Edy balançou a cabeça em sinal de confirmação e falou:
- Me encontra na praça da catedral às 16:00.
Logo em seguida, deu um aperto de mão em Deniz e foi embora.
- Qual vai ser a desculpa que a gente vai dar para a irmã Carmel por sairmos do orfanato nesse horário? - pergunto o Deniz enquanto vejo a silhueta de Edy se perder na multidão de alunos da escola.
- A gente dá um jeito... enfim, vou para a sala - respondeu Deniz, se afastando.
O dia passou rapidamente com a mesma rotina monótona de sempre. Ao ser liberado da escola, cheguei rápido ao orfanato, logo me dirigindo ao meu quarto. Ao abrir a porta, me deparo com Deniz sentado na minha cama.
- E aí, vai ficar invadindo o quarto dos outros assim mesmo? - falo com uma expressão de indignação, jogando minha bolsa em um canto do quarto.
Deniz ignora totalmente meu comentário e aponta para a janela.
- Quero ser o primeiro a chegar. Aliás, a gente não sabe quem são essas pessoas que o Edy vai chamar. Vamos ter que dar um jeito de pular.
- Pular? Eu não sou louco de pular do primeiro andar - digo, olhando pela janela a altura do meu quarto até o jardim lá fora.
- É o jeito, amigo... Peraí, e esses lençóis aí do seu lado? - ele fala, apontando para uma pilha de lençóis ao meu lado.
- Estão sujos, esqueci de... Hummm, entendi, saquei sua ideia. Vamos improvisar uma corda com os lençóis - respondo, pegando os lençóis.
Amarramos os lençóis firmemente entre si para aguentar o peso dos dois e amarramos a corda no pé do meu armário.
- Tomara que a irmã Carmel não descubra - disse Deniz, jogando a corda de lençol pela janela.
- Vamos sair logo, quanto mais rápido a gente for, mais rápido a gente volta - respondo, me preparando para descer pela corda improvisada.
Eu e Deniz descemos sem problemas e também não tivemos dificuldades para pular o muro do orfanato.
A cidade de Santana de Garambéu tem só uma praça, que fica de frente para a grande e velha catedral. Ao nos aproximarmos, o sentimento de que havia algo errado com a cidade só aumentava.
Ao chegarmos à praça, avistamos Edy ao longe, e ele logo nos viu também. Quando nos aproximamos, vejo que ele está segurando uma câmera pequena. Nos o cumprimentamos.
- Os outros já estão chegando - disse Edy, com um semblante sério.
- E essa câmera aí? - pergunto, apontando para ela.
- Logo vocês vão entender... Acho que o pessoal já está chegando - respondeu Edy, apontando.
De longe, reconheço duas figuras. Uma delas é o garoto que eu conheci mais cedo, Daniel. Ao lado dele estava o mesmo menino que o chamara de "amigão" na porta da escola. Daniel era negro, com dreads, enquanto o outro garoto era loiro, com um corte de cabelo que lembrava o estilo indígena, franzino e usando óculos com lentes grandes e redondas.
Conforme eles se aproximavam, consegui ouvir a conversa deles. Na verdade, era o garoto loiro que falava alto, com uma voz um pouco engraçada.
- M-mano, cê não tá ligado... Peguei platina no Valorant, véi! T-tô esbagaçando, matando geral... Eu s-sou muito bom, tá ligado? E ô... cê não fala muito, né, amigão? - disse o garoto loiro, tentando dar um abraço em Daniel.
Dava para ver de longe que Daniel estava incomodado, e quanto mais eles se aproximavam, mais clara ficava a conversa. Depois de alguns minutos, o garoto loiro e Daniel chegaram até a gente.
- Que bom que chegaram - disse Edy, ainda com o semblante preocupado.
- Esse eu já conheço, mas esse loirinho aí eu nunca vi - falei, em tom de brincadeira, cumprimentando Daniel.
- Ó, eu s-sou o melhor a-amigo do Dani, meu amigão... tá ligado? Aliás, p-prazer, Simão - disse ele, cruzando os braços.
- Primeiramente, eu mal te conheço, seu maluco. E, em segundo lugar, que papo é esse de melhor amigo? - disse Daniel, indignado.
Como se fosse um vento rasgando o silêncio da praça, Deniz soltou uma gargalhada alta, fazendo todos rirem. Até Edy esboçou um pequeno sorriso.
Inesperadamente, um carro de luxo preto parou ao nosso lado, nos assustando, e de dentro saiu um cara negro, um pouco alto e com um moletom que parecia muito caro à primeira vista.
- Salve, cambada, prazer, Dipper - disse ele, descendo do carro.
Outra porta do carro se abriu, e de lá desceu a pessoa que eu menos esperava encontrar nessa situação: Stanly Pines, o riquinho da cidade.Stanly era um garoto branco, relativamente pequeno e gordo.
- Puta merda, mil perdões! Meu motorista acabou se perdendo nessas ruas imundas. Vocês não acham um saco quando o motorista de vocês se perde com vocês dentro do carro? - disse ele, descendo do carro e segurando um copo Stanley com canudo.
- Com certeza, meu motorista também é muito desastrado - disse Deniz, sarcasticamente, revirando os olhos.
A sensação de entusiasmo foi embora na hora quando olhei para aquela "maravilhosa seleção" que Edy convocou. Com certeza isso não daria certo. Edy havia dito que reuniria os melhores, física e mentalmente, para essa "missão", mas só consigo ver um grupo de patetas. Os únicos que se salvam são Daniel e Deniz.
- Finalmente o grupo está reunido. Vamos para o plano... - disse Edy, imponente.
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Marcado pela morte
HorrorPaulo Cezar é um jovem com uma infância marcada por cicatrizes e memórias sombrias, vivendo em um orfanato pacato no interior de Minas Gerais. Quando a tranquilidade da pequena cidade é quebrada por uma presença inexplicável, ele descobre que o para...
