Breves momentos.

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Eu estou sem sono e extremamente agitado, já fazem mais de duas horas que estou olhando para o teto sentindo meu coração quase sair de dentro do meu peito, em compasso com meu tronco se levantando e abaixando no ritmo de uma respiração ofegante. A sensação é que um fio desencapado acaba de entrar em contato com a minha pele, entretanto, diferente do esperado, não tem nenhum dano, mas sim me deixava imensamente eletrizado e ativo. Tem perto de duas horas que estou tentando captar o que se passa na minha cabeça, embora todo esforço não tenha valido de nada. Todos os dias que passei deitado estão sendo catalogadas na minha mente como uma espécie de vagões de trem passando em alta velocidade frente a um telespectador, que devido a celeridade, não consegue se ater a detalhes, somente muita informação. Tinha algo de assustador misturado com prazer de me sentir vivo de novo, mas não tinha como não me sentir seriamente preocupado. Teriam posto alguma droga em alguma bebida? O suco no almoço? Talvez minha mãe, porém, apesar de termos uma relação pouco saudável, não acredito que ela seria capaz de me drogar, mas descartar tal possibilidade só me deixava ainda mais confuso.

Queria levantar, gritar e logo após fazer tantas coisas que eu havia deixado de sonhar a um bom tempo, quem sabe estudar alguma coisa ou planejar meus próximos passos, talvez meus primeiros passos seja mais adequados. Junto a tudo isso, aflorava uma angustia de saber que desperdicei tempo com preguiça, e que na verdade não tinha como saber sobre a veracidade dos sentimentos anteriores, talvez eu estivesse alimentando a tristeza para não ter de lidar com a vida real. Me desvencilhei dos pensamentos, balançando a cabeça, decidi que quero recuperar todo tempo perdido.

A madrugada já cedia seu espaço para a manhã de uma segunda feira. A casa estava bagunçada, já que todos estavam presentes no domingo, isso é de praxe aqui, porém como poucas vezes havia acontecido antes, aquela desordem me incomodou. Dado que eu não saía com frequência do meu refúgio, ainda mais quando haviam outras pessoas em casa, não era o cenário que usualmente encontrava, no entanto coloquei uma música eletrônica qualquer, em extremo volume, e fui arrumar a casa.

No caminho do banheiro de serviço onde estava a vassoura, notei algo deslizar pelas minhas pernas, me lembrando que o short que estava vestido não me servia bem, e por mais confortável que era durante o sono, não era oportuno para além disto. A nudez parcial nesse contexto não era algo agradável para mim, receoso que o "pique" cessasse, abri o armário, peguei a primeira camisa e a primeira bermuda, e voltei a cozinha. Não havia se passado nem uma hora e meia, e ao meu ver, havia deixado a casa um brinco, coisa que raramente era de meu feitio, e inclusive era pauta de muitas das discussões familiares, já que todo o trabalho duro ficava para minha mãe e minha irmã mais nova. Mesmo que aquilo me matasse por dentro, eu simplesmente não conseguia ser diferente, me sentia estrangeiro dentro da minha pele, como uma alma andarilha no mundo. Não sentia que existia espaço pra mim ali dentro, logo não faria por amor ao meu lar, se é que realmente pertencia a um lar, mas hoje tudo estava diferente, não existia essa barreira, apesar de ainda não ser a respeito de sentimentos minha mente e o meu coração estavam tão acelerados que o impulso de agir era só sobre não ficar parado.

Quando chegou o horário de tomar meus antidepressivos, eu simplesmente esqueci, apesar que a tão pouco, quiçá no dia anterior, eu contava os minutos para toma-lo na esperança que aquela química fosse o suficiente para me curar, mesmo sabendo que não era, não custava munir ao menos essa expectativa, mas o efeito dela é sempre muito claro, frustração.

