.
O meu cabelo estranhamente volumoso não passava por desconhecido, sendo suficiente para cada pessoa que passava por mim, ficar a olhar que nem parvos chapados. Na sala, entrou vinte pessoas depois de mim. Já todas se conheciam. Eu não.
Eu era a novata, a novidades, a "caloira", como muitos dos espertinhos já me chamavam. Levantámo-nos.
- Esta é a nova colega, que entrou este ano para o nosso estimado colégio - A professora sentou-se e toda a turma o fez - Espero que te adaptes bem ao nosso colégio! - Fez um sorriso falso e toda a gente olhou para mim. Ia para revirar os olhos, mas pensei que não seria a melhor altura para o fazer.
Matemática: aquela disciplina que, mesmo que não goste, vou ter que sabe-la bem, se quero seguir design.
Saí da sala, logo depois do toque e sentei-me num dos cantos mais afastados de toda a escola. Tirei os meus phones de dentro do bolso das calças e liguei-os ao telemóvel. Sempre tivera um gosto estranho por violinos. Nunca soube ao certo porquê. E também nunca partilhei esse gosto com ninguém à minha volta, ou seja, ninguém sabe da minha estranha atração por violinos.
Acho-os um instrumento tão delicado que pode ser maravilhosamente bem tocado, ou brutalmente arruínado por mãos como as minhas.
Quando dei por mim, o primeiro dia de aulas, secante como todos os próximos que se aproximavam, tinha oficialmente acabado. Eu estava naquele colégio à umas horas e já não conseguia suportar todas aquelas raparigas, que só falavam dos outros nas costas, nos intervalos. Meninas senobes, que nos dão nomes diferentes pelas costas. Isso chamo falsidade. Raparigas demasiado obsecadas com o sonho de serem modelos internacionais ou cantoras que podem encher mil e quinhentos estádios por todo o mundo. Tudo não passa de um sonho, até passarmos à realidade. Os sonhos são comparados a rascunhos, o que os torna reais, é o trabalho que tens para o formares em coisas com que te possas orgulhar.
É bastante fácil falar. Agir? Não tanto!
Coloquei a chave na fechadura e entrei. A minha mãe estava no escritório, a trabalhar par um dos seus novos projetos. Passei pela porta do escritório, sem a cumprimentar. Já se sabe como a minha mãe é: se estiver concentrada, a casa até pode estar a arder, ela não quer saber. Abri a porta do meu quarto e atirei-me para cima dela.
- Como foi o teu primeiro dia, filha? - Surgiu a pergunta a meio do jantar.
- Bom! - Mentira.
- Já arranjaste alguma amiga? - Sim, os amigos caem do céu...!
- Não, mãe. Nem tenciono! - Respondi levando o copo à boca.
- Porquê, filha?
- Porque só lá vou ficar um ano. Não estou para criar laços com pessoas que nunca mais vou ver! - Elevei um pouco a voz, sem necessariamente querer.
- Não fales assim comigo! - Repreendeu-me.
- Peço desculpa! - Tinha que me controlar! - É só porque eu não quero ficar amiga daquela gente!
- Mas são raparigas normais...
- Espera até conheceres alguma...! - Murmurei. Que estupidez! Assim que alguma vez a minha mãe se encontrar com alguma daquelas, elas vão parecer as raparigas mais santas daquela terra.
- Mas não tinhas dito...
- Mãe? - Pedi, interrompendo-a - Não quero falar sobre isso!
Abanou a cabeça e levantei os nossos pratos. Lavei a loiça e encaminhei-me logo de seguida para o meu quarto, enquanto a minha mãe voltava a fechar-se naquele escritório. Lá está: rotina.
Fiz os meus trabalhos e arrumei-os de volta ao sítio onde pertencem, preparei a mala para o dia seguinte e vesti o meu pijama. Abri a cama e deitei-me, de cara para o teto.
"Talvez amanhã seja um pouco melhor..."
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No name, just that. (incompleta)
Teen FictionRaparigas que se deixam levar pelo mundo da perfeição, sonhos por realizar, prazeres escondidos. Esta simples frase pode parecer um grande drama, mas talvez seja simplesmente a realidade em que vivemos, e que por mais que tentemos, não a conseguirem...