Prólogo • ❝Nunca mais❞

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Capítulo 1 — Nunca mais.

10 de fevereiro, 2021,

Xiao Zhan tremia, sua respiração ofegante, as lágrimas insistentemente caindo de seus olhos vermelhos e inchados.

Ele estava deitado na cama do seu quarto. Seu corpo estava cheio de machucados, seus pulsos estavam com marcas profundas de correntes, seu pescoço tinha marcas de mãos, seu rosto estava cheio de machucados — marcas de soco e murro — e seu corpo estava repleto de hematomas.

Mas—

O que—

O pior era dentro. Xiao Zhan estava quebrado. Ele se sentia morto. Não chorava mais porque as pareciam que as lagrimas tinham acabado. Vazio.

Seu corpo inteiro estava machucado, mas ele não sentia a dor. Não a física, ela não importava mais. Tudo que fazia era repetir como um loop todas as palavras, os socos, os empurrões, os murros. Todas as vezes em que ele quebrava mais um pouco o seu coração.

Eram a sua destruição. Uma atrás da outra, em que a sua mente insistia em dizer. Fraco, você é fraco, sua mente o alertava. 

Destruído. Era assim que Zhan estava. Ele não tinha conserto, coisas quebradas não tem salvação. Ele era apenas o caco do que um dia Xiao Zhan foi.

Não se importando com os ferimentos ainda correndo o risco de reabrirem, ele se senta na cama e esconde o rosto na palma das mãos, chorando compulsivamente, tremendo de espasmos nervosos com a dor da ferida. Com a dor que existe na sua alma.

— P-Por qu-quê? O que eu fiz de errado?

Zhuocheng o olhava, parado, com as lágrimas escorrendo silenciosamente. Seu coração estava partido de ter que ver o seu irmão daquele jeito tão sôfrego, tão em pânico. Ele estava se sentindo culpado por não ter notado nada do que acontecia com o seu irmão, Zhuocheng havia prometido que tomaria conta do irmão mais velho. Xuan Lu estava despedaçada, seu coração em pedacinhos por não ter conseguido estar do lado do seu pequeno Zhan Zhan como havia prometido quando ainda eram crianças.

As promessas haviam sido descumpridas. Eles haviam falhado.

Xiao Zhan soluçava, o ar faltando de seus pulmões machucados. Ele apertava os seus cabelos molhados, o seu rosto enfaixado, que até algumas horas atrás estavam sujos de sangue, suor e lágrimas. Seu coração estava batendo dolorosamente contra o seu peito, ele não sabia o que doía mais. Era tanta dor...

— A-Cheng...

Ele chamou, olhando para o irmão mais novo em meio a olhos embaçados e vermelhos de tanto chorar. Zhuocheng se aproximou, se ajoelhando na frente dele, tomando cuidado para que não se aproximasse muito e acabasse piorando um dos ferimentos ou batendo em algum hematoma.

— Eu quero desaparecer desse mundo. Me faça desaparecer, hm? Por favor! – ele balbuciava, os soluços atrapalhando a sua fala embargada pelo choro.

— A-Zhan, não diga isso, sim? – Lu o pediu, seu coração doendo ao ouvir as palavras dele.

— Shijie... – ele murmurou, seus olhos voltando a lacrimejar.

— V-Vai ficar tudo bem, ok? – ela sussurrou. Xiao Zhan não sabia se ela estava falando para ele ou para si mesma.

— Não vai, Shijie, não vai ficar. Nunca mais.

— Você não confia em mim, Zhan Zhan?

— E-Eu confio...

— Então, confie no que digo. Você vai ficar bem, A-Zhan. Nós vamos ficar.

Xuan Lu e Zhuocheng trocaram olhares por alguns meros segundos antes de se aproximarem da cama dele. A mais velha se sentou de um lado e o mais novo do outro, cuidadosamente, para não serem muito brutos e acabassem machucando — mais ainda — Xiao Zhan enquanto se mexiam. O do meio escorregou um pouquinho, o suficiente para deitar a cabeça no colo de Zhuocheng e sentir os seus cabelos sendo acariciados por Lu.

— Você não pode ficar mais aqui, Xiao Zhan, não é mais seguro – Zhuocheng se pronunciou. Ele falava com um tom firme, mas os dois ali sabiam que eles estava preocupado.

— E para onde eu iria? – ele questionou, verdadeiramente curioso. Ele queria sumir...

— Um lugar onde ele não possa te encontrar...

Ele ficaram em silencio por um tempo. Zhuocheng pensando avidamente, sua mente dando voltas atrás de uma resposta, o seu irmão precisava ficar seguro. E o mais velho iria, se dependesse dele, aquele monstro nunca mais chegará perto do seu irmão, não se depender dele.

Xuan Lu mordia os lábios, pensativa. Não existiam muitos lugares para ir, afinal, mas tinha um em mente... Ela esperava que fosse o suficiente para que ele pudesse recomeçar a sua vida. Voltar a viver. Eles poderiam voltar a ver um sorriso verdadeiro de Xiao Zhan.

O Xiao estava sentindo sua garganta apertar. Mesmo não querendo, ele ainda ouvia. As palavras iam direito para a sua mente, lembrando o quanto ele havia sido fraco.

'Aonde quer que você vá, eu vou te encontrar, meu coelhinho'.

— A-Zhan? – a voz de Lu fez com que ele voltasse a si e percebesse que tinha voltado a chorar e apertar seus punhos.

Zhuocheng segurou a sua mão e a abriu, vendo a palma cheia de machucados. Suspirando, ele entrelaçou os seus dedos ao dele, vendo ladinamente que Lu fazia o mesmo.

Eles estavam tentando fazer com que Xiao Zhan parasse de se machucar e de fincar suas unhas nas próprias palmas e aumentar os arranhões no seu corpo. Os dois não entendiam que nenhum daqueles ferimentos doíam mais do que o seu coração. Do que a sua alma sofrida e podre, que eram corroídas pelas lembranças do que aconteceu e de quem um dia Xiao Zhan foi.

— Sim? – ele a respondeu, fungando.

— Por que... Não vamos a Gusu? Nós teríamos uma casa, estaríamos afastados de todos. Sozinhos. Seguros. Você estará seguro, e isso é o mais importante para nós – Lu falava, argumentando.

"Você só estará seguro se estiver comigo, meu coelhinho"

— E Ziyi e Yu Bin estão 'lá – completou Zhuocheng.

— Vocês vão comigo...? – Xiao Zhan perguntou baixinho. Ele não saberia o que fazer caso fosse sozinho.

— Não vamos te deixar sozinho, Zhan Zhan.

Nunca mais.

Ele sabia o que aquilo significava. Era um promessa e dessa vez, ele torcia para que fosse cumprida.

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