Era a centésima vez que eu me via diante de um espelho e não conseguia associar nada. Não conseguia entender o que havia me levado até ali e a que ponto cheguei. Eu até queria me odiar... Mas nem isso eu conseguia. Eu me sentia algo inerte, sem a menor vontade de mover-me pelo mundo. Se eu tivesse tido a oportunidade, eu não teria saído da minha cama pela manhã. Eu me enroscaria em meus lençóis e dormiria ao longo do dia, como se nada mais fosse importante. E não era mesmo.
Aquele casamento, aquele amontoado de gente para lá e para cá, aquela igreja com aquela decoração ridícula, os inúmeros sorrisos falsos, os agradecimentos desnecessários e uma ansiedade que não existia. Eu não estava nervoso. Era um dia comum. E não era para parecer assim. Desde o dia em que Evellyn sugeriu que seria interessante juntarmos nossas coisas vem sendo assim. Pois é, ela sugeriu.
Evellyn e eu nos conhecemos quando eu dava meus primeiros passos rumo a carreira como o editor famoso de revistas em quadrinhos que eu acabei me tornando. Mal nos falávamos, não éramos do mesmo ramo, mas o círculo de amigos que tínhamos era semelhante. Por tanto, não demorou muito para criarmos uma amizade amena, nem um pouco aprofundada, repleta de interesses de sua parte em consumar algo mais do que uma reles relação amena. Alguns anos se passaram, eu me tornei o que eu era e Evellyn conquistou igual sucesso em sua carreira. Nada nos levaria a crer que estaríamos ali, prestes a subir no altar e constituir uma família. Nem mesmo quando viramos uma noite juntos, transando em seu apartamento, após bebermos em uma festa de alta-sociedade com nossos amigos ricos e insípidos. Talvez tenha sido um erro meu? Eu ainda não tinha absoluta certeza. Mas, parado diante daquele espelho, estava começando a me questionar a respeito. E se eu não tivesse me oferecido para levá-la para casa?
A partir daquela noite, iniciamos um relacionamento, aparentemente, sem compromisso. Minha fama fazia bem para sua carreira e seu posto como uma arquiteta de sucesso causava um upgrade em meu hiatus de mais novo empresário na área de quadrinhos. Nós éramos perfeitos juntos, extremamente semelhantes e, como todos diziam, éramos um casal de dar inveja.
Errado. Errado. E errado.
Éramos “automáticos” juntos, vivíamos em um relacionamento arrastado e massacrado pela necessidade que tínhamos de viver aquela vida fingidamente perfeita. Éramos iguais e aquilo era insuportável... Eu comecei a reparar em como as minhas manias eram irritantes, quando Evellyn passou algumas semanas em meu apartamento e passou a arrumar tudo de acordo com seu gosto tão peculiar quanto o meu. E Evellyn era ainda pior do que eu... Ela era ainda mais focada na carreira do que eu me concentrava em meus trabalhos, se isso é possível. E, para completar, não éramos um casal de dar inveja. Só se fosse a respeito da união da nossa conta bancária. Eu e Evellyn nem sequer éramos carinhosos um com o outro em público ou demonstrávamos um amor exorbitante diariamente. Como eu disse: tudo sistemático, controlado por uma mulher que queria um bom status e um casamento grande para agradar o pai.
Nós éramos chatos. Falsos. E eu não aguentava mais aquilo.
- Posso entrar, querido? – Minha mãe surgiu, seu sorriso fácil e simpático estampado nos lábios, ao que entreabriu a porta daquela pequena sala, adentrando-a sem eu nem ao menos assentir, o que não me importei.
Eu estava trancado, há alguns minutos, em uma pequena sala, nos fundos da igreja onde eu e Evellyn iríamos selar nosso falso amor eterno. Há horas eu já estava pronto, trajando um terno de corte perfeito, que Gus havia insistido para que eu mandasse fazer, uma gravata em um branco pérola e sapatos bem polidos. Os fios escuros, quase pretos demais, haviam sido dificilmente domados, ajeitados de forma mais sofisticada, mas não piegas demais, e eu já contava os minutos para poder bagunçá-los e deixá-los do jeito despojado que tanto me agrada... Se havia uma coisa em todo o mundo que eu deixava fora de ordem era o meu cabelo, ironicamente.
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Bright
Romance"Eu não estava caindo por Alexander. E nem ele por mim. Nós estávamos fazendo exatamente o oposto. Nós estávamos nos levantando. E ninguém seria capaz de impedir isso." Alexander Lockhart é um famoso desenhista e editor de histórias em quadrinhos...