Mayana
— Acorda, dorminhoca! — ouço a voz animada de Sophia, enquanto sinto uma leve sacudida no braço. Antes mesmo de abrir os olhos, um sorriso escapa.
— Bom dia. — digo, ainda sonolenta, coçando os olhos enquanto me espreguiço na cama.
— Vim te buscar para o café da manhã.
— Amiga, vou tomar café com meu pai hoje. Quero passar um tempo com ele.
Ela me encara com um sorriso malicioso.
— Seu pai já está lá em casa, só falta você.
Franzo o cenho, confusa.
— Como assim?
— Sabe como seu pai é fã do meu irmão, né? — Ela revira os olhos com diversão. — Ben chegou ontem à noite, e hoje de manhã seu pai veio aqui para vê-lo. Ele acabou convidando vocês dois para o café.
Minha expressão de surpresa é substituída por uma mistura de nervosismo e resignação.
— Entendi. — digo, tentando soar indiferente, mas sem sucesso.
Sophia ri, percebendo meu desconforto.
— Credo, amiga! Achei que você ia estar mais animada para ver "seu loiro".
— Eu vi ele ontem. Digamos que tivemos... divergências de pensamento, e isso dificultou o diálogo.
— Divergências? — Ela arqueia as sobrancelhas, claramente surpresa. — Vocês sempre tiveram uma conexão especial. Como o diálogo poderia ser um problema para vocês?
Desvio o olhar, tentando evitar o assunto.
— Não quero falar sobre isso. — murmuro. — Que horas são? — pergunto para mudar o foco da conversa.
— Não trouxe meu telefone. Vou olhar no seu. — Sophia se levanta e vai até a penteadeira, onde deixei meu celular. De repente, ouço sua voz endurecer:
— Filho da puta.
Congelo na cama. Droga. Esqueci de apagar a mensagem de Marco na tela inicial. Sophia se vira para mim, segurando o telefone com as mãos trêmulas, os olhos cheios de indignação.
— Mayana, você sabe o quanto isso é problemático, não sabe?
— Marco só está nervoso, Sophi. — Tento minimizar a situação, mas minha voz sai hesitante.
— Nervoso? — Ela balança a cabeça, incrédula. — Isso aqui não é nervosismo, Maya. É uma ameaça. É abuso psicológico.
— Você está exagerando! Não é isso. Eu saberia se fosse. — Tento soar firme, mas a insegurança escapa no meu tom. — Olha, esquece isso, tá? Vou tomar um banho rápido e me arrumar.
— Maya... — ela começa, mas a interrompo.
— Sophia, vocês não entendem. Não é como imaginam. Marco me ama.
Ela me encara, séria.
— E você, Mayana? Ama mesmo o Marco, ou é só dependência e medo da solidão?
Engulo seco, incapaz de responder. A pergunta fica ecoando na minha mente, mas não consigo encará-la.
— Esquece isso, Sophia. — murmuro, tentando encerrar a conversa.
Sophia suspira e se aproxima, me envolvendo em um abraço apertado.
— Eu te amo, Maya. Sou sua melhor amiga e quero seu bem. Nunca esqueça disso.
Concordo com um aceno de cabeça e vou para o banho, deixando que a água quente lave não apenas o cansaço, mas também a confusão que começa a crescer dentro de mim. Tento afastar as vozes de Sophia e Ben da minha mente, mas suas palavras insistem em voltar, me forçando a encarar sentimentos que preferia ignorar.
O Café da Manhã
Depois de me arrumar com uma roupa leve e uma maquiagem básica para esconder o rosto cansado, sigo com Sophia até a casa ao lado. A cozinha de Julieta está cheia de vida, como sempre. O cheiro de pão fresco e café recém-passado invade o ambiente, e há uma energia familiar que aquece o coração.
— Vocês demoraram. — Julieta comenta ao nos ver entrar.
