Parte II

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- Aiyra... Aiyra.

Acordei com alguém me chacoalhando. Tinha pegado no sono depois de terminar de limpar a caça. Abri os olhos e vi Irani, minha única amiga.

- Irani? O que houve? – Ela veio até mim e me deu um beijo da bochecha.

Olhei para o outro lado da oca mas meu túa nem meus Kyvy haviam voltado. Estava sozinha.

- Nada. Eu vi você chegando com sua nova caça hoje. Acertou em cheio de novo. – Brincou deitando-se ao meu lado.

- Foi sorte. – Disse sorrindo. – Guardei uma parte pra você.

- Mesmo?

- Sim, foi o maior em dois dias posso compartilhar com minha angiru.

- Se você fosse um homem as mulheres mataria para ter filhos com você. Sabia disso?

- Agora sei. Talvez na próxima vida. - Sorri, senti meu rosto ficar quente.

- Ainda bem que é só minha. – Ela afastou meu cabelo se levantando logo em seguida. - Seu dia de nascimento está chegando certo?

- Sim, por que? – Ela pegou uma bolsa do lado de fora e tirou algo barulhento de dentro.

- Fiz pra você, é um colar de contas. Usei as mais bonitas. – Peguei o colar e sai a luz da lua para vê-lo melhor.

Era grande, feito de palha trançada e sementes vermelhas, pretas e brancas, perfeitamente redondas. Quando o vesti e ele conseguiu cobrir meus seios.

- Isso é lindo. A quantos dias estava fazendo isso?

- Não importa. Ele combinou com você.

- Obrigada Irani.

Eu abracei e fiquei feliz em sentir que ela me retribuía o gesto. Não era sempre que se ganhava algo tão trabalhado de alguém, era uma coisa especial. Muito especial e eu o guardaria até o dia da minha passagem.

De repente o silêncio da noite foi irrompido por um grito agudo.

- O que foi isso? – Irani se afastou tentando achar a origem do som.

E então rapidamente nossa aldeia foi tomada pelo caos. Os homens saíram de suas ocas com lanças e arcos em punho, enquanto outros se aproximavam vindos do Norte. Seus corpos pintados de vermelho, lanças maiores que eles tão afiadas que refletiam a luz noturna.

Vindos do sul meus irmãos passaram por nossa oca, armas em punho prontos para enfrentar os invasores. Mas não sem antes me dar alguma ordem.

- Vocês duas tragam as mulheres pra cá e tapem a porta. - Acir ordenou segurando dois arcos em mãos.

- Espera. Esse é meu arco. - Percebi.

- Você não precisa dele.

- Acir me dê esse arco! – Ele o entregou à Porã e segurou meu braço com força.

- Eu mandei trazer as mulheres e crianças pra cá! Faça o que eu mando Kyvy.

- Aiyra vamos. Você não precisa dele. – Irani me puxou. Meus irmãos se viraram indo em direção a luta enquanto eu conseguia tirar umas de suas facas.

- Não saia de perto de mim. – Irani concordou e eu segurei sua mão enquanto corríamos pela aldeia levando as mulheres e crianças para minha Oca.

Por alguma sorte divina ninguém nos avistou, mas foi só entrar na última Oca que ela desceu pelo rio. Havia duas mulheres lá dentro, porém seus espíritos já haviam deixado seus corpos e tinham tanto sangue sob elas que não conseguia entender de onde viera.

Iara - A história por trás da lendaOnde histórias criam vida. Descubra agora