Senhor Michel, eu não escrevo isso para ser educado, escrevo porque seria covardia fingir que o que aconteceu ontem foi comum, e não foi. Eu conheci o senhor ontem e isso deveria significar quase nada, mas significou, porque o senhor não falou para passar o tempo nem para parecer sábio, falou como quem já viveu o suficiente para não desperdiçar palavras, e eu senti isso na hora, sem defesa. O que o senhor disse não foi gentil, foi necessário, e o necessário dói porque obriga a olhar para si mesmo sem desculpa, sem romantização, sem saída fácil; ontem eu não saí confortável, eu saí lúcido, e lucidez pesa mais do que conforto. Tenho 16 anos, não sou ingênuo o bastante para achar que isso me protege da vida nem arrogante o bastante para achar que já sei tudo, e o senhor percebeu isso, por isso falou comigo de igual para igual, sem pena, sem suavizar, como quem sabe que crescer cobra alguma coisa de quem aceita ouvir. Eu prometi tentar seguir seus conselhos não porque são fáceis, mas porque ignorá-los teria um custo maior, porque segui-los exige disciplina, exige perda, exige negar partes de mim mesmo, e eu sabia disso quando prometi. Hoje o senhor faz 45 anos, e isso não é só número, é acúmulo de erros, acertos, quedas, escolhas que não voltam e verdades engolidas a seco, dá pra ouvir isso quando o senhor fala, quem não viveu não sustenta esse peso. Eu chamo o senhor de “senhor” porque respeito não se pede, se impõe, e o senhor impõe pelo que diz, pelo que cala e pela ausência total de ilusão. Talvez o senhor nunca saiba o impacto exato de ontem, mas ficou registrado: o senhor atravessou alguém, e atravessar alguém nunca é neutro, sempre deixa marca. Não lhe desejo um ano fácil, desejo um ano honesto. Feliz 45, senhor Michel. Suas palavras ficaram.