— Essa bonita aqui enrolou tanto que achei que o casamento fosse hoje. — Sophia brinca, abraçando Igor, que estava ao seu lado.
— Você viu quem chegou, filha? — meu pai pergunta, dando um tapinha nas costas de Benjamim.
— Vi ele ontem à noite. Bom te ter aqui, Benjamim. — digo, tentando soar natural, mas sentindo meu rosto corar enquanto me sento à mesa.
O clima entre nós está estranho. Sempre gostei de Benjamim, desde pequena. Para mim, ele sempre foi o príncipe perfeito, meu abrigo. Mas depois de ontem, parece que há um muro entre nós, algo que nunca existiu antes.
— É tão bom ver essa mesa cheia de novo, não é, Julieta? — meu pai comenta, sorrindo.
— Demais. Não tem um dia em que eu não sinta falta desses quatro fazendo bagunça no quintal. — Ela sorri ternamente, seus olhos brilhando com nostalgia.
— Agora sente falta, né? Antes tacava o chinelo na gente! — Igor comenta, arrancando risadas de todos.
— Claro! Você e Benjamim viviam pregando peças em todo mundo. — Julieta responde, fingindo uma expressão de reprovação.
Enquanto tomamos café, relembramos histórias da infância. O ambiente é leve, cheio de risadas e memórias felizes. É impossível não sentir que estou em casa.
Uma Proposta Tentadora
— Você já sabe quanto tempo vai ficar, filha? — meu pai pergunta enquanto terminamos o café.
— Provavelmente só até o casamento. — respondo, sem ter planejado muito além disso.
— Por que não fica mais? Suas aulas só voltam em março.
— Pai, é complicado. Marco precisa de mim lá. — murmuro, sentindo os olhares desconfortáveis ao redor da mesa.
— Complicado? — Julieta pergunta com uma sobrancelha arqueada.
— E, além disso, Sophia vai para a lua de mel. Ficarei sozinha aqui. — tento desviar o foco, forçando um sorriso.
Benjamim, que estava calado até então, se manifesta.
— Eu vim passar as férias aqui. Podemos fazer algo juntos.
O coração dá um salto no peito, mas tento disfarçar.
— Acho que pode ser legal.
Por fora, meu tom é contido, mas por dentro, estou ansiosa. Sei que esses dias poderiam ser incríveis, mas também sei que balançariam meu "mundo calmo" com Marco. Será que valeria a pena arriscar?
Uma Conversa Com Meu Pai
De volta à nossa casa, meu pai foi para o quintal molhar as plantas, enquanto eu me sentei na varanda, observando o movimento tranquilo do bairro. Era um momento simples, mas tão cheio de significado.
— E a faculdade? É como você imaginava? — ele pergunta, quebrando o silêncio.
— Muito mais, pai. Estou aprendendo tanto. — respondo com sinceridade, animada.
Ele sorri, orgulhoso.
— Que bom, filha. Fico feliz em te ver realizando seus sonhos.
Respiro fundo antes de perguntar o que já vinha pensando há dias.
— E se eu quisesse voltar para casa? Você ficaria decepcionado?
Ele para de regar as plantas e me encara com seriedade.
— Eu não apoiaria você desistir da faculdade. Mas se quiser voltar, as portas estarão sempre abertas. Aqui sempre será sua casa.
Seu tom é calmo, mas suas palavras me fazem sentir que talvez essa seja uma possibilidade real. Talvez meu lar esteja aqui, onde sempre me senti segura e amada.
Enquanto penso nisso, uma coisa é certa: essas férias vão mudar muita coisa na minha vida.
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Salva-me
RomantiekMayana sempre teve o sonho de fazer uma faculdade, que de preferência fosse em outra cidade. Ela queria ser independente e viver uma bela aventura, o sonho universitário completo.⠀ ⠀ Mas ela não esperava que tudo fosse acontecer ao contrário. Suas e...