Esther, vulgo minha progenitora, acordou, e sabia disso porque escutei sua voz rouca espreguiçando, e logo após agradecendo a Deus pelo dia que se iniciava. Cruzou a porta da cozinha ainda sonolenta e foi em direção ao banheiro, entretanto com uma rápida transcorrida dos olhos pela sala, parou imediatamente, ficando olhando para mim. Era muito nítido tudo que passava em sua mente por meio de sua feição, a sensação é que ela estava olhando para um ser mitológico desconhecido em sua frente ou alguma coisa do tipo, era confusão combinada, bem lá no fundo, com alegria. Ela foi passando a mão sobre os moveis para se certificar que não havia pó e ao mesmo tempo prestava atenção com o máximo de foco possível em cada centímetro do chão em busca de uma sujeira qualquer, porém não achou nada. Agora a vez de ser surpreendido era minha, pois ela me abraçou em silêncio e ficou durante alguns segundos da mesma forma. Sabia que ela estava me agradecendo da maneira que ela conseguia na ocasião, e que muitas vezes era complicado lidar com as decepções que eu lhe trazia, entretanto naquele momento, para mim estava tudo bem, eu a senti de novo. A muito tempo aquela conexão havia se perdido, e sentia tanta falta, que em alguns episódios a dor transbordava do psicológico e inundava o físico. A sempre presente energia ruim se dissipou, mesmo que eu soubesse que possivelmente não era duradouro, e que logo ela voltaria a me odiar, eu gostei daquilo e não queria estragar. Estava sendo um dia incrível e até o almoço fizemos juntos, claro que minha irmã também estava conosco, o cômico era o fato dela parecer mais atônita que todo mundo, mas não ousava sequer comentar qualquer coisa por medo de que acabasse, nós dois parecíamos seguir uma receita de bolo para que nem uma vírgula estragasse o dia.

Eu estava curtindo o momento e ao mesmo tempo, com certo nível de dispersão, me questionando porque aquilo era tão importante. Durante a maior parte do tempo tentei ignorar tais perguntas, mas não aguentei, fui até o quarto onde minha mamãe estava deitada, e com muita calma me aconcheguei de modo que nossas cabeças se encaixassem e os ombros também.

[A música começa aqui]

– Mãe... – O receio ainda tomava conta de mim, sendo muito mais difícil do que eu imaginava manter uma conexão de amor, sem medo, com ela. – Por que?

Sem demonstrar nenhuma dúvida a respeito do que se tratava a pergunta, ela esboçou uma expressão de tristeza, que pude ver graças a visão panorâmica – Eu achei que havia perdido você – disse com a voz tremula e falhando – e o que mais dói é que o inimigo que eu enfrentava tinha todo controle e anulava tudo que eu pudesse fazer – Suspirou fundo enquanto engolia o choro – Era você que lutava contra mim e cada vez ia para mais longe. Nós sabemos o quão bem a raiva esconde a tristeza, e perder uma filha não é uma dor que você possa compreender agora. – Aquelas palavras pareciam uma série de golpes que feriam ambos enquanto eram ditas – Você se entregou ao pior de você e nem sequer parecia lutar. Me perdoe por não enxergar sua luta, sei que você não desistiu, mas presa no seu quarto era, e ainda é impossível de sequer ler seu olhar. Ao tomar esta posição, também virei um inimigo em potencial para você e isso não ficou nem um pouco latente, é explicito demais. Parece que há meses eu te velo todos os dias, mas hoje eu te vi em pé, sem aquela nuvem triste que te acompanha, com os olhos cheio de expectativas por um abraço – As últimas palavras já se tornavam quase impossíveis de ouvir devido ao nó na garganta que ela se forçava a segurar, porém quando viu que não seria uma tentativa bem sucedida, deixou que as lagrimas escorressem e molhassem meu cabelo, não muito diferente, as minhas a molhavam também.

Nós ficamos ali o resto da noite, não sabia explicar o que tinha acontecido, se realmente Deus tinha resolvido olhar pra mim e levar embora a depressão, não queria mais viver daquela forma, eu queria minha família, queria deixar de ser o inimigo, mas não sabia se era possível manter tudo aquilo sem entender melhor quem eu era e o que estava acontecendo. Posterguei muito para dormir, não queria que aquele momento acabasse. Mas... acabou.

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⏰ Última atualização: Jun 28, 2020 ⏰

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