[Nome]
Me joguei na cama com um suspiro pesado. Era três da manhã, passei exatas três horas na rua com o Draken, até me despedir e voltar para o meu mundinho do vôlei.
Alcancei a pequena caixinha sobre a mesa de cabeceira, meus dedos encontrando os aparelhos auditivos encaixados atrás das orelhas. Com um movimento automático, os retirei com facilidade. Aquele gesto me fez parar para refletir sobre. No início, eu sequer sabia segurá-los ou colocá-los em meu ouvido sem sentir dor... mas agora era algo rotineiro.
Me pergunto se essa sensação desconfortável também vai passar. Se um dia, ter minha surdez exposta não me causará mais esse nó na garganta e essa vontade de me encolher.
Flashback on.
A porta do meu quarto foi fechada com um estrondo violento, o barulho alto ecoando pela casa e chamando a atenção de meu pai que, por alguma razão desconhecida, estava em casa naquele momento. O susto o fez derrubar boa parte do café quente sobre suas pernas, um grunhido de dor escapando de seus lábios.
— [Nome], o que aconteceu? — Ignorando completamente a mancha que se espalhava por suas calças, ele correu em minha direção, o rosto contorcido de preocupação. O encarei, meus olhos marejados e repletos de uma frustração e raiva que mal consegui conter.
Minhas mãos trêmulas arrancaram os aparelhos úmidos de meus ouvidos com um movimento brusco e desesperado, jogando-os longe com toda a força que eu tinha. O impacto seco contra a parede os fez abrir, espalhando as pilhas pelo chão.
— Eles colocaram no vaso sanitário... de novo! — Esbravejei em um único fio de voz rouca e embargada. — Eu não aguento mais! Eu quero mudar de escola! Quero sair dessa cidade dos infernos!
Cobri meu rosto com as mãos, as lágrimas quentes e incontroláveis escorrendo por entre meus dedos, turvando minha visão e impedindo qualquer tentativa de racionalizar. Eu não conseguia mais suportar aquela humilhação, aquela sensação de ser tratada como um bicho estranho em um circo de horrores.
Meu pai sequer conseguia se mover da cadeira, paralisado diante do surto de dor e da minha explosão de desespero, ambos consequências da sua irresponsabilidade naquela noite fatídica ao volante.
— Me tira daqui. — O encarei, meus olhos vermelhos e inchados implorando em uma única e última súplica silenciosa. — Por favor... me leva embora daqui. — Ele se levantou, a dor visível em cada movimento hesitante, e caminhou em minha direção, seus olhos antes arregalados agora carregados de uma seriedade.
— Nós vamos embora, minha filha. — Ele segurou meu rosto entre suas mãos trêmulas, seus polegares limpando as lágrimas que não paravam de cair. — Eu te prometo, [Nome]. Você não vai mais sofrer assim.
— Eu fui castigada, pai? — Perguntei, a voz embargada pelo choro. Ele me encarou confuso, sem entender a profundidade da minha dor. — Por que as pessoas me odeiam tanto só por causa disso? Ser surdo é sinônimo de ser amaldiçoado?
— Nunca mais repita uma coisa dessas! Você não foi castigada e muito menos amaldiçoada! — Sua voz se tornou mais grossa e alta, carregada de raiva. — As pessoas são más, isso não tem nada a ver com você!
— Eu queria ter morrido naquele acidente! — As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse sequer processar o peso delas.
— Não... não diga isso... — Ele murmurou com a voz falha, seus olhos marejados refletindo minha própria angústia. — [Nome], por favor, não diga isso...
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Silêncio... - Ken Ryuguji/Draken.
FanfictionÉ como estar debaixo d'água, no silêncio isolado da margem. Eu sei que as pessoas estão falando ao meu redor, mas é impossível compreender. E no momento em que eu retorno para a margem e escuto tudo, é quando meus aparelhos estão comigo. Até que pon...
