Capítulo 1 - Dia ruim.. nem tanto

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Vesti meu traje estilo gótico medieval para ir à escola, aquele que eu sempre usava.
Eu caminhava pela casa, já arrumada para a escola, à procura da minha adaga e esperando pelo horário de saída. Acabei me distraindo demais.
Putz, olhei a hora em um relógio de parede na cozinha, que estava perto da adaga.

— Estou super atrasada, droga! — falei, batendo a cabeça na parede e colocando a adaga dentro da mochila. — Vou perder aula!

Eu não me importava de perder aula; não tinha amigos e sabia que assim que chegasse, as piadinhas maldosas sobre mim começariam. Dei um beijo nos meus pais, que ainda estavam dormindo.

Escola — sala de aula
Como sempre, entrei na sala e todos apontavam o dedo e riam. Eu queria chorar, queria sumir e nunca mais ter que ir à escola ou a qualquer outro lugar.

— Deixem ela! — disse uma voz ao fundo da sala, me defendendo. — Ela não merece isso, seus idiotas.
— Lugar do capeta é no inferno! — gritou outra voz em resposta à primeira.
No mesmo instante, a professora entrou na sala e eu fui me sentar.
— Posso? — disse uma menina arrastando a cadeira do meu lado.
Fiz que sim com a cabeça, pensando que ela apenas pegaria a cadeira e se sentaria em outro lugar. Porém, para minha surpresa, ela se sentou ao meu lado. Estranhei. Por que uma menina linda, sendo a mais popular do colégio, estaria se sentando comigo? Logo comigo, a menina mais estranha do mundo…
— Me chamo Tori Black. — apresentou-se com uma voz suave e um pouco sensual.
— Sou Scarlett Grey. — respondi, com a voz trêmula, chegando a gaguejar.
No mesmo instante percebi que fora ela quem me defendera quando os outros me insultaram.
— Por que me defendeste? — perguntei, abaixando a cabeça e desviando o olhar. — Pode dar mal para você.
— O que você quis dizer com isso? Ninguém tem direito de lhe fazer mal ou tratá-la dessa maneira!
— Não tem medo de que façam com você o mesmo que fazem comigo? Ou, pior… de perder a sua popularidade? — Perguntei. — Eu cansei de ver como te tratam e de ninguém fazer nada para te defender. Você é muito melhor do que essas palavras que esses ardilosos simplesmente cospem, e eu te admiro muito.

Fiquei admirada com suas belas palavras e, de maneira tímida, sorri, agradecendo a Tori pelo que fizera por mim. Ela retribuiu o sorriso, e foi a coisa mais linda que eu já vi. Uma sensação estranha e ao mesmo tempo confortável tomou conta do meu corpo, e meus olhos começaram a brilhar; temo que ela tenha percebido. Perdi totalmente o foco no resto do ambiente, como se estivesse presa em um limbo e ela fosse a única coisa ali presente.
Com apenas 11 anos, extremamente popular e dedicada, o que levaria Tori a criar laços com uma menina como eu, que se escondia em vestes inapropriadas, com resquícios de quem parecia ter acabado de sair de um velório ou se preparar para uma peça satânica?

Cinco anos depois
Já com 16 anos e ainda vestindo trajes góticos e medievais, eu finalmente tinha uma melhor amiga. A menina popular que se sentou comigo quando todos me desprezavam e me defendeu durante todos esses anos tornou-se minha confidente.
Dessa vez, eu tinha um motivo para viver: Tori, que nunca se importava com o que os outros diziam e estava sempre comigo.

Peguei um livro e me deitei para ler, quando o telefone tocou. Atendi:

— O-oi? — gaguejei um pouco.
— Tô com saudades, baby.
— Eu também! Vamos sair?
— Sim, em dez minutos estou aí, me aguarde!
— Nossa, dez minutos é pouco tempo — pensei. — Preciso me arrumar correndo.
Corri pela casa, subi as escadas, me joguei no chuveiro, tomei um banho rápido e corri para me vestir. Coloquei um vestido vermelho, um casaco roxo bem grande, um tênis All Star e fiz uma maquiagem escura, toda trabalhada no preto. Cerca de dois minutos depois, Tori chegou. Ela estava linda; muitas vezes me sentia constrangida de sair com Tori, que sempre parecia perfeita, enquanto eu me sentia desajeitada, parecendo um monstro.
— Vamos? — perguntou, me dando uma piscadinha safada.
— Aonde estamos indo?
— Surpresa!
Fomos andando; eu não fazia ideia de onde ela me levava, mas confiava nela. Entramos em uma espécie de balada, onde todos usavam roupas curtas e estavam visivelmente chapados. Era possível ouvir o barulho de pessoas transando nos banheiros.
— Tá se divertindo? — Tori perguntou.
— Sim! — gritei, para que ela pudesse ouvir. A música abafava a voz.
— O quê? Não tô conseguindo te ouvir! — ela gritou, fazendo o possível para se sobrepor à música.
— Estou me divertindo muito! — gritei mais alto. — Sempre me divirto com você!
Depois da balada, Tori me deixou em casa. Ao abrir a porta, meus pais estavam parados, segurando uma de minhas adagas.
— Pode me explicar isso, mocinha? — disse minha mãe, levantando a adaga.
— Uma adaga… sempre tive.
— Pensamos que você já tivesse esquecido dessas coisas! — disse meu pai, um pouco chateado.
— Me desculpem, eu amo minhas adagas. Fazem parte da minha vida. — falei, pegando a adaga da mão da minha mãe e entrando na casa.
— Boa noite, amo vocês. — falei, abraçando-os e dando um beijo.

Fui para meu quarto e olhei o celular. Havia duas mensagens:

Mensagem de Tori:
"Precisamos sair de novo amanhã, depois da aula!"

Mensagem de desconhecido:
"Você é linda, pare de se esconder."

Respondi primeiro à mensagem da Tori:
"Quero ir às compras amanhã."

Depois pensei na outra mensagem e respondi:
"Quem é? Que tipo de brincadeira é essa?"

A resposta chegou rapidamente:
Mensagem de desconhecido:
"Alguém que te acha linda. Isso não é brincadeira, você sabe que é linda."

Não soube o que responder, então apaguei a mensagem para que meus pais não lessem. Deitei na cama e peguei no sono. Quando acordei, já era manhã.

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