Acordei lá pelas 5 da manhã com o meu despertador apitando. Ainda tava bem escuro e não tinha ninguém em casa. Minha mãe ainda não tinha voltado de viagem. Ela trabalha como promotora de uma empresa de logística e por isso, não para muito em casa. Só nos finais de semana.
Somos apenas eu e ela, mas eu fico muito sozinho nos outros dias. Não é tão ruim quanto parece, até porque já acabei me acostumando.
Eu tenho uma melhor amiga, que conheço desde bem pequeno. Ela é totalmente o oposto de mim. Não tem vergonha de nada, se enturma muito fácil e volta e meia pega um garoto aleatório por aí. A gente sempre compartilha tudo um com o outro. Nunca guardamos segredos e adoramos fofocar sobre qualquer assunto , heheh. Ela é como uma irmã pra mim. Não consigo imaginar minha vida sem ela.
Dispensando as apresentações, vou até o banheiro pra me arrumar. Lavo meu rosto e dou uma boa olhada no espelho. Parecia que um caminhão tinha passado por cima da minha cara, hahah! Meus cabelos ruivos estavam todos bagunçados. Dei uma penteada pra ficar bem uniforme, e me lembro que hoje é dia de lavar ele. Lavo os cabelos de dois em dois dias. Acho que é a parte de mim que eu mais gosto e por isso cuido muito bem. Mas não gosto das minhas sardas. Fico parecendo um troço enferrujado. Sei lá. Acho meio estranho, por isso sempre deixo meus cabelos na frente, pra dar uma disfarçada. Enfim. Depois de arrumado, como uma maçã pra não ficar de estômago vazio e vou direto pro ponto de ônibus . Eu fico muuuito lento de manhã cedo. Ainda mais, porque tenho que levantar quase de madrugada todo santo dia. É isso que dá morar no fim do mundo!
O busão ainda ia demorar uns dez minutos pra chegar, então achei melhor aproveitar esse tempo e mandar umas mensagens pra Larissa, pra ver se ela já tava a caminho também. Diferente de mim, ela morava no centro da cidade.
"E aí, sua piranha! " - Ela mandou primeiro, obviamente.
"Kkkk eae já tá acordada?"
"Tô sim, bom dia pá nois."
"Quê que tem pra gente fazer hj?"
"O trabalho. .."
"Kkkkk q? Que trabalho? Aquele de história? ??"
"Esse aí memo kkkk a gente nem fez nada."
"Kkkkkkkkkkkkk" - Ouço o barulho do ônibus chegando.
"Meu busão acabou de chegar, já já tô na escola, blz?"
"Tá bom, fofinho ❤ um bj 😘😘" - O motorista tava com a maior cara de quem virou a madrugada dirigindo. Seguido de vários copos de café, pra não pegar no sono. Os olhos fundos de olheiras.
-- Bom dia, seu Antônio!
-- "Seu Antônio?" Eu num sou tão velho assim não, hein seu moleque! - Já faz mais ou menos uns dois anos que eu conheço o Antônio. Ele nunca mudou de linha. Sempre com a cara emburrada e de quem não dorme há séculos. Eu gostava dele. Seus cabelos grisalhos e uma leve calvície no topo da cabeça, me faziam lembrar do meu falecido avô. Às vezes a gente conversava sobre o dia a dia, outras, ele me contava alguma história aleatória sobre piratas e marinheiros. Ele era da aeronáutica. Serviu quase a vida toda dele, e quando se aposentou, quis começar a fazer alguma coisa completamente diferente. Daí virou motorista de ônibus. Meio nada a ver, mas eu achava legal ele querer fazer tantas coisas assim. Ele dizia, que quanto mais experiências tiver, mais histórias divertidas você poderá contar. Tipo meu avô mesmo.
-- Como é que o senhor tá hoje? - perguntei.
-- Ah, cê sabe, né, moleque? Tô aí, na luta de sempre. Mas e você, rapaz? Por quê é que você tá indo tão cedo pra escola assim? Tá aprontando, é?
-- Que nada, Seu Antônio. Eu tenho que resolver umas coisas agora de manhã. - Ele levanta uma sobrancelha, desconfiado. Em seguida, dá um sorrisinho sórdido.
-- Ahhh, já sei! Tá indo ver uma namoradinha, nééé, garoto? Hahahahh, eu já tive a sua idade, menino! - Seu Antônio era o rei da inconveniência. Mas eu gostava das suas brincadeiras.
