Capítulo 1

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A vida de Gemma Anne Styles já começou em turbulência, sua infância não foi certamente um parque de diversões. Ela gostaria que tivesse sido, quando criança sempre teve uma fascinação por carrosséis. Em uma idade muito jovem, iniciou seu treinamento para ser duquesa, a ideia não a agradava muito, inicialmente. Apenas após longas conversas com sua mãe, a jovem compreendeu o tamanho da responsabilidade que carregava nos ombros. 

Depois de dias exaustivos e repletos de aulas, a Styles se recolhia em seus aposentos, mas, ao invés de dormir, pegava um velho par de binóculos que encontrou nos armários de seu pai e tentava observar a cidade não tão longe dali. As luzes a alegravam, traziam beleza para seus dias e colocavam sorrisos que nunca foram vistos por ninguém em seu rosto. Às vezes levava seu irmão até seu quarto, escondida no silêncio da noite. Nesses dias, não se importava com as broncas que viriam no dia seguinte, sua única atenção era o pequeno garoto de olhos verdes, os quais brilhavam refletindo as luzes da cidade. 

"Um dia nós estaremos lá, Harry. Mamãe nos levará para aquele parque e brincará conosco até não aguentarmos mais!" 

Seus dias raramente tinham novidades, seguiam no mesmo ritmo de sempre, dia após dias, mês após mês, ano após ano. 

Apesar de tudo, Gemma teve uma infância relativamente feliz. Tinha sua mãe e seu irmão ao seu lado e seu pai... Bem, seu pai andava um pouco mais distante do caminho trilhado pelo restante da família. De vez em quando entrava na via deles, trazendo tormento para as vidas dos filhos. Desmond era muito mais cruel com Harry, mas Gemma nunca presenciou nenhuma cena. O Duque Styles era meticuloso. A mais velha também não enxergava o que era feito, era tudo muito sutil. 

Seu irmão havia sempre sido mais corajoso que si, tanto que aos catorze anos colocou um ponto final na tortura e se despediu de sua família, de seu lar. Mas quem eu quero enganar? Aquilo não era um lar para ninguém. Harry andava a passos pesados e Gemma sentia cada pisada em seu peito, assim como imaginava que as palavras ditas por seu pai apunhalavam o jovem garoto e os dizeres repletos de emoção de sua mãe o deserdavam. A ingenuidade da garota a dizia que não havia motivo para a ida do Styles mais novo, mas seu coração a dizia que deveria sair de perto de seus pais o mais rápido possível, seus passos compassados com os do irmão, mas indo à direção contrária, deixando que as ordens dos mais velhos se perdessem no mais novo vazio da mansão. O sal das lágrimas já cobria as bochechas lisas como os vasos de cerâmica pelos quais ela estava passando, Gemma corria até seu quarto o mais rápido que podia.

Até então, aquela foi a noite mais triste de toda a vida da Styles. E também exaustiva, visto que a jovem nobre não conseguiu dormir, olhava pela janela com a força trazida pela esperança de que Harry voltaria e não a deixaria ali sozinha.

Os irmãos Styles cresceram sempre próximos, inseparáveis. Apenas a presença do mais novo trazia felicidade e forças para Gemma, ele a ajudava sem nem mesmo saber do tamanho de sua importância para a irmã.

Na manhã seguinte, o tempo não parou, como a jovem desejava. Ao que os primeiros raios de sol bateram no rosto de Anne, sua porta foi aberta com agressividade, mas ela não se moveu nem um centímetro. Clarisse imaginou que a neta estivesse dormindo debruçada no batente da janela, portanto, fortemente posicionou sua mão pesada no ombro da garota. 

— Espero que esteja lembrada do almoço de hoje, Gemma. É um evento muito importante.

Lentamente, a garota olhou para a avó, revelando o rosto inchado, os olhos vermelhos e as olheiras extremamente marcadas, o que trouxe um misto de surpresa e asco ao rosto da mais velha, o que feriria Gemma se já não estivesse abalada demais.

— Grandmère, por favor... Deixe-me ficar aqui — ela quase sussurrou, sua voz havia sido levada pelo mar de lágrimas.

— Já estou ciente dos acontecimentos da noite passada e digo com total convicção que é muita tolice se deixar abalar por isso, mas não preciso dizer que você é tola, pois já tem este fato gravado em sua mente.

Era verdade. Mas Gemma preferia ser chamada de tola a sair do resquício de conforto que ainda tinha naquela casa tão rica, mas tão vazia.

— Ficarei aqui, não estou me sentindo bem.

As unhas cruéis de Clarisse já eram familiares para a pele delicada de Gemma, então já era de se esperar que cinco afiadas lâminas fossem cravadas no braço descoberto da jovem, fazendo as lágrimas voltarem para seus olhos.

— Seu vestido está sobre sua cama. — Clarisse disse e saiu, soltando o braço da neta bruscamente e deixando ali pequenos ferimentos vermelhos.

O vestido tinha mangas longas, como todos os que a jovem usava, um pedido feito por sua avó aos alfaiates e às costureiras. As olheiras foram cobertas, mas nem toda a maquiagem do mundo conseguiria cobrir a tristeza que Anne carregava. Seus ombros curvados pelo cansaço foram logo ajeitados por Clarisse e a mesma a mandou sorrir, qualquer um dos sentimentos da neta era irrelevante para ela.

Gemma seguiu fingindo sorrisos, escondendo o cansaço e a tristeza. A duquesa conseguiu enganar até a si mesma, se fez acreditar na versão feliz e falsa de si mesma, se machucando mais a cada segundo e pedindo aos céus para que seu pequeno tesouro de esmeraldas voltasse para si. 

Se soubesse da dor que Harry sentia, Gemma não teria desejado, em nenhum momento, que seu irmão voltasse para casa. Se soubesse, entenderia.

Duquesa Gemma Anne StylesOnde histórias criam vida. Descubra agora