Eram nove e meia de uma manhã no final do mês de abril, e os alunos daquela escola de classe média-baixa estavam sendo liberados para o intervalo matutino.
Kemal não havia prestado tanta atenção na aula: o caderninho pequeno, de folhas brancas e capa dura, presente de Lars, estava aberto sobre a mesa e rabiscado com desenhos surrealistas que não faziam sentido para a maioria das pessoas. Ah, se Van Gogh estivesse ali para vê-los! Mas faltava-lhes cor: ela fazia tudo no grafite do lápis, que se enrolava em seus cachos loiros.
Lars, no corredor mais embaixo, esperava pacientemente pela entrada cotidiana de Kemal em sua sala de aula: ela sempre vinha buscá-lo na sala no intervalo. O casaco vermelho que ele sempre usava o destacava perto dos outros alunos fardados: o ar-condicionado estava sempre congelante.
Mas era terça-feira. Dia de ver a Diana! O quê? Não, eles não são o par romântico da história! Digamos apenas que... Lars joga para o outro time. Mas isso não vem ao caso. É que, naquele horário em específico, a Diana só aparecia às terças: era do turno vespertino. Nesses dias em especial, ela ia à escola no contraturno, excepcionalmente para vê-los.
Kemal — ou somente Mal, como era chamada — chegou à porta da sala de Lars, onde Diana já estava à espera. Ao notar o pequeno livro que Mal carregava, não pôde deixar de comentar.
— Essa juventude de hoje em dia só quer saber de livros! Vai atrás de um celular, garota!
Os olhos concentrados de Mal não saíram das páginas, mas a resposta veio, ainda que mal articulada:
— Me deixa, sua zoomer! — e deu uma vaga risada — Você sabe que eu não gosto de ser toda moderninha como você... e agora que a história tá começando a andar pra frente!
Ela não respondeu: Lars vinha saindo da sala, com o casaco vermelho enrolado nos braços. Tinha um apego muito grande àquela roupa, não se sabia o motivo. Talvez porque era uma troca de casacos que fizera com Mal — cujo manequim era uns cinco números abaixo do seu, mas sempre tivera roupas muito grandes — e isso o fazia lembrar da sua melhor amiga. Ou simplesmente porque era absurdamente confortável e macio.
— Vocês vão aonde agora? — perguntou Diana.
— Aonde a gente sempre vai.. né, Mal?
— Mal? Mal!
Os olhos dela estavam tão concentrados e brilhavam tão forte que pareciam estrelas.
— Ah, que lindo! — comentou para si mesma — O poema que o Dirceu recitou pra Lília...
— Pronto, baixou a romântica sonhadora nela! — Diana e Lars riram-se, e se adiantaram a despeito dos passos lentos e distraídos da outra.
Mal e Lars costumavam frequentar, todos os dias, durante os intervalos, o lugar mais confortável — para não dizer que era o único não tóxico — da escola: a sala de psicologia.
Ficava perto de uma das entradas principais, num corredor antecedido por uma escada de corrimões verdes. Era a primeira porta à esquerda — no meio havia outra porta, que era uma sala de aula reserva, e ainda uma terceira à direita, que dava no setor de olimpíadas. Os psicólogos dali eram gentis demais para funcionários de uma escola pública.
Mas quando Diana aparecia, o trio costumava ficar na sala vizinha, que quase sempre estava vazia. Para Mal e Diana, aquele lugar tinha muita história: foi na sétima série — antes de Mal ser reprovada — que aconteceu aquele fatídico romance entre ela e, até então, Marco. Era o nome de Diana, antes de ela se descobrir transsexual.
— Preciso da ajuda de vocês com uma coisa.. mas só se aceitarem — começou Diana.
— O que é?
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Isso não estava no roteiro!
General FictionUma patricinha gentil, uma introvertida inteligente, um tímido sorridente e uma ex-garota-prodígio. O que esses quatro têm em comum, fora a amizade de infância e os problemas com auto estima? O amor pela arte. Foi tudo ideia da cabeça de Diana! Ela...