-- Não, não, hahahah! O senhor sabe que eu não. ..Hummm… não curto…
-- Ah, é, rapaz! - Ele dá um tapa na própria testa, enquanto segurava o volante com a outra mão. - Me esqueci que você num gosta da fruta! Hahahahh! ! - Seu Antônio, era uma das únicas pessoas que sabiam, que eu era gay. Eu não confiava nele no início, pra falar sobre isso, na verdade, eu não confiava em ninguém. Sempre tive um pouco de medo de não ser aceito. Ainda mais porque gente que tem uma certa idade, não é muito conivente com diversidade, né? Mas me senti seguro, depois que contei pra ele. Ao invés de me criticar, ele me acolheu. E desde então, somos amigos.
-- Então você vai encontrar um namoradinho, néééé??
--Seu Antônio, eu vou lá pra trás, viu?
-- Hahahahahhh, vai lá garoto!
Passei meu cartão de passagem e me sentei lá no final das poltronas. Aproveitei pra ouvir um lo-fi - Meu tipo de música favorito - e com sorte, tiraria um cochilo até chegar lá.
Seis e pouco da manhã. Eu realmente dormi. O engraçado, é que eu era sempre o único passageiro que entrava e saía do ônibus naquele horário. Minha única companhia era o Seu Antônio.
Bocejei alto e me espreguicei uma última vez, antes de sair do veículo.
-- Tchau, tchau, Seu Antônio! Até amanhã! - me despeço acenando pra ele.
-- Até amanhã, garoto!
Já na frente da escola, vi que o portão menor estava aberto. Com certeza ela devia já ter entrado.
Larissa mexia no celular distraída. Fui até ela andando de fininho, e vedei seus olhos com minhas mãos pelas suas costas.
-- Adivinha quem é, gatinha? - Ela ri e acaricia minhas mãos.
-- É um dos meus quinhentos namorados! - não me seguro e caio na gargalhada. Ela me dá uma abraço tão apertado, que parece que vou quebrar no meio. - Aaawww, Raluca! Eu tava com tanta saudade de te abraçar assiiim!
Chega fiquei tonto, quando ela me soltou.
-- *Cof, cof* ! Então. .. Vamos lá pra frente.
-- Você leu meu pensamento, Raluquinha! - Seguimos até a parte da frente do pátio. Tinha umas mesas e uns bancos feitos de concreto daquele lado. Era perfeito pra ficar trocando uma idéia até o tempo passar. Larissa já chegava me contando todos os babados do final de semana. Ela pegou dois garotos numa social que sua irmã mais velha deu. Eu mesmo nunca conheci a Tárcela, mas a Larissa era obcecada e a admirava muito. Vivia me dizendo que queria ser igual a ela. Fazer faculdade, comprar coisas caras, pegar os caras mais bonitos e gostosos que ela pudesse… Enfim, ela queria dar certo na vida e eu a apoiava em tudo.
-- Ai, ai, Raluca… Eu queria mesmo, era arrumar um namorado. - suspirou ela.
-- Metade da turma quer te pegar, tu sabe né? Opção não falta, hahah.
-- Nahh!! Eu peguei metade da turma já, só tem moleque! Eu quero alguém mais assim… Mais sério, mais maduro e tal.. - Ela divaga um pouco nos próprios pensamentos. - Mas e você, Raluca? Até agora, nunca vi você pegando ninguém! - Corei igual um pimentão! Que diabo foi isso do nada?
-- E-eu não! Sai fora! Tô de boa ass-- . Ouço passos atrás da gente. Larissa estica o pescoço na mesma hora pra ver quem era. Fiquei sem reação na hora.
Ele era alto, tinha ombros largos e uma pele morena. Seus cabelos crespos e bem baixos. Seus olhos totalmente escuros, como a noite. Seu olhar era sereno, mas ao mesmo tempo angustiado. Não dava pra saber se ele tava triste, feliz, ou com raiva. Ele olhou pro nosso lado e eu virei rápido, pra disfarçar. De costas, só conseguia ouví-lo se afastar da gente. Parece que nem ligou se tinha alguém ali naquele horário. Agora eu fiquei curioso…
Eu nunca tinha visto aquele cara antes. Ele foi em direção ao anexo, o que significa que era mais velho que a gente e tava no ensino médio. Eu e Larissa éramos do nono ano. Ela ficou encarando ele até que sumisse de sua vista.
