Todo dia era uma bronca ao chegar em casa, mas Lars e Mal não paravam nunca de ficar na escola até o turno da tarde. Geralmente era somente para verem Jack e Diana; ainda era, mas agora era de um jeito diferente, pois havia muito a se ensaiar.
A todo instante, Diana e Mal encenavam suas personagens em diversos momentos diferentes do musical... mas em várias cenas, era impossível fazer do jeito certo: precisavam do coadjuvante, par romântico da protagonista.
Ele não aparecia tantas vezes, mas estava lá nas cenas mais relevantes. Não era apenas um par romântico: era, inicialmente, o playboyzinho irresponsável. Depois passou para dançarino, e para pessoa boa, e depois para capitão da guarda. Então, ficou noivo da "antagonista" — fora pego de surpresa. Só então se tornou o par romântico da personagem principal e, finalmente, o espantalho de Oz.
Buscaram então pela primeira opção: Dimitry! Que apesar de ser perfeito para o papel, por causa do contexto, não era tão indicado assim. Acontece que nunca havia atuado antes, e era bastante tímido, e não costumava cantar — não em público.
Não só isso: haviam ainda os problemas de ansiedade, a incerteza de decorar as falas, o medo de esquecer tudo na hora, o nervosismo de ter tantas pessoas olhando, o desespero caso desse algo errado... ele estremecia só de pensar!
E, fora tudo isso — como se não fosse o bastante — havia ainda a pequena rejeição por parte das famílias de Mal e dele, depois do término. Acontece que os parentes da garota não queriam ver a cara de Dimitry, e nem os parentes dele queriam ver a cara de Mal. Que desculpa ele arranjaria para ir à escola da sua ex-namorada, que era a quase uma hora de viagem de ônibus de sua casa?
Com tudo isso exposto, Dimitry disse um "não" muito bem justificado. Droga! Quem mais teria tanta... tanta conexão, tanta química com eles quanto Dimitry? Ninguém! Bom... mas tinham que se virar.
Esse é o problema de ser um grupo sem garotos. Quer dizer, tinha o Lars, mas... o personagem era muito, digamos, muito "másculo" para alguém tão "colorido" como ele, entende, leitor? O problema era que os garotos simpáticos "não tão coloridos" daquela escola se dividiam em dois tipos: ou eram machões escrotos que pareciam não ter saído da quinta série, ou eram simplesmente tímidos demais para fazer uma peça, ainda mais um musical.
Bem, acontece que tinham de arranjar um Fiyero e ponto. Foi aí que começaram as ideias erradas do grupo... bom, não tão erradas, mas... bastante peculiares.
— E se a Diana for o Fiyero? — sugeriu Mal, encarando aqueles olhos âmbar que tanto admirava.
— Eu!?
Ela rejeitou imediatamente. Era óbvio! Não se pede a uma garota transsexual para que ela faça um papel no seu gênero cis. Mas não era isso que a incomodava: ela não apenas queria ser a Glinda, como também precisava. Afinal, ninguém em todo o mundo teria aquela conexão de amizade intensa e brigas constantes ao mesmo tempo, não com Mal, não do jeito que ela tinha.
Seria resolver um problema criando outro: conseguir um Fiyero, mas perder uma Glinda. Mas não custava tentar, afinal, seria muito mais fácil achar uma patricinha simpática do que achar um hétero simpático — nada contra quem é hétero, inclusive meus pais são.
Bem, acontece que, magicamente, apareceu um garoto novo na história: Aaron, da sala de Lars, era um garoto simples e geralmente tímido, mas que estava começando a ter amizade com Mal naquele ano. Ele geralmente estava com fones de ouvido, sentado no fundão da sala, e passava uma vibe bem emo gótico, mesmo não sendo.
Quando Mal lhe ofereceu o papel, ele topou por curiosidade. Nunca havia assistido ao musical, nunca havia ouvido falar de Fiyero nenhum, e não fazia ideia de que teria que beijar a Mal na história! Claro, nada contra ela, quer dizer... é que ele já tinha uma quedinha por outra garota da escola. Seria meio chatinho ter que beijar uma garota, gostando de outra, mesmo em nome da arte. Mas ele deu uma chance.
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Isso não estava no roteiro!
General FictionUma patricinha gentil, uma introvertida inteligente, um tímido sorridente e uma ex-garota-prodígio. O que esses quatro têm em comum, fora a amizade de infância e os problemas com auto estima? O amor pela arte. Foi tudo ideia da cabeça de Diana! Ela...