Capítulo 4

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"Confesso que a ideia de escrever o que penso não é muito convidativa, mas graças aos acontecimentos das últimas horas confesso que esta é a forma menos chamativa de me acalmar os nervos e desabar.

"Ontem à noite encontrei um soldado inimigo perdido no campo de batalha, com um ferimento na nuca e aparentemente desorientado, inicialmente pensei em matá-lo imediatamente, mas cometi o erro de olhar em seu rosto e em seus olhos, e graças a esse erro os demônios dentro de mim acenderam uma chama que por muito tempo tentei apagar desde a primeira vez que foi acesa.

"Quase imediatamente, as lembranças da minha juventude e de um certo par de olhos vieram à mente. A semelhança entre os olhos deste pequeno soldado e minha paixão juvenil era incrível, o desejo de agarrar aquele soldado e protegê-lo como fosse a última coisa que me garantiria a vida, no primeiro instante tentei apagar esses pensamentos ficando o mais frio possível, talvez isso o fizesse ir embora mais rápido, mas a noite com sua marcha ininterrupta, trazia consigo os demônios mais cruéis e então eu explodi, nada na calada da noite, sem ninguém para ouvir, assistir ou julgar meu pecados.

"A angústia dominou meus nervos e me veio à mente o fantasma dele, minha primeira paixão, jovem como eu era. Não poderia me apaixonar de novo, não suportaria perder alguém de novo, ainda mais da forma mais brutal que um homem pode morrer, eu não poderia deixar o boêmio morrer. Ele não tem culpa das ações de velhos de terno longe dos campos de batalha onde a glória e o horror caminham lado a lado, não é culpa dele que seus pais e avós querem roubar as terras que pertencem aos austríacos por direito, não é culpa dele que eu me apaixonei, me hipnotizei, por seus olhos e rosto, por seu mau humor e seu bigode engraçado.

"Como eu queria que ele fosse meu, porque eu já sou dele, os demônios da minha alma e os fantasmas do meu sono me condenaram a isso, a me apaixonar pelo proibido e pelo pecado condenado por anjos e homens bons. O joio seria capaz de contaminar a boa colheita? Já que este pequeno e frágil soldado parece ser o mais bondoso dos homens e o mais leal entre os mortais, seria eu um monstro se lhe causasse dor e sofrimento já que o povo da sua terra o condenaria por querer me ter como amante e uma terra livre do domínio estrangeiro, mesmo que esse domínio seja direito do meu povo?

"E aqui estou, escrevendo em um velho carderno o quanto o céu me odeia, o suficiente para me deixar apaixonar por alguém que não deveria, pelo impossível e pelo pecado daqueles olhos brilhantes que me fazem pensar o mais selvagem, o mais primitivo dos pensamentos que um homem civilizado pode ter.

"Felizmente, ou infelizmente, tudo isso vai acabar quando encontrarmos o caminho de volta para nossos respectivos exércitos e continuarmos com nossas vidas, ele como se nada tivesse acontecido e eu como se um terremoto tivesse destruído tudo o que tenho. Ele vai ir embora, e só de pensar na possibilidade de ele ser, em poucos dias, a próxima vítima de balas e baionetas já me dá arrepios nos nervos como se eu estivesse vendo a Morte com meus próprios olhos.

"Havia alguma possibilidade de impedir sua partida? Impedi-lo de retornar à batalha e seu desejo de glória e triunfo? Negar-lhe a morte por seu 'país' e mantê-lo seguro comigo? Existe uma possibilidade, se sua vontade for retornar para o inferno da guerra, sendo esse o motivo da nossa separação iminente, seria uma solução levá-lo para o lado oposto dos exércitos, dessa forma, talvez, ele passe mais tempo comigo, para que eu possa proteger e cuidar dele como é devido.

"O caminho para os exércitos é seguir o leito do rio na direção de onde viemos, então se eu levá-lo na direção oposta vou salvá-lo do risco de morrer por uma causa perdida, e vou tê-lo são e salvo. E que Deus me ajude nessa jornada, não é santa, mas é por uma boa causa".

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