-- Que cara de mau que ele tem, viu? - Observadora e antiquada como sempre. - Vamos lá falar com ele?!! - Isso foi de 0 à 100 muito rápido! Que garota perturbada!
-- Larissa! - exclamei cochichando. - Você tá doida? E se ele ficar bravo com a gente?
-- Tá com medo dele, é? - Odiava quando ela tentava me provocar assim. - E eu percebi que você também ficou morrendo de curiosidade de conhecer ele! Aposto que não morde…
-- N - nem pensar! Você sempre me mete em encrenca!
-- Aaahhh Ralucaaaaa … Por favorzinho, vai! Eu faço seu dever de casa por uma semana! - Ela não fazia nem o próprio.
Pelo visto ela ia ficar me enchendo a paciência até eu ceder, então decidi ir até lá.
-- Mas você vem junto comigo!!!
-- Yaaaayy!! Obrigadaaaaa!!! - Ela me dá um beijo exagerado na bochecha.
-- Tá, tá, vamos logo!
Ele ainda não tinha chegado até o outro lado da escola. Não parecia estar com pressa. Me pergunto o por quê dele vir tão cedo assim. Quer dizer, eu sempre venho, porque moro no meio do nada, mesmo assim, não venho nesse horário. Só vim hoje, pra ficar à toa mesmo. Será que era assim com ele também? Fiquei com vontade de pergun--
-- Menino! Meninoooo!!! - Eu não acredito que ela realmente tava fazendo isso.
Ele se virou, continuando inexpressivo.
-- Oiê, menino!! - Quase morri de vergonha. Ele tava tão perto, que a única reação que tive, foi de me esconder atrás da Larissa. Esse é o lado bom de ser mais baixo que ela. - Qual seu nome?
Ele ainda estava me encarando. Olhei pra baixo pra não fazer contato visual. Mas eu tinha a impressão de que ele estava olhando ainda. Por favor, vai embora, garoto!!!
-- Guilherme. - E foi só isso que ele falou. Que cara antipático! Bom… Não dava pra saber se ele tava num dia ruim… Deve ser porque é segunda feira. Todo mundo odeia segunda feira. De qualquer modo, acho que a Larissa não esperava receber uma resposta tão seca assim. Ela chega ficou toda sem graça. Mas pra mim, tinha graça. - Hã… Eu vou nessa então, valeu. - E assim termina nossa aventura! Ainda bem que ele não demonstrou interesse na gente… Eu acho.
-- Agora já chega, né, garota? A gente deu sorte que ele não bateu em nenhum de nós dois. Bora voltar lá pro banquinho… - Ela esboçava um sorriso que dava até medo. Com certeza tinha alguma idéia absurda saindo dali.
-- E se?...
-- Não! !
-- A gente fosse até láááá?
--Larissa! Nem ferrando!
-- Só dar uma espiadinha assim… De leve. . - Mas essa garota do caralh…
-- TÁ, LARISSA! QUE ÓDIO DE VOCÊ!
E lá fomos nós de novo, atrás do tal Guilherme. Se eu não conhecesse bem a Larissa, diria que ela ficou completamente a fim dele. Bom pra ele…
-- Olha lá ele! Tá sentado perto da porta! Parece que tá meio puto… - comentou baixinho.
-- Que legal, né Larissa? Agora que a gente já veio aqui e viu o cara, já tá bom, né? - Ele virou o rosto e percebeu a gente espiando. Larissa tomou um susto e eu tomei outro susto com o susto dela. Quase caímos, feito dois idiotas. Que cena deplorável… Ele até riu da gente! Devia tá sentindo é pena.
-- Vai lá falar com ele!
-- QUÊ? LARISSA! DE JEITO NENHUM! - Ela ficou me olhando com cara de cachorrinho abandonado. - Ai, Larissa. .. Dá um tempo, né?
-- Eu juro que essa é a última vez, Raluquinha fofinho! - Desgraçada!
Ele não parecia incomodado com minha presença. Me sentei ao seu lado. Eu tava MUITO nervoso. Talvez ele não fosse má pessoa. Mas sempre tenho um pouco de medo de interagir com gente diferente. Ainda mais quando se trata de um brutamontes que nem esse. Ele me fitava de cima a baixo sem falar uma palavra. Antes que a tensão me matasse de uma vez, decidi puxar assunto:
-- O-oi! - Quase que não saiu!
