Paola se sentia em um labirinto e por mais que procurasse uma saída, não a encontrava de jeito nenhum.
Estava presa em um dilema moral, entre seguir os princípios dos quais foi criada e acreditava, ou o lado que a dizia para não correr o risco de perder o emprego que tanto batalhou para conseguir. Passou a noite em claro ponderando os ônus e bônus, não viu outra opção a não ser aceitar a proposta maluca de sua chefe. Manter um casamento falso, que aos olhos dos demais, seria verdadeiro.
Era sim! Teria de se casar com Ana Paula de Vasconcelos, a megera!
• AP •
Naquele mesmo dia, já com toda a papelada em mãos, Ana Paula e Paola seguiram até o Serviço de Imigração dos Estados Unidos. O lugar estava relativamente cheio com uma grande fila da entrada até o balcão principal com pessoas esperando para serem atendidas.
Ana Paula não se preocupou em passar na frente, ignorando completamente os protestos de uma Paola envergonhada e das pessoas revoltadas com a atitude da mulher.
– Próximo por favor...
O homem atrás do balcão chamou o próximo na fila, mas antes que a senhora pudesse se aproximar, a editora passou em sua frente.
– Ah com licença, preciso que dê entrada neste visto de noiva para mim por favor.
Ele deu uma rápida olhada nos papéis entregues pela mulher e logo desconfiou que algo estava errado ali.
– Senhorita Vasconcelos?
– Sim?
– Me acompanhe por favor.
Disse e saiu acompanhado pelas duas mulheres, levando-as até uma pequena sala com uma mesa e duas cadeiras, da qual indicou para que se sentassem.
Antes de sair, o homem informou que logo seriam atendidas e em seguida as deixou sozinhas. Paola andava de um lado para o outro apreensiva, enquanto Ana Paula mexia despreocupadamente em seu celular.
– Pare de andar assim ou fará um buraco no chão.
– Estou com um mau pressentimento...
– Não seja boba.
Segundos depois, elas ouviram três leves batidas na porta e logo em seguida um homem de estrutura média e cabelos castanhos ralos adentrar a sala.
– Boa tarde, senhoras.
Ele as comprimentou e se apresentou rapidamente, após as formalidades, o homem tratou de ir direto ao assunto que os levava ali.
– Você deve ser Ana Paula, correto?
– Isso.
Respondeu a mulher com indiferença. Paola muitas vezes se constrangia com as atitudes da outra mulher.
– Sou Paola Carosella, prazer.
– Bem, desculpe fazê-las esperar, está uma loucura isso aqui hoje.
– Fique tranquilo, nós entendemos completamente, na verdade agradecemos por ter nos recebido tão rápido.
– Certo... Então, eu tenho algumas perguntas para vocês.
– Pois não?
– Ana Paula e Paola... Por acaso vocês estão cometendo uma fraude para evitar que ela seja deportada e assim mantenha a sua função de editora-chefe na Golden Books?
Ana Paula finalmente tirou os olhos do celular do qual digitava e Paola riu de nervoso sem saber o que responder.
– Isso é ridículo... De onde tirou essa ideia?
– Recebemos uma ligação esta tarde de um homem chamado...
Procurou rapidamente entre as palavras no relatório em suas mãos, mas Ana Paula se adiantou.
– Seria Bob Spaulding?
– Isso mesmo.
– Ah, pobre Bob... Bob não passa de um ex funcionário vingativo. Eu peço desculpas, mas nós sabemos que está muito ocupado com uma sala cheia de imigrantes para atender, se nos disser qual é o nosso passo faremos imediatamente e iremos embora.
– Senhorita Vasconcelos, sente-se por favor.
Resignada, a mulher finalmente sentou-se em frente a mesa e deixou com o que o homem falasse.
– Me deixe explicar para vocês o processo que estamos prestes a começar... O primeiro passo será uma entrevista agendada, cada uma fica em uma sala separada, e eu pergunto sobre coisas triviais que um casal de verdade saberia sobre o outro. Segundo passo, eu me aprofundo em suas vidas pessoais, analiso seus registros telefônicos, falo com vizinhos, entrevisto seus colegas de trabalho etc... Se as suas respostas não coincidirem em todos os pontos, você, Ana Paula, será deportada indefinitivamente.
O olhar incisivo do homem fez pela primeira vez Ana Paula se sentir intimidada.
– E você mocinha, terá cometido um delito punível de multa de duzentos e cinquenta mil dólares e pena de cinco anos em uma prisão federal.
Paola tremeu. Sua atenção foi roubada pela mulher sendo carregada por dois policiais fora da sala.
– Então Paola, tem algo que você queira me contar?
Ana Paula podia ouvir os pensamentos de Paola enquanto o silêncio na sala reinava. Ali poderia ser o fim dela, sua carreira estava nas mãos da jovem e ela tinha certeza que Paola não arriscaria sua liberdade para salvar a sua pele.
