WILL
Observei os filhos de Damon correrem até ele, ele se abaixou e eles o abraçaram. Eu o vi sorrir verdadeiramente, como talvez não tenha visto há algum tempo.
Procurei os meus com o olhar; Winter conversava com Victória — esposa do Kai — enquanto Anuk tentava trançar os cabelos cacheados da mãe. Michael e Kai cochichavam alguma coisa um para o outro num canto, deveria ser algo sobre Rika e as crianças, já que não estavam aqui.
Crianças. Ainda não havia encontrado nenhum dos meus filhos, e Emory me mata se algo acontecer com elas.
— Desculpe. - a pequena Octávia disse, depois de esbarrar em mim, enquanto eu andava distraído.
Os olhos dela me lembravam muito do pai dela, apesar de não possuírem mesma coloração, ambos os Torrance tinham aquela faísca magnética no olhar, aquele abismo que não se sabe dizer se o levará para o seu fim, ou se sequer há um fim dentro daquela imensidão.
Não tive tempo de respondê-la, afinal, ela havia saído correndo antes mesmo que minha mente compreendesse o que havia acontecido.
Preciso parar de pensar naquilo.
— Will?
Não precisei me virar, nem pensar muito sobre quem me chamava, era automático, meu cérebro e corpo reconheceriam aquela voz em qualquer lugar.
— Já sentiu minha falta, Torresmo? Não faz nem 10 minutos.
— Você estava contando?
Havia uma mínima, quase imperceptível diferença entre seu tom normal e quando faz uso de sarcasmo, principalmente quando Damon está sempre sendo meio sarcástico, e não a encontrei nem em sua voz, nem em seu rosto.
— Ainda não me acostumei com nossas novas vidas. Não me acostumei com você todo bobão quando se trata daqueles baixinhos.
— São o que eu tenho de mais valioso.
— Quem diria não é? Casados, pais...
— Falando assim, parece até que está com ciúmes, Grayson.
— Ciúmes?
— Jamais me esqueceria dos velhos tempos.
— Sério mesmo que você vai continuar perturbando meu juízo com isso depois de tantos anos?
— Nunca perderia a chance. Não me arrependo de nada e muito menos nego. É você quem não aceita.
— Eu não sou gay. E prefiro fingir que tudo aquilo nunca aconteceu.
Ele sorriu, com aquele sorriso sarcástico e meio sádico dele. Aquele maldito sorriso. Damon sabia quais cordas puxar e quais botões apertar para me fazer perder a paciência, e ele havia conseguido.
— Todas as 3 vezes?
— O que exatamente você quer?
— O que acha?
— Damon.
— Eu vi o que aconteceu.
— Ela cresceu, está ficando mais parecida com você.
Ele se aproximou de mim, seu perfume se fazendo cada vez mais forte. Não desviei o olhar nem abaixei a cabeça, apenas o assisti chegar cada vez mais perto.
Ele parou ao meu lado e se encostou numa pilastra, o Torrance olhava para as crianças correndo e brincando por um momento, até seu olhar se desviar para Winter.
— Eles são o melhor de mim.
A nota de afeição e a suavidade que seus olhos tomaram me fizeram recordar todas as vezes que o vi daquele jeito — com a guarda levemente abaixada — : na maioria das vezes, o vi dirigir esse olhar somente para a bailarina dele.
Porém, uma vez, já fui o alvo daquele olhar, quando o primeiro filho dele estava para nascer. Ainda me lembro de ouvir na caixa de mensagens o desespero em sua voz, lembro de enterrar toda a raiva que eu sentia e ir até lá, ele me abraçou. Pela primeira vez em um tempo, desde antes de brigarmos, me permiti abraçá-lo.
Vivemos muitas coisas juntos, mas jamais esquecerei daquele dia.
Ele é o meu melhor amigo, mesmo que tenha tentado me matar, mesmo que tenha me feito sentir um pedaço de merda algumas vezes, ele é minha família. Ou, ao menos, faz parte dela.
Avistei as minhas crias correndo, junto com os filhos de Damon, Kai e Michael, e pude sentir um sorriso se formar em meu rosto.
— Eles são o melhor de nós.
