- Medo da Chuva?
Foi como um estalo, meu olhar escorreu lentamente da altura em que estava até o chão, um par de pés vestidos de seus tênis pretos com cadarços desastrosamente desordenados, como alguém que não tem paciência para amarrar com nós de laço. Virei o rosto lentamente mapeando cada traço do homem ao meu lado, conforme inclinava, descobria pacientemente seu queixo não muito marcado mas em proporção coerente, lábios que se apresentam de forma sexy e uniforme mas ainda sim, masculina. Mas os olhos, eram grandes e confiantes, não duvidavam nem por um segundo. É claro que eu não fiquei minutos fazendo isso, seria estranho e perturbador, levei apenas alguns segundos para descobrir quem ele era, sorri sem jeito mas ele não retribuiu, o clima pesou.
- A chuva é o espelho dos nossos medos interiores. Disse confiante, voltando meu olhar ao que já estava se transformando em uma tempestade
- Citando Nietzsche? Balbuciou
- Eu acabei de inventar essa frase.
Nossos olhares se encontraram, respirei fundo esperando que ele soltasse uma gargalhada digna da minha piada mas nenhuma reação, ele era tão sério que chegava a ser cômico, parecia me entender e não entender ao mesmo tempo e isso me confundia. Talvez ele estivesse calculando a reação que iria ter, algo do tipo, e permanecia com a mesma inexpressão, até que soprou fraco enquanto balançava a cabeça negativamente, mostrando uma espécie de decepção sutil, e um sorriso discreto quase imperceptível nos lábios. Soltei a risada que estava presa na minha garganta, ele seguiu meu ritmo e em alguns instantes estávamos sorrindo um para o outro como dois amigos que se conhecem.
- Não sou muito bom lidando com climas pesados.
Respirei fundo aliviada. Era difícil manter contato visual por muito tempo, meus lábios secaram com a respiração nervosa, enquanto meus dedos se apertavam uns contra os outros, fazendo com que minhas mãos suassem um pouco, estava terrivelmente envergonhada. Ele estendeu sua mão gentilmente sugerindo um cumprimento simples, novamente, como dois amigos que se conhecem, limpei rapidamente a palma na barra da jaqueta sem que percebesse, e levei minha mão trêmula ao encontro da dele, um aperto firme e quente se estendeu por alguns segundos até que novamente minha respiração nervosa me fez virar o rosto e encarar a chuva que ainda caia. Eram detalhes mínimos que com certeza ele não notou, não eram sinais tão nítidos como arrumar o cabelo ou sorrir a cada palavra, era muito pior, não queria agradá-lo ou me mostrar interessada, mas de alguma forma, ele se mantinha aparentemente morno e sincero, isso me agradou.
- Diria que o clima está mais molhado do que pesado. Um sorriso desajeitado se formou em meu rosto, eu não conseguia ficar alguns minutos sem fazer alguma piada extremamente idiota.
Assumi que havia me entregado nessa, estava estampado na minha testa, grifado em vermelho e com setas indicando o quanto eu fiquei interessada nele, eu deveria ficar menos dentro dos meus pensamentos e mais atenta em meus próprios olhos, quando retomei a fala percebi que ele já não estava mais do meu lado, foram segundos de distração que resultaram em culpa eterna, iria me martirizar por dias, semanas e meses sem parar, chutei com raiva uma poça de água que tinha se formado, junto de um grito preso e angustiado, mesmo em negação sai andando sem muita preocupação com a chuva e meu cabelo que tinha arrumado no mesmo dia, quando senti a água atravessando o tecido que cobria meus ombros tive um arrependimento instantâneo, mais uma ação inconsequente que resultou em mais ódio, prestes a afrontar a primeira pessoa que surgisse no meu campo de visão, um assovio vindo de trás roubou minha atenção.
- O que está fazendo? Ressoou a voz masculina grave vindo da direção do mercado, a mesma do assovio
- Eu derrubei uma coisa, acho que meu brinco sumiu, ele...talvez, olha só...deixa pra lá. Respondi cobrindo o rosto dos pingos e voltando em passos lentos até onde estava
- Disse que só ia buscar o guarda-chuva, você estava meio aérea então achei que tinha concordado. Ele mostrou questionamento direto sem qualquer filtro ao final da frase , eu entendi.
Perdi a fala, e aquele mesmo sorriso desajeitado tomou conta novamente, mil desculpas surgiram mas nenhuma boa o suficiente, e para minha infelicidade, ele repetiu a mesma atitude de desaprovação, balançando a cabeça para os lados mas dessa vez com um sorriso parecido com o meu, talvez ele fosse igual a mim, enfim.
- Claro. Concordei
- Eu te acompanho até em casa.
Não havia possibilidade de negar, não era um convite.
Eu sorri alegremente o olhando, sem esconder um dente sequer, deixei que soubesse.
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Todas as formas de cortar um abacaxi
RomanceUm retrato sensível sobre um relacionamento que se desenrola entre duas mentes complexas e vulneráveis. O casal central desvenda uma narrativa delicada e realista, onde a descoberta mútua de segredos e traços ocultos torna-se um labirinto fascinante...