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Passado de Aghata

Musa

Dizem que a vida é feita de altos e baixos, mas desde pequena a minha só pareceu conhecer o baixo.

Minha mãe foi embora quando eu tinha doze anos. Sumiu no mundo, abandonando eu e meu pai. A idéia de ser mãe aos dezessete anos não foi bem recebida por ela. Meu pai a amava de um jeito doente, mas mesmo sabendo que, de alguma forma, a culpa de ela ter ido embora passou a ser minha, ele não me rejeitou. Tentando recomeçar e esquecer, decidiu que iríamos sair de São Paulo e ir para o Rio de Janeiro. Ele conversou com minha tia para ver se ela deixaria nós ficarmos lá até ele se reerguer. Ela disse que ajudaria, que seria até melhor para mim, que eu cresceria com minha prima, Alana.

Ele trabalhou por mais três meses e foi vendendo as coisas de casa para juntar um dinheiro. Eu pensei que as coisas iam melhorar. Mas quando chegamos ao Rio, tudo foi diferente. A minha tia nos buscou no aeroporto. Fomos direto para o Complexo da Maré. Ela morava perto da entrada, não era no meio do movimento, mas um pouco longe de perigo. Tiroteios não eram novidade, e a presença dos traficantes era constante, mesmo que só víssemos a cara deles na beira do morro.

Aos poucos percebi que meu pai não estava melhorando, pelo contrário, se afundava cada vez mais. A idéia de procurar emprego para ocupar a mente foi recusada aos poucos. Então eu saí em busca de trabalho. Fui contratada como babá da Yara. Uma menina muito fofa, ela tinha cinco anos. Cuidava dela das 14:00 às 23:00. Estudava de manhã e trabalhava à tarde. Era pesado, mas era o que dava para fazer.

Meu pai começou a se entupir de droga e a vender o que pertencia à minha tia. O problema é que ela na tentativa de retirar ele desse vício, acabou viciando também. De repente, só restávamos eu e a Alana para sustentar a casa. Eu não sabia exatamente com o que a Alana trabalhava, só que ganhava bem. A mãe dela sempre dava um jeito de pegar todo o dinheiro dela. Ela conheceu o patrão do Alana e todo final de semana ela ia buscar o dinheiro da menina e inventava mó história.

O que eu ganhava virou pouco. Precisava comprar coisas para mim, para a Alana e tentar manter a casa minimamente em ordem. Certo dia, pela manhã, recebi uma notícia que me destruiu. Yara e a família estava se mudando para o asfalto e a mãe dela não precisava mais de mim. Perdi mais do que um emprego. Perdi a única coisa que nos mantinha.

A Alana não guardava o próprio dinheiro. Sempre que tentava, ela apanhava. Com a falta de grana, começamos a passar necessidade extrema. Apanhávamos por não trazer comida ou por não conseguir manter a casa limpa é manter o vício deles. Meu pai e minha tia só sabiam sujar e deixar um cheiro terrível. Tanto que a casa só vivia fedendo a cigarro e bebida. Alana deu um jeito e nos tirou daquela casa. Eu não fazia idéia de como ela conseguiu, mas agradeci muito por isso.

Quando completei quinze anos, minha vida desabou de vez. Minha tia teve uma overdose e meu pai, que já havia perdido a razão, procuro tanto a gente que acho. Disse que a culpa era nossa. Levamos a maior surra da vida. Eu não tinha coragem de encostar a mão nele porque era meu pai. Mas não aguentei vê-lo bater na Alana.

Alana não deixava meu pai encosta em mim por isso sempre andava com hematomas pelo corpo. Mas nem sempre funcionava. Meu pai bateu tanto nela até ela desmaiar. Parti pra cima Não iria vê ele pisando na cabeça da menina e eu sentada esperando por ajuda. Foi uma briga do caralho. Dois meninos armados entraram no meio e, dada a situação, tenho certeza que imaginaram o pior. Acabaram tirando ele de lá com pontapés.

Alana precisou ser levado ao hospital e eu não tinha como pagar remédios. Então entrei em contato com um amigo, implorando por ajuda, Luan arrumou um serviço para mim, um "aviãozinho" para bandido. Naquele momento não vi outra solução, não conseguia emprego e precisava de dinheiro. No começo fiquei assustada, mas com o tempo fui me acostumando e colocando as coisas em ordem.

O que mais me surpreendeu foi descobrir que a Alana era quem ajudava a vender as drogas. Chamavam ela de "Burguesa", dizem que e pelo jeito de metida.
Realmente aparenta, mas como falam a aparência engana.

Luan viro um irmão pra mim. Sempre que eu precisava ele ajudava, saia madrugadas, tardes, tudo pra me ajudar e não deixava nada acontecer comigo.

Cada uma fazia seu trampo e boa. Eu fui ganhando moral, passei para vendas, Luan cuidava da cobrança. As coisas começaram a melhorar, pra ele. Alana saiu do hospital. Luan começo a morar com a gente. Terminamos a escola, mas eu me afundei cada vez mais nessa vida.

Nos momentos em que não estava vendendo, treinava boxe e cuidava do meu corpo. Não queria me permitir apanhar de novo. Não queria mais sentir a humilhação de quem precisa implorar para não morrer apanhando.

Depois de alguns anos, descobri que Yara tinha voltado para o morro para morar com a avó, já que os pais não faziam muita questão dela. Fui atrás. Por incrível que pareça, depois de todo esse tempo ela ainda lembrava de mim. Fiz questão de levá-la e buscá-la na escola todo dia e de não deixar faltar nada, já que a avó dela passava algumas dificuldades.

Mesmo depois de três anos no tráfico, eu nunca tinha falado com o dono do morro. Até o dia em que ele veio tirar satisfação sobre o sumiço de algumas caixas de armas. Foi aí que eu e o Alemão quase nos matamos em uma briga. Ele era desconfiado e não tinha como eu provar a verdade já que nos últimos dias, eu era a última a fechar o galpão. Com muito custo consegui provar com a ajuda do TH, que era um dos vapores dele. TH e eu fomos virando melhores amigos, graças a ele não fui torturada ou morta.

Na minha cabeça, às vezes pensava que morreria nas mãos daquele homem louco. Como pode um cara tão podre conseguir ser tão bonito? Entendo por que as mulheres queriam o Alemão. Confesso que eu mesma me vi querendo as vezes. Mas, por sorte ou azar, ele começou a colocar vapores para me vigiar. E incrivelmente ele aparecia em todo lugar que eu ia.

Com o tempo, TH foi me contando as verdades sobre as belas intenções do patrão é aos poucos, eu e o Alemão fomos nos envolvendo. Hoje fazem cinco meses que saí da casa onde morava com a Burguesa e o Luan e vim morar com o Alemão. Ele vivia no meu pé reclamando que eu só sabia ficar com ela, que ele como namorado, era sempre deixado de lado. Se arrependimento matasse, eu já teria morrido. Todos os dias brigamos pra caralho. Tem dias calmos, mas outros em que nada se resolve.

Hoje em dia sou gerente da boca. Não porque sou a mulher do chefe. mas por mérito. Faz oito anos que vivo no crime. Sei que errei demais. Entrei em um caminho sem volta. Mas também sei que fiz certas escolhas apenas para sobreviver.

Agora resta seguir em frente.

Obsessão Mortal. (Em Revisão)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora