Se eu fosse ser um som,
Eu seria o passar do vento.
Passa em todos os lugares,
Mas muda a todo momento.
A única coisa que não mudou
Foi a minha mudança.
E talvez seja isso mesmo
Que mantém minha esperança.
Foi tudo que me restou.
E, pra falar a verdade,
Foi a melhor qualidade
Que o meu saudoso "eu" deixou.
Eu fui contando os meus segundos
Enquanto passava-se os meses;
Deixei de viver em mil mundos
Pra viver o mesmo mundo mil vezes.
Fazer aquilo que dá vontade;
Quero um dia ser assim.
Viver a vida de verdade
Não parece tão ruim.
O mundo é uma dualidade
Que só se vê de verdade
Após deixar de enxergar.
O tempo passa tão rápido;
Vai mudando passo a passo,
E só acerta esse compasso
Depois que desacelerar.
Se eu partir, deixo-lhe um presente:
Um "eu te amo" de recordação,
Junto das memórias póstumas
Atrás do meu caixão.
No túmulo de memórias e poeira,
Numa caixa de madeira
Onde guardo a nossa canção.
Posso até partir bem cedo;
Talvez isso seja um problema.
Pois eu sinto muito medo
De acabar esse poema;
Porque é algo que se conclui.
E, no sublime final,
O que levarei ao hospital
Serão lembranças de quem já fui.
