– capítulo IV -
O barulho no andar de baixo havia cessado e eu, que nunca me interessara por futebol, de repente fiquei curiosa para saber como havia sido aquela tarde do clássico paulistano.
Ricardo havia cochilado com a cabeça em meu colo e, por mais que a pequena tela de quatorze polegadas continuasse a transmitir o episódio, eu já estava distraída e minha mente inquieta, procurando qualquer desculpa para sair daquele quarto e, "por ironia do destino", esbarrar em Flora. Acariciei as mechas claras e curtas do cabelo de Ricardo, diferente da irmã, ele tinha cabelo claro, quase dourado e levemente encaracolado. Minha avó insistia em dizer que quando tivéssemos filhos (sim, a mente dela ia longe), eles pareceriam o Anjinho da Turma da Mônica.
O carinho em suas madeixas não foi suficiente para acordá-lo. Ricardo parecia estar imerso em um sono profundo. Respirei fundo, sem opção, senão chamá-lo. Caso contrário, ele despertaria só no dia seguinte.
– Ric... – chamei. – Ricardo... – Tentei mais uma vez, sacudindo levemente seu ombro.
Os olhos cansados e esverdeados foram se abrindo lentamente até me encontrar. Ele sorriu, sonolento. Mas, então, endireitou a postura, sentando-se novamente no colchão.
– O que foi, Ceci? Está tudo bem? – indagou, preocupado.
Todo seu zelo comigo e minha segurança, a compreensão em esperar para termos nossa primeira vez e seu jeito carinhoso fazia com que eu me sentisse ainda mais culpada pelos sentimentos e pensamentos que corriam a minha mente. Eu queria gostar dele, eu queria amá-lo... Seria tão mais fácil se eu simplesmente conseguisse corresponder aos seus sentimentos.
– Está sim, eu só queria dar uma pausa nos episódios para ir ao banheiro – falei.
Ele sorriu, concordando com a cabeça. Como eu disse, Ricardo era compreensivo com tudo.
– Tudo bem, vou aproveitar então para ir até a cozinha e preparar algo para a gente, o que acha?
– Ótima ideia, minha barriga está roncando! – Retribuí o sorriso e me levantei.
Deixamos o quarto juntos, mas seguimos caminhos diferentes. Ricardo desceu as escadas para a cozinha e eu segui no corredor do segundo andar até o banheiro.
Assim que Ricardo terminou os degraus, passei a caminhar lentamente por aquele corredor, com passos premeditados e cheios de esperança. Eu imaginava que a última porta, a que ficava no fim do corredor, era onde estava Flora. Minha mente tentou imaginar um quarto de paredes escuras e repletas de pôsteres de bandas de rock, o baixo no canto e uma cama desarrumada. Mas, no fundo, eu nem sabia se toda minha imaginação era fidedigna, a única coisa que eu tinha a certeza era de querer conhecê-la cada vez mais.
Abri a porta que eu imaginei ser o banheiro. Ao menos, eu estava certa nesse ponto. Tranquei a porta, respirando fundo e tentando controlar as batidas aceleradas que sentia no peito, sentia meu coração bombear sangue freneticamente para todo o corpo. Era como se eu estivesse prestes a cometer um crime.
Pensar nela me causava uma estranha sensação de bem estar e agonia, como era possível?
Ela era o temporal e a bonança.
A parede era verde clara, com pequenos azulejos forrando-a. Uma pia, um vaso sanitário e um chuveiro. O clássico, nada a mais, nada a menos.
Curiosa além da conta, abri a portinha do armarinho que ficava em cima da pia. Havia uma necessaire preta com lacinhos roxos ali. Ricardo podia ser sensível, fofo e meigo, mas eu tinha a certeza que aquela maletinha não pertencia a ele. Eu sabia, só de olhar, que pertencia à Flora.
Repentinamente, eu me vi passando dos limites, abrindo uma bolsa que não era minha e, pior, sem permissão. Mas meu instinto, meu desespero em descobrir o máximo de informações sobre essa garota, falou mais alto do que minha razão.
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Amor & Liberdade
RomanceCecília tem dezenove anos e uma vida quase perfeita. Ou, pelo menos, era isso que ela imaginava até conhecer a enigmática Flora. Essa poderia ser só mais uma história de amor entre opostas que se apaixonam, contudo, existem dois pequenos detalhes: F...
