33. Solitários espadachins

21 3 7
                                        

    Ilha de Kder, 15 de dezembro.

    Hiroshi acorda de um cochilo em sua antiga cama. Seu corpo parece ainda não ter se acostumado com sua antiga rotina de sono.

    Antes de se levantar, ele passa a mão no seu rosto esperando sujá-la de sangue, mas sua mão continua seca, indicando que não há mais ferida alguma.

   "Já estou curado...? Eu não acho que conseguiria isso por conta própria tão rápido, muito menos na minha condição atual. Será que Lorde Vak está sendo caridoso comigo?"

    Ele passa mais alguns segundos deitado olhando para o teto, deitar numa cama é um privilégio que ele não tem mais como garantir.

    Após finalmente se levantar, ele lentamente caminha até o espelho para ver de perto sua frágil e decaída aparência atual.

    Ao levantar sua camiseta, ele enxerga suas costelas facilmente visíveis debaixo da pele, o resultado de passar um mês sem se alimentar, recebendo os nutrientes necessários para sua sobrevivência através de um tubo. Seu corpo esteve em coma, mas ele não esteve em um hospital, obviamente ele não receberia o tratamento adequado.

    Como toda vez em que esteve naquele lugar, naquela prisão, sua sobrevivência era a única garantia que ele tinha. Qualquer coisa além disso era um luxo que não estavam dispostos a provê-lo.

    Ao olhar para seus pulsos, avermelhados pelas marcas deixadas pelas algemas, que forçavam seu corpo a se manter levantado, ele questiona suas memórias:

   "Eu tinha isso quando eu vim pra cá pela primeira vez...?"

    Por último, ele simplesmente encara o reflexo de seu próprio rosto. Eles não fizeram nada com sua cabeça, então não há nenhuma diferença muito drástica. Porém, seu rosto agora carrega uma expressão diferente de qualquer outra que ele lembra de ter feito. Seus olhos nunca pareceram tão mortos.

   "Este olhar... é bem parecido com o dele..."

    O homem que matou seu irmão mais velho. No dia em que esse homem foi morto por Hiroshi, seu rosto parecia vazio de certa forma, como se não carregasse significado nenhum em sua batalha final.

    Na raiva do momento, o garoto não estava se importando em nada com o que se passava na mente do homem, porém suas últimas palavras de alguma forma nunca saíram de sua memória:

   "Me desculpa, moleque... Eu só estava cansado."

    Quando ele ouviu isso, ele não fazia ideia do que isso deveria significar. Ele nunca se daria o esforço de tentar compreender as palavras de um assassino, por mais hipócrita que seja essa lógica. Além disso, do que ele estaria cansado? Que cansaço levaria alguém a se tornar um instrumento de assassinato?

    Ainda assim, várias semanas depois, por algum motivo essa memória se tornou muito mais recorrente em sua mente, e a cada repetição começou a fazer cada vez mais sentido.

    Ele continua a se olhar no espelho, evitando se afundar demais em seus pensamentos. Seu cabelo continua praticamente o mesmo de antes, senão um pouco mais bagunçado. Desde que Vektor Drenn o cortou, ele nunca mais foi capaz de sentir a mesma imponência que sua aparência carregava antes. Pelo contrário, ele parece cada dia mais patético.

    A ferida em sua cabeça que ainda não estaria curada se não fosse a interferência de seu lorde é a marca definitiva de sua lealdade, a provação necessária para participar desta atual missão. A lembrança dessa provação foi guardada na gaveta do quarto de Katsuo.

    No pior dos casos, essa gaveta será o túmulo de suas memórias. No melhor dos casos, alguém abrirá essa gaveta e encontrará o que foi guardado dentro da mesma. De qualquer forma, esse item não significa mais muita coisa pra ele, por ser algo que o conecta a uma vida que ele não planeja mais voltar.

DrettonusOnde histórias criam vida. Descubra agora