5- André

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A semana anterior havia sido caótica e André se tornou um jornalista famoso. Sua matéria sobre fraudes em licitações de merenda escolar havia alavancado as vendas da revista e seu telefone não parava de tocar. Pedidos de entrevista, solicitações para aparecer em programas de TV. Só naquela semana ele apareceria em três canais de TV diferentes. A fama inevitável foi dividida com o denunciante, Lourenço Azevedo, que partiu de simples funcionário público a personagem de escândalo político, em questão de horas.

André sabia que a loucura não se prolongaria por muito tempo. O Ministério Público já iniciara as investigações; mandados de busca foram executados; a prisão preventiva de algumas pessoas era questão de tempo. Isso era bom, porque ele não gostava de evidência. Queria sim ser reconhecido pelo trabalho, mas já não aguentava mais ouvir o telefone tocar. Não suportava mais contar a mesma história repetidas vezes. Como ele ficara sabendo daquele caso de corrupção? Ora, leiam a minha matéria!

As pessoas próximas a André sabiam que ele estava vivendo um momento único e o respeitavam. Mas não era de se esperar que todos fossem compreensíveis ou se dessem conta disso. Sempre haveria alguém para destoar da sinfonia. E esse alguém foi a mãe de sua filha.

Como se não soubesse do que estava acontecendo, Natália ligou para André comunicando que se mudaria para os Estados Unidos. Como? Que? Para onde? André ainda estava um pouco atordoado com as responsabilidades daquela semana e não conseguia entender direito que Natália estava dizendo. Tentou pedir para que ela ligasse outra hora; no fim de semana, talvez.

—Não vou ligar depois, André. É importante. Pare de fugir do que é importante.

—Natália, olha, não estou fugindo de nada. Eu não estou é entendendo o que você tá falando. Olha, você deve saber que minha semana está sendo uma loucura. No domingo saiu minh...

—Eu não quero saber do seu trabalho, André. Tô te comunicando que vou mudar de país e levarei Mariana comigo.

—Você vai o quê?

—Levar Mariana. É minha filha, vai comigo.

—Mas como assim? Do que você tá falando?

Natália explicou sobre Brian e a oferta que ele havia feito. O sangue de André subiu e ele começou a gritar ao telefone. Você conheceu esse cara ontem e já vai mudar com ele? E levar minha filha junto? Você é louca? Maluca? Bebeu? Meu Deus, Natália.

A discussão se estendeu por muito tempo e todas as pessoas da redação acompanhavam, um pouco assustadas, André se exaltar. Elas nunca haviam visto André tão nervoso, muito menos gritando daquela forma. Os mais próximos conseguiam ver que lágrimas caíam do rosto dele.

Natália precisava do consentimento dele para levar Mariana ao exterior. Ele não conseguia pensar no assunto, apenas sentir raiva, se arrepender de ter Natália em sua vida. Meu Deus, como pode ser assim. Quer tirar minha filha de perto de mim. Meu Deus.

—Olha, Natália, escuta; já perdi a paciência com você. E mesmo que não queira ouvir como foi minha semana, eu vou te dizer: eu escrevi uma matéria denunciando um esquema de fraude de merenda escolar. É, essa merenda que a Mariana come na escola. Fraudaram, sabia? A denúncia chegou até mim e eu escrevi a matéria. Acontece que todo mundo quer me entrevistar agora. Já tenho aparições na TV agendadas. Entrevistas para rádio. O pai da sua filha tá tendo uma semana infernal, sabia? Semana que vem seria melhor conversar sobre isso, mas não, você só pensa em si mesma; só pensa no grande amor da sua vida que você conheceu ontem. Não, é tudo urgente para você porque você só pensa em si mesma. Caralho, Natália, já ouviu o que tá dizendo? Você quer mudar de país com a minha filha. Sem saber se vai dar certo, sem conhecer direito o cara com quem você vai morar – e minha filha também. Como você é egoísta. Não, me deixa falar! Agora eu vou falar. Desta vez você precisa do meu consentimento, né? Desta vez o inútil do pai da sua filha, o “pai quando dá”, serve para alguma coisa, né? Pois não vou dar esse consentimento, não agora, não nessa semana. Eu tenho que pensar sobre isso, mas a primeira ideia é dizer não e ainda pedir a guarda da Mariana na justiça. Agora me faça o favor e me deixe trabalhar. Você já estragou o meu dia e ele ainda nem começou direito. Tchau.

Ao colocar o celular na mesa, André enxugou as lágrimas e olhou em volta. Todos o observavam com expressões apreensivas e duvidosas. Se recompôs e pediu desculpa pelos gritos, mas o problema era familiar e... bem, todos sabiam como eram esses problemas. Se levantou e foi até a sala do chefe, Ricardo, seu amigo. Precisava desabafar e se aconselhar.

Talvez André não tomasse a decisão drástica de não consentir com a viagem da filha, mas era prematuro demais afirmar qualquer coisa. Estava nervoso demais para tomar decisões, ainda mais quando elas envolviam sua filha. No caminho até a sala do chefe, André pensou. Como seria a vida sem Mariana?

Era doloroso demais pensar até na ideia mais remota.

Efeito dominóOnde histórias criam vida. Descubra agora