Cornualha, 1773
O Bijou Rare estava lotado, como de costume. O ar exalava tabaco, álcool e perfume caro. Ao passar pelo enorme corredor com janelas imponentes e cortinas de vermelho vivo com detalhes dourados que remetiam à realeza, Anastasia direcionou o seu olhar para a porta ao fim do corredor, onde escondia a sala les mystères féminins, local exclusivo para mulheres da sociedade que procuram por meios de diversão variados como; jogos, bebedeiras, prazeres da carne e afins, bastando apenas ter chego a maioridade, possuir recursos para isto e, claro, um disfarce.
Os disfarces podiam variar desde máscaras que cobrem metade da face, a perucas, vestidos mais simples ou avantajados, ficando a critério da cliente. E esses acessórios não somente auxiliavam na preservação da identidade das mulheres, mas também do espaço, para não haver escândalos envolvendo membros importantes da sociedade feminina local, como filhas ou parentes de lordes, e comerciantes influentes.
Nomes não interessavam, porém, algumas mulheres utilizavam pseudônimos quando julgavam ser necessário.
Anastasia estava com seus cabelos castanhos acobreados em um coque bem preso sob uma pequena tela de tecido de baixo da peruca loira espalhafatosa, com cachos grossos e largos na altura do quadril. Estava trajando um vestido de cetim bordô, com mangas até os antebraços com leves babados, seu decote era cavado, elevando seus seios, os quais estavam em bela sincronia com seu cordão e brincos de prata. A máscara combinava com ambos na tonalidade, com penas brancas despontando das laterais, e presa por um elástico ao redor de sua cabeça. As únicas coisas que estavam visíveis eram os seus lábios e parte de suas bochechas pintadas levemente de rosa. Além dos olhos de Annie, um âmbar cor de whisky com a borda esverdeada.
Após cumprimentar os seguranças que estavam na porta, ela adentrou ao enorme salão feminino de jogos, mobiliado em tons azul royal e dourado, com mais de uma dúzia de mesas que agrupavam dez pessoas em cada, onde ocorriam partidas de cartas, dominó, roletas, dados e outros. O ambiente estava frenético, com risadas e conversas altas, apostas exorbitantes sendo feitas, e homens e mulheres da casa trabalhando em seus jogos de sedução para fisgar clientes. Sim, homens e mulheres para satisfazer mulheres. Sem medo, sem receios. Poderia fazer o que quiser, com quem quiser, do modo como queria e desejava.
— Boa noite, damas. — Annie chegou a uma das mesas de jogos vagas, abrindo um sorriso largo e encantador. — Posso juntar-me a vocês para a próxima partida?
As mulheres estavam jogando dominó, prestes a terminar a partida, restando poucas peças. Elas olharam na direção da loira e sorriram ao mesmo tempo em que assentiam com a cabeça, convidando-a a sentar-se.
— Obrigada. — Ela sentou-se em umas das poucas cadeiras vagas e pediu uma bebida a um servo que veio ao seu encontro.
— Vamos Julia! Não temos a noite toda, querida. — Uma mulher de cabelos vermelho fogo e vestido dourado disse, rindo enquanto levava um morango a boca. — Ainda quero aproveitar os outros serviços da casa. — Ela sorriu para Annie e balançou a cabeça na direção dos homens e mulheres que procuravam um par para satisfazer.
— Paciência é uma virtude, Lilian. Espere e pare de reclamar. — Julia respondeu, com os olhos fixos em suas peças de dominó, mentalizando sua próxima jogada.
A ruiva bufou e disse:
— Ela é muito metódica. — Após revirar os olhos, direcionou o seu olhar para a Annie. — E você, como posso chamá-la?
— Marie. — Ela deu seu pseudônimo.
— Sempre vejo você por aqui, sabia, Marie?
Anastasia sorriu fingindo timidez.
— A casa tem seus atrativos. — Ela rodeou a mesa com o olhar. — E vocês, todas se conhecem?
— Pode-se dizer que sim. Apenas o necessário para interagirmos bem e em segurança. — Lilian disse, e Julia arqueou a sobrancelha esquerda, indagando a ruiva com o olhar. — Ah, tudo bem. Julia e eu somos amigas de longa data, nos conhecemos quando éramos crianças.
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Intempérie
RomanceUma cortesã que não teve escolha, que carrega consigo marcas tanto físicas quanto psicológicas da realidade a qual é obrigada a viver. A cada dia ela está mais quebrada e destruída por dentro, pois a realidade a corrói, e tenta fincar com todas as g...
