Capítulo 3

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A noite na capital é iluminada, agitada e barulhenta. Antero observava atrás da janela fechada todos os movimentos das pessoas nas calçadas e dos veículos presos nos longos engarrafamentos. Sua respiração embaçava a vidraça devido à proximidade. Afastou-se lentamente ainda encafifado com os detalhes do caso. Sentou-se na cama e esfregou as têmporas úmidas de suor. Agora essa bosta não liga sozinha, né? Levantou-se e apertou o interruptor que ligava o ventilador, porém, sem efeito. Clicou para os lados, diversas vezes, mas o objeto não funcionou. Ele sorriu e balançou a cabeça.

Abriu a mala, pegou uma muda de roupa para dormir, dirigiu-se ao banheiro e ligou o chuveiro. Sentia a água quente cair em sua cabeça e escorrer pelo corpo, espalhando uma sensação de relaxamento, algo de que ele precisava muito. Sem mais nem menos, tudo ficou escuro, e a água gelada tocando sua pele o assustou.

— Mas que merda! — Gritou ele tirando os cabelos molhados do rosto. Tateou as paredes até encontrar o interruptor, clicou três vezes, mas a lâmpada não acendeu. Deslizou as mãos sobre os azulejos da parede em busca da toalha pendurada, no entanto, sua mão tocou em algo diferente.

A textura era macia e quente, levemente coberta com uma pelugem rala, o que quer que seja que ele tocou, moveu-se na escuridão, lhe deixando com a espinha arrepiada e gelada.

— Quem tá aí? — Gritou ele balançando as mãos em busca do corpo de quem quer que fosse que estivesse lhe pregando aquela peça. — Não tem graça, tá legal. Já saquei a de vocês.

A luz acendeu no instante em que ele pisara para fora do banheiro. O quarto estava iluminado, sua toalha completamente molhada estava jogada sobre a cama e o ventilador estava ligado. Que porra é essa? Antero encostou-se na parede e manteve-se em completo silêncio, pretendendo escutar qualquer movimentação estranho nos seus aposentos. Depois de meia hora ele desistiu e caminhou até a sala, surpreendendo-se com o que vira, o carrinho que transportou sua lasanha ainda estava ali, no entanto, ele lembrava-se perfeitamente de tê-lo despachado após a refeição.

Aproximou-se e ergueu a tampa que cobria o prato. A visão que teve foi uma das mais aterradoras e nauseantes em toda sua vida. Havia ali uma lasanha podre, completamente tomada por fungos verdes-azulados. Ele levou a mão à boca ao sentir o estômago revirar, e imediatamente tampou o prato.

Naquele exato momento alguém bateu à porta. Antero deu-se conta de que estava nu, pediu que aguardassem enquanto ele colocava um calção. Ao atender à porta surpreendeu-se ao ver a equipe de manutenção.

— Viemos averiguar o ventilador que o senhor pediu.

— Eu pedi?

— Antero Cesar, quarto 1810. É aqui?

— É, mas... Ah, quer saber, entra logo.

O escritor foi até a geladeira e serviu-se de uma lata de refrigerantes. Não havia muito que comer ali, só besteiras e lanches simples. A equipe da manutenção deixou o quarto bem rápido afirmando que o problema havia sido resolvido. Antero ainda estava assustado e confuso com tudo o que havia acontecido. Trancou a porta e passou pelo carrinho fungando com o cheiro de podre impregnado em suas narinas.

Deitou-se abraçado a um travesseiro e tentou refletir sobre suas estranhas experiências. Algo estava acontecendo ali, algo de muito estranho. Inicialmente por sua cabeça passou a ideia de que estava fantasiando tudo aquilo, devido ao peso psicológico que aquele ambiente continha, depois começou a crer que alguém estava a lhe pregar peças, afinal, a lenda não sobrevive sem testemunhas.

Apesar da cacofonia de sons que a cidade emitia, ele conseguiu dormir e até sonhar. Sonhou que era um detetive, na época do crime e fora escalado para investigar o caso. Com seu parceiro Watson, ele coletava pistas ao redor da cena, olhava tudo, em cada canto que ia, conseguia uma pista que cada vez mais iluminava o caso. Analisando a arma sobre o sofá, chegou à conclusão de que a garota havia cometido suicídio. Pois, se amarrara e segurou a arma com a boca, já engatilhada e presa a um elástico, saltou de cima do sofá e assim a pistola foi puxada pelo ventilador, disparou em sua cabeça e após isso fora arremessada de volta ao confortável assento.

"Elástico?"

Antero levantou-se abruptamente e correu até o interruptor. Sua mão bateu forte contra a parede, mas as falanges tocaram o objeto que desejava e as luzes acenderam. Ele estava ofegante e suado.

— Quem está aí? Quem disse isso? — Olhou embaixo da cama e não encontrou nada. Com a racionalidade voltando ao normal, lembrou de que acabara de acordar de um pesadelo, logo, a voz que escutara não poderia ser real e sim parte do sonho. Um som lhe chamou atenção; o chuveiro estava ligado.

Ele adentrou vagarosamente ao banheiro e estatuificou-se diante do box ao ver uma embalagem de tinta para cabelos vazia no chão e os seus chinelos debaixo d'água. Balançou a cabeça e olhou-se no espelho.

— Nãããããããooooo!!! — Antero sentou-se no chão molhado e levou as mãos à cabeça. Rebentou-se num pranto incontrolável. Sua voz chorosa misturava-se aos gritos de horror. O choque de vê-lo com os cabelos tingidos de loiro foi demais. — Não. Não. Não... Isso não é real, não é.

"É real."

— Não. Não é. Para, não tem graça mais. Para porraaaaa!

Antero levantou-se e olhou-se no espelho novamente, mas o que ele viu foi ainda mais surpreendente. Começou caminhar para trás com os lábios tremendo e os olhos cheios de lágrimas. Tocou a parede oposta e decidiu vagarosamente olhar para o box.

Lá estava ela. A garota morta, ensanguentada, com seus cabelos loiros molhados e tingindo-se de vermelho conforme o vitae escorria do furo de sua cabeça. O choque foi grande demais e Antero desmaiou.


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Oooiii pessoes! Bem-vindes de volta!

E aí? Que tenso esse capítulo né?

O que acham que está rolando? E agora, o que acontecerá com Antero depois de desmaiar?

Venha comigo pra descobrir, venha!

Beijitos!

xoxo

O caso do 1810Onde histórias criam vida. Descubra agora