O ataque de cupido reverso.

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[Nome].

Girei a maçaneta da porta de casa com a maior cautela possível, na ponta dos pés, mas minha tentativa de entrar despercebida foi falha assim que cruzei o corredor. Meu pai estava parado no meio da cozinha, os braços cruzados sobre o peito, e um sorriso enigmático curvava seus lábios.

— Então... — Ele murmurou, seus olhos fixos em mim enquanto eu hesitava em avançar.

— O quê? — Retirei o cachecol volumoso que ainda envolvia meu pescoço, e a visão do meu rosto corado o fez soltar uma risada baixa e divertida. — O que foi agora?

— Você está vermelha como um pimentão. — Seus olhos brilhavam com uma malícia brincalhona. Olhei para ele, incrédula, sentindo o calor em minhas bochechas aumentar ainda mais. — É o seu... namorado? — O encarei em completo silêncio, minhas expressões faciais falando por si só, negando veementemente qualquer envolvimento romântico. — Ah, deve ser... eu vi vocês dois conversando em língua de sinais. Ele já sabe da sua surdez?

— Você não ficou sabendo? — Minha voz saiu sem animação, como se aquele assunto não me ferisse, enquanto observava a expressão confusa se instalar no rosto do meu pai. — Alguém vazou informações sobre a minha surdez em uma conta fake.

Meu pai abriu e fechou a boca inúmeras vezes, ponderando o que dizer, buscando desesperadamente as palavras certas, isso se ele sequer tivesse alguma ideia de como lidar com a situação.

— Nós vamos agora mesmo à delegacia prestar uma queixa! Isso é um absurdo! Uma completa invasão de privacidade!

— Não. — Minha voz firme o fez parar abruptamente no meio do caminho para pegar o casaco pendurado na cadeira. — Eu não quero fazer nenhuma queixa.

— Mas... por que, [Nome]? Por que não quer ajuda?

— Eu... eu só não quero. Vou resolver isso do meu jeito. — Meu pai suspirou profundamente, a mesma teimosia indomável que o havia feito se apaixonar perdidamente pela minha mãe, agora o levava à beira da loucura com a própria filha. — Não precisa se preocupar.

— Você... você não pode simplesmente aceitar a minha ajuda uma vez na vida? Só uma vez? — Sua pergunta, carregada de uma frustração magoada, me fez soltar um riso seco e incrédulo. — [Nome]... eu realmente pensei que estávamos começando a nos entender... mas eu acho que... a surdez não é a única coisa que te impede de ouvir as pessoas que se importam com você.

— Se importa comigo? Desde quando será?... Acho que talvez... — Minha voz beirava o cúmulo do sarcasmo. — Desde semana passada? Quando perdeu o emprego e lembrou que tinha uma filha?

— Não... por favor, não fala assim, [Nome]... — Sua voz vacilou, carregada de uma dor que eu, no meu ressentimento, me recusava a reconhecer como genuína.

— Fica tranquilo que isso não chega nem perto das coisas que eu penso em te falar. Você ficou desde os meus oito anos ausente, desde o maldito acidente você sumiu completamente da minha vida, e nós moramos na mesma casa.

— Você... — O homem suspirou pesadamente, o peso das minhas palavras visível em cada linha do seu rosto. Como se as pernas não pudessem mais sustentar o fardo da culpa, ele se deixou cair sobre a cadeira da cozinha, respirando fundo, o ar entrando e saindo de seus pulmões em um ritmo irregular. — Eu... eu simplesmente não conseguia te olhar nos olhos, [Nome]... sabendo que o acidente que eu causei... te fez ficar surda...

— E a sua... — Respirei fundo, segurando a vontade de berrar. — A sua solução foi me ignorar?! — Minha voz ecoou alta, rasgando pela minha garganta. — Que porra de pai é você?! Fui eu quem sofreu as consequências desse acidente! Você saiu ileso!

Silêncio... - Ken Ryuguji/Draken.Onde histórias criam vida. Descubra agora