– Senhor Miller... A verdade é que...
Olhou lentamente para sua chefe ao seu lado, os olhos castanhos de Ana Paula e pela primeira vez em anos trabalhando com aquela mulher, Paola viu fragilidade e se amaldiçoou mentalmente. Só havia uma coisa que ela poderia fazer...
– Senhor Miller, a verdade é que Ana Paula e eu somos duas pessoas que não deveriam ter se apaixonado, mas aconteceu.
Paola sentiu seu estômago embrulhar com suas palavras.
– Não contamos a ninguém no trabalho por causa da promoção importante que eu estou para receber.
– Promoção?
– É, nós achamos que seria totalmente inapropriado dado ao fato que vou ser promovida a editora...
– Editora?
Ana Paula repetiu, incrédula com a audácia da assistente se promover assim, mas disfarçou sua surpresa e encarou o homem, que parecia pouco convencido daquela história.
– Certo... Vocês contaram aos seus pais sobre esse romance secreto?
– Ah não, meus pais morreram. Sem irmãos ou irmãs também.
– E seus pais faleceram também, Paola?
– Não, os dela estão vivinhos da silva. Inclusive, nós íamos contar a eles neste fim de semana. É aniversário de noventa anos da vovó e a família vai estar reunida, achamos que seria uma boa surpresa.
– Certo, acho que por enquanto isso é tudo do que preciso... Vejo vocês segunda-feira às onze horas para a entrevista agendada e é bom que as respostas coincidem em todos os pontos.
O celular da mais baixa tocou e ela imediatamente atendeu a ligação, deixando Paola para trás. Os minutos no elevador pareciam os mais longos da vida da jovem enquanto Ana Paula parecia alheia a preocupação da sua assistente.
Quando as duas mulheres saíram do prédio Ana Paula já havia desligado o celular.
– Então, o que vamos fazer é o seguinte... Vamos até a cidadezinha em que seus pais moram, fingimos que somos namoradas e contamos a eles que estamos noivas. Use as milhas nas passagens, acho que posso levá-la de primeira classe mas garanta o uso das milhas, se não for com elas não vamos... E por favor, confirme a refeição vegetariana porque da última vez deram para outra pessoa e me forçaram a comer uma salada murcha com um molho pegajoso e quente e... Por que você não está anotando?
– Oh me desculpe, você não estava naquela sala?
– O que? Ah... aquela história da promoção? Foi genial! Ele caiu direitinho.
– Eu estava falando sério, Ana Paula. É uma multa de duzentos e cinquenta mil dólares, e cinco anos em uma cadeia federal! Isso muda as coisas.
– Promover você a editora? Esquece, sem chances.
– Então, boa sorte. Eu estou fora e você está ferrada, até mais, senhorita Vasconcelos.
Paola acenou para a mulher e lhe deu as costas.
– Está bem! Vou promovê-la à editora... Se passarmos o fim de semana com sua família e fizermos a entrevista, eu a promovo à editora.
– Mas não daqui há dois anos, se é o que está pensando, vai fazer isso agora.
– Está bem!
– E vai publicar o meu manuscrito.
– Dez mil cópias, primeira...
– Não, vinte mil cópias, primeira tiragem. E diremos a minha família sobre o noivado quando e como eu quiser... Agora, eu quero que me peça com jeitinho.
– "Pedir com jeitinho" o quê?
– Peça gentilmente que eu me case com você, Ana Paula.
– Tá brincando?
– Você me ouviu. De joelhos.
Ana Paula riu e pensou em argumentar, mas percebeu que Paola não cederia aquilo. Então, a editora estendeu a mão para sua assistente que a ajudou a se ajoelhar.
– Assim está bom pra você?
– Ah, eu gosto assim...
– Quer se casar comigo?
– Não, seja convincente.
A editora respirou fundo. Elas atraiam olhares das pessoas que passavam ao seu redor.
– Paola...
– Sim, Ana Paula?
– Minha doce e amada Paola, você por gentileza, com mil coraçõezinhos, aceita ser minha esposa?
A jovem olhou para cima, dramaticamente fazendo uma pausa para pensar.
– Sinceramente? Não gostei do sarcasmo, mas aceito.
– Ótimo.
– Te vejo amanhã no aeroporto.
Paola lhe dá as costas e sai deixando a mulher sozinha no chão como se nada tivesse acontecido.
Oh, aquele seria um final de semana e tanto.
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A PROPOSTA | revisando |
RomanceAna Paula de Vasconcelos é uma mulher forte, incisiva, poderosa e uma das mais respeitada editora-chefe de uma multinacional norte-americana. Por adorar criar um clima de terror sobre seus funcionários, foi secretamente apelidada de "megera" pelos m...
