Qualquer um está passível de cometer erros.
Após se indispor com sua mãe e seu melhor amigo, Raquel passou horas pensando no porquê de um pequeno assunto ter tomado a proporção que alcançou. Ela já era uma jovem mulher, não uma criança. Se apaixonar era algo que muito em breve viria a acontecer, mas claro, havia empecilhos nesse caminho.
O principal deles era a própria Raquel. Não poderia tomar a frente em algo quando não tinha conhecimento ou bagagem sobre o assunto. Era um passarinho preso em uma gaiola, cuja porta era aberta vez ou outra, trazendo uma falsa sensação de liberdade para ela.
Conhecer Johnny foi o máximo que se atreveu a fazer, mas de agora em diante, as coisas seriam diferentes.
— Mãe? — Deu leves batidas na porta do quarto da mais velha, vendo-a sentada na cama, enquanto lia a bíblia. — Posso entrar?
— Pode, Raquel.
Lurdes fechou a bíblia, deixando-a em cima da mesinha ao lado de sua cama. Tirou também lá óculos de grau, colocando em cima da bíblia. Encarou a filha mais velha entrar em seu quarto, parecendo um filhote voltando tímido para a mãe, após fazer travessuras.
— A senhora está bem? — Indagou, recebendo dela um aquiescer, junto de uma expressão cansada pelo trabalho braçal que fazia. — Ótimo… ah, eu queria pedir desculpas por discutir com a senhora. Sabe que não era a minha intenção.
— Não? Me pareceu que tudo estava engasgado esse tempo todo — amargurada, não cedeu a princípio. — Está pedindo desculpas de coração?
— Sim, mãe — sentiu uma sutil fraqueza, sinal de seu emocional abalado pelas discussões e o que andava vivendo por aqueles dias. — Sabe que jamais mentiria para a senhora.
— Mesmo?
— Sim. Eu também não irei mais ver o Johnny. Vou me afastar, já que ele está me causando tanto mal, é melhor evitar ele de uma vez por todas.
Raquel disse seriamente, convicta de não teria mais o mínimo contato com aquele homem. Ele era alguém passageiro, sua mãe não. Ela pensava que não era certo ir contra a própria família, mesmo que a família em questão, estivesse sendo contra a própria Raquel.
— Vamos esquecer esse assunto, tudo bem? — Lurdes se aproximou mais dela, abraçando o corpo menor de Raquel com bastante força. — Eu te amo, não quero mais brigar com você, meu amor.
— Nem eu quero isso, mãe — havia algo de estranho em tudo aquilo. Raquel sabia que as excedeu no que disse, mas não em seus sentimentos. E eles diziam que ela não era culpada do que estavam acusando-a. — Me perdoe.
— Está tudo bem, meu amor. Já passou.
Sim, passou. Pelo menos com sua mãe. No entanto, ainda havia mais alguém e esse, ainda tinha muita fúria dentro de si.
Os sons de socos eram altos, fortes, todos desferidos em um enorme saco de areia. Henrique morava em uma casa com quintal grande, tendo assim a chance de poder separar um espaço para os seus treinos. Visava uma vida saudável, uma boa aparência, espairecer a mente quando possível. Ainda mais naquela semana onde tudo foi maçante para o rapaz.
Não conseguiu deixar de pensar em Raquel um momento sequer. Tudo lhe remetia a ela. Os jogos de terror que davam sustos bobos, o bolo de chocolate que a sua mãe fazia duas vezes por semana, ir na igreja e vê-la tão longe e distante, o trajeto para a faculdade.
Henrique percebeu que ela fazia parte dos seus dias e perdê-la assim causou uma grande lacuna no rapaz.
Seu treino árduo não cessava. Sua raiva deveria ser driblada e sua mente buscava repouso. No entanto, toda hora vinha a cena de Johnny em cima de Raquel. Suas falas certeiras, o jeito engraçado e despretensioso. Ele facilmente teria Raquel e era doloroso pensar nisso.
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Entre nós
Mystery / ThrillerRaquel e Henrique são amigos de longa data que dividem sentimentos bons entre si. Entretanto, tal sentimento passa a mudar e a ganhar proporções catastróficas à medida que vão crescendo e se afastando um do outro.