-- E aí, moleque! - Ele vai me bater, ele vai me bater, ele vai me bateeeeerr! Eu quero minha mãe! Larissa, eu te odeeeiioooo!!! Senti meus olhos lacrimejando.
-- Desculpa, desculpa! Eu não queria te assustar! Hã… Qual é o seu nome? - Ele mudou o tom de voz. Acho que ele tinha um pouco de dificuldade em lidar com gente nova… Só que de um jeito diferente do meu.
-- É Raluca! O seu é Guilherme, né? - Ainda não conseguia soltar a voz direito.
-- É sim! O que sua amiga tava falando com você aquela hora? - Ah… Até que ele não era um ogro maligno, que nem eu tava pensando.
-- Ah… Hã.. Nada não, é que… Ela só gosta de implicar comigo o tempo todo, sabe? Nada demais, heheh… - Acho que dá pra confiar nele.
-- Ah, então era isso? Parece que ela tá vigiando a gente já tem um tempinho. - Ele vira em direção a Larissa, e ela se esconde, quando percebe. Essa ela me paga! Minha sorte, é que ele é um cara legal. - Eu nunca vi vocês por aqui nesse horário. - Eu queria saber por quê ele vem todo dia esse horário. Isso sim é esquisito.
-- Pois é, então, a gente veio mais cedo, porque esquecemos de fazer um trabalho que era pra entregar hoje, então… - Ele me olha com ar de reprovação e piedade.
-- Vocês não deveriam estar tipo… Fazendo esse trabalho, agora? Faltam uns 20 minutos pra abrir a escola. - Então foi por isso que ele me olhou daquele jeito.
-- Já passamos nesse bimestre. Era só uma desculpa pra gente passar mais um tempo de bobeira… - Já me sentia bem mais tranquilo ao lado dele. Parecia até… Um ursão de pelúcia.
-- Não são nem 7 da manhã, vocês não podiam escolher um horário melhor, não?! - Ele vai me bater, ele vai me bateeeeerr! !! Ursão de pelúcia uma ova!!!
--D - desculpa.. Eu.. Eu não queria te incomodar… - Me preparei pra sair correndo dali. Duvido que ele seria mais rápido do que eu!
-- Calma, calma, desculpa de novo, menino! - disse ele, gesticulando com as mãos pra tentar me tranquilizar. Eu hein, esse cara é realmente muito estranho! E atrás de mim, dava pra ouvir a Larissa quase se cagando de rir. Filha da…
Respira!
Certo!
Cerrei minhas mãos e esperei o clima ficar menos tenso. Ele aos poucos se aproxima de mim. Fiquei meio receoso. Ele vai tentar fazer alguma coisa, ou???
Não! Ele ficou parado sem dizer nada.
Ok! Ele não é um cara perigoso realmente. Dava pra ver que ele tava se esforçando. Eu gostei disso… Sem perceber, acabei esboçando um sorriso pra ele, e ele correspondeu com outro sorriso meio torto. Mas foi engraçado.
-- Hã. .. Qual a sua idade? - me perguntou, de repente.
-- Catorze, e você? - Uma mecha de cabelo cobria um dos meus olhos, então eu a joguei pra trás.
-- E - eu tenho 16! - Ele se acanhou todo, depois de me responder. Seu rosto ficou todo vermelho do nada. Eu fiz alguma coisa? Foi tipo, do nada! Espera aí. .. Que estranho… Meu coração acelerou de repente… Mas que mer--
-- Raluca! Já vai bater o sinal! Vamos lá pra dentro! - Quase caí do banco, com o grito da Larissa. Igual uma trovoada, credo!
Por fim, eu me despedi do Guilherme, acenando pra ele com um sorriso. Ele ficou lá, todo desconcertado com alguma coisa. E a Larissa toda boladinha com não sei o quê, me puxava pela manga do casaco, pisando duro.
-- Ei, o quê que deu em você, hein?
--Nada! Vamo logo!
A tia da limpeza logo chegou pra abrir as turmas. E o sinal tocou logo em seguida. E eu não parava de pensar naquele cara. Estranho. .. Mas, legal…
-- Para de me puxar assim, Larissa! Vai estragar meu casaco todo, ó!
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Amor Carmesim
Teen FictionGuilherme é um adolescente sem uma vida muito interessante pra se falar. Como a maioria de outros de sua idade, ele simplesmente existe. Na real, não dá nem pra chamar ele de protagonista, de tão chata que a vida dele é! Mas olha só! Do nada, alguma...
