Cecily chegou ao "outro lado" levemente ansiosa. Ainda teria que voltar a Bampton em sete dias após a missa de Joan para terminar a coleta. Porém, agora, algo a perturbava. "Ele não vê só eu", ela pensou, lembrando que Nicholas comentara ter visto Ernest. Precisava encontrar o veterano e informá-lo da situação.
A passagem para o "outro lado" era uma porta simples de madeira de ébano que dava numa sala branca heptagonal com outras seis portas iguais numeradas. Era apenas uma imagem de transição, que evitava que os ceifadores ficassem enjoados ao fazer a passagem. No centro da sala havia uma orbe grande e azul que emitia uma luz leve neon. Cecily aproximou o bracelete da orbe e esta emitiu uma voz feminina amigável.
- Bem-vinda, Cecily! Qual porta devo abrir?
- Iona! Preciso falar com Ernest.
- Porta cinco! Não está meio cedo pra você voltar?
- Eu sei, mas é urgente! - disse Cecily correndo até a porta - Até mais, Iona!
Cecily abriu a porta de madeira e a atravessou. Do outro lado ela ouviu um abafado "Até mais!" emitido pela orbe. Ali havia apenas um corredor branco iluminado por orbes menores que emitiam uma luz branca. No fim do corredor, apenas uns 5 metros a frente, estava outra porta de ébano. Cecily bateu.
- Quem é? - respondeu uma voz masculina rouca.
- É Cecily, Ernest! - disse a moça.
Um barulho de passos seguido do som de uma fechadura destravando foi ouvido e logo em seguida um homem alto e magro apareceu na porta. Ernest aparentava estar nos 50 anos de idade, com vários fios faltando na cabeça grisalha e uma barba bem aparada. Os olhos escuros se destacavam nas órbitas fundas e sua pele negra estava coberta de manchas de sol. Apesar da expressão séria, ele abriu um largo sorriso ao ver Cecily parada ali.
- Cecily! Voltou cedo! Deu alguma coisa errada com a coleta em Bampton?
- Não, eu já iniciei a coleta da garota. Joan Taylor, o nome dela. Eu vou ter que voltar lá depois, é que eu preciso falar com você!
- Claro! Pode entrar! Aceita um café? Um chá? Algo mais forte?
Cecily entrou no quarto. O aposento era um duplex enorme, com uma escada em espiral que levava ao dormitório. O resto era uma mistura de biblioteca com laboratório, com as paredes lotadas de livros e armários com vidros e potes cheios de substâncias. O cheiro do local era uma mistura de plantas secas com químicos fortes. Era levemente nauseante. Porém Cecily já estava acostumada.
- Ernest, você sabe que eu não bebo! Aceito um chá. De ibisco se tiver!
- Vou ferver a água! Mas qual é o assunto urgente que tirou minha pequena Cecily do meio de uma coleta?
- É sobre o garoto - disse Cecily, pegando duas xícaras.
- Ah sim! Ele deve estar mais velho agora... Quantos anos ele tem?
- 14! Esses saltos temporais que damos no trabalho são absurdos! Ontem mesmo eu coletei o irmão dele e ele já tem 14 anos!
- Acostume-se, Cecily. Eu estou no ramo há 30 anos, uma hora você não nota mais.
- É meio difícil não notar quando ele consegue ver a gente. Inclusive, ele viu você.
- Viu? - Ernest, que estava acendendo a lareira, parou e virou-se pra ela. - Quando fui buscar a senhora Cooper?
- Provavelmente. O que o torna ainda mais intrigante. Ele pode ver outros além de mim!
- Sim, é realmente sem precedentes! Falando nisso, os resultados dos testes com o irmão dele saíram, ele não tem nada de anormal. Se o garoto não tivesse sido atacado, não conseguiria ver a gente como o irmão vê. - Ernest disse enquanto pendurava o bule na lareira para ferver a água.
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Elo mortal
ParanormalDesenho da capa: @mamatiazi (Instagram) Quando era apenas uma criança, Nicholas presenciou algo que mudaria a sua vida. Enquanto seu irmão Geoffrey agonizava após ser atacado por um animal selvagem, uma linda mulher de vastos cabelos negros surgiu d...
