Ano de 2010
David caminhava tarde da noite, pelas ruas da zona sul do Rio de Janeiro, sem nenhum destino certo. A cabeça atochada de indagações e o coração repleto de dúvidas assustadoras: Sobre si mesmo. Sobre sua vida sem propósito definido. Sobre o mundo a sua volta. Sobre a realidade e a ilusão... Então sem que ele percebesse, num rompante de sua mente, atrapalhado pelos seus pensamentos, uma mulher passou por ele e ao se desequilibrar do salto alto, esbarrou bruscamente em seu ombro.
(...) Uma dor de cabeça. Uma pontada doída do lado esquerdo do cérebro. Droga! O que é isso? Aaaai! Uma paulada? Tudo escureceu (...).
***
Nascera mais uma manhã de verão linda de sol no Rio. David admirou pela janela do apartamento do 7º andar no Leblon, o mar se movimentando belamente como sempre, azul, sereno, sincronizado no seu vai e vem espumante e brilhante. Assentou-se na sua cadeira na varanda meditando no que poderia ter acontecido na noite passada. A dor havia passado. Constatou isto franzindo a testa enquanto bebia uma xícara de café preto. Mas como chegara ao apartamento? Tinha que parar de beber. Essas amnésias alcóolicas... Contudo, graças a Deus sentia-se bem.
— Que alívio! Disse respirando profundamente.
Como de costume passou a ler o jornal O Globo que recebia todos os dias pela manhã. Passou pelo caderno de finanças e comércio e sentiu um enjoo querendo visitá-lo.
— As coisas não estão indo nada bem.... Preciso resolver esses problemas na empresa. Mas como?
Passou a ler a página policial para se distrair. Mortes e mais mortes. Gente morta. Gente presa. Mais gente morta. Normal.
— Caramba! Um assassinato em frente ao meu prédio. Ah... Uma prostituta... Essas mulheres morrem todos os dias, também com a vida que levam o que elas querem? Viverem para sempre? Deu de ombros. Tenho problemas bem maiores.
— Grace? Sim sou eu. Chego daqui a trinta minutos. Agende o primeiro paciente para esse horário. Colocou o celular no bolso da calça. Pegou suas chaves e entrou no elevador. David era um homem de meia idade, belo e solteiro. Uma vizinha entrou no andar seguinte de baixo no elevador, o cumprimentou com um bom dia enquanto o admirava. O doutor surfista, bronzeado, tatuado., frequentador de academia era muito atraente. Possuía cabelos levemente grisalhos bem cortados e curtos. Vestia-se elegantemente e até aquele momento era muito rico. Dono de uma rede de clínicas de reabilitação psiquiátrica. Porém os negócios iam de mal a pior. David havia pegado alguns empréstimos bancários e não estava conseguindo honrá-los. Os pacientes haviam diminuído e o seu custo de vida era alto demais.
Entretanto possuía uma conectividade sexual intrigante com as mulheres. A vizinha, Angely, uma antiga namorada, apertou o botão vermelho de emergência do elevador e o travou. David soltou um sorrisinho de canto na boca e estendeu o braço para apertar o botão térreo. Angely segurou o seu braço dizendo:
— Ou você deixa no botão vermelho ou aperta o décimo andar, para subirmos para o seu apartamento. David sorriu e agarrou a cintura da moça, chegando seu corpo ao dele. Angely era uma bela morena de olhos claros, corpo sinuoso e quadril avantajado. A mão máscula de David apertou o décimo andar, enquanto seus lábios beijavam os lábios de Angely e o seu corpo grudava no dela num tranco quase animalesco.
— Grace? Pois não. — Cancele todos os pacientes da manhã. Só vou trabalhar à tarde. — Mas doutor...
(...) Um grito. Uma dor de cabeça forte. Uma voz de mulher. Uma alma dentro de outra alma fugindo no fundo de si mesma para um lugar que não se descobrira qual era ainda (...). David abriu os olhos e pensou:
— Puxa! Até cochilei. Realmente dessa vez nos superamos Angely. Disse o doutor. Mas a moça não se encontrava ao seu lado na cama.
— Deve ter ido embora. É... ela sempre faz isso. Contudo devia ter algum compromisso, assim como eu.
— Que horas são? Caramba! Onze horas. Almoço no caminho da orla e depois vou para o consultório. Disse o doutor a si mesmo.
No hall do prédio no Leblon havia um grupo pequeno de pessoas cochichando. David percebeu os olhares entristecidos. Aproximou-se e indagou ao porteiro: — Severo, o que aconteceu?
— Doutor, uma mulher morreu aqui na frente do prédio.
— Ah, sim está no jornal. A prostituta. Severo, essas mulheres, a vida que levam o que mais pode se esperar que aconteça a elas.
— Não doutor! Quem morreu foi a doutora Angely, a fisioterapeuta.
A pasta marrom de couro da Louis Vitton despencou da mão do doutor e encontrou o piso de mármore do hall. O homem ficou pálido.
— Como assim ela morreu? Como aconteceu, quando?
— Sabe doutor acho que foi essa manhã. Pois ontem eu vi a doutora Angely entrando no prédio vindo do trabalho. Mas não a vi saindo hoje. O coração de David acelerara-se de uma forma... Que lhe faltava o ar e o rosto começou a ficar pálido.
— Onde? Como ela morreu Severo?
— Parece que ela caiu da janela do próprio apartamento, ou se jogou, não se sabe ainda. A polícia está a caminho. O doutor apavorou-se. Pegou sua maleta e até esqueceu-se de seu Land Hover na garagem do prédio.
— Doutor, o carro, o manobrista já retirou. Ele nada respondeu. Atravessou a avenida sem olhar para trás e nem para os lados, onde o corpo de Angely supostamente deveria ter caído. Mirava fixamente as ondas no mar, enquanto os seus sapatos se enchiam de areia. Lágrimas saltavam de seus olhos e uma dor de cabeça latejou tão forte, que ele perdeu os sentidos. Seu corpo despencou nas areias da praia do Leblon.
Quando David abriu os olhos, recuperando os sentidos, tudo era branco. O quarto, a roupa de cama, as pessoas a sua frente vestiam branco. Ele vestia branco. Seus braços e seus pés estavam contidos com faixas. Ele tentou se mexer, mas não conseguiu. Sua realidade o visitara novamente. Caindo em si. Sofreu. Soltou um grito. Chorou. A ilusão era muito mais divertida e fantástica. A prostituta por outro lado, fora só um bônus de prazer. O restante... Pura ilusão. Doce ilusão sonhadora. Uma agulha perfurou o seu braço. Um tenso sono novamente. Outra ilusão deliciosa e nova surgiria?
— Finalmente conseguimos recuperá-lo. Foi muita sorte o encontrarmos deitado dormindo sossegado na areia da praia do Leblon, em frente ao prédio que seu irmão gêmeo mora. Sorte que ele viaja muito e nem se deu conta de que seu irmão maluquinho passou por lá. E o diretor Abner não vai gostar nada de saber que ele fugira da clínica de novo. Mesmo que tenha sido por apenas uma noite. O irmão paga uma fortuna para mantê-lo trancafiado aqui dentro. Disse o enfermeiro Diogo ao colega de trabalho Bruno.
— Mas imagina o estrago que não pode ter feito um esquizofrênico desequilibrado e que se recusa a medicar-se como David, durante uma noite inteira perambulando pelo Leblon.
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Em breve o quarto conto... Aguardem!
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7 CONTOS - NINGUÉM É O QUE APARENTA SER! AUTOR: KIEVE HAVIN.+ 18
Short StoryO SER HUMANO É UM ADAPTADOR POR NATUREZA. COMPLEXO NOS MÍNIMOS DETALHES DE SUA MENTE. MÁSCARAS, OLHOS E DISFARCES SÃO SUAS PODEROSAS ARMAS.