Capítulo 6

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Depois do brinde, dou um pequeno gole no refrigerante. O líquido gelado desce pela minha garganta, e percebo que minha mão ainda está meio tensa ao redor do copo. Tento disfarçar, mas Hideki parece notar. Ele não diz nada, apenas apoia o queixo na mão e observa o ambiente por um momento antes de falar:

— Parece que não gosta muito de lugares assim.

Dou de ombros.
— Não sou exatamente fã de festas, mas Elisa insiste que preciso sair mais.

— E ela tem razão?

— Talvez. — Suspiro. — Mas também não gosto de multidões... nem de pessoas que acham que podem chegar perto sem permissão.

Minha própria voz sai mais baixa no final da frase, e percebo que aperto os dedos ao redor do copo. Hideki não reage de imediato, apenas assente devagar, como se estivesse processando o que eu disse.

— Entendo. — Sua voz é tranquila, sem pressão. — Todo mundo tem seus limites. Não tem problema nenhum nisso.

O jeito calmo com que ele fala me faz relaxar um pouco. Pela primeira vez em muito tempo, sinto que não preciso ficar completamente alerta. Hideki não se aproxima demais, não tenta invadir meu espaço. Ele só está ali, me ouvindo.

— Acho que poucas pessoas entendem isso. — Admito, girando o copo sobre a mesa.

— O problema não é entender. — Ele dá um pequeno sorriso. — O problema é que muita gente não se importa.

Levanto os olhos para ele. De todas as respostas que eu esperava, essa não era uma delas.

— Mas eu me importo. — Hideki continua, com naturalidade, como se fosse a coisa mais simples do mundo. — Então, se quiser sair daqui, me avise. Podemos ir para outro lugar ou só ficar aqui mesmo.

Hideki espera pacientemente minha resposta. Olho para a mesa, para o copo meio cheio à minha frente, e então respiro fundo antes de responder:

— Na verdade... eu quero ir embora.

Ele não parece surpreso, apenas assente de leve e se levanta.

— Tudo bem. Eu te levo.

Quase recuso por impulso, mas engulo as palavras antes que elas saiam. Não há nenhum sinal de insistência na voz dele, nenhuma expectativa. Só uma oferta simples.

— Certo. Obrigado.

Ele se levanta, faço o mesmo e começo a o seguir, entramos no carro. O caminho até minha casa é tranquilo. Hideki não tenta puxar conversa o tempo todo, apenas coloca uma música baixa no rádio, algo instrumental, e dirige sem pressa. Olho pela janela, vendo as ruas passarem rápido demais e, pela primeira vez naquela noite, me permito relaxar.

Quando ele estaciona em frente a minha casa, fico um momento parado, sem saber o que dizer.

— Obrigado por me trazer.

— Foi um prazer. — Ele dá um leve sorriso. — Se precisar de uma desculpa para fugir de festas de novo, me avise.

Não consigo evitar um pequeno riso, balançando a cabeça.

— Vou lembrar disso.

Saio do carro e fecho a porta atrás de mim. Antes de entrar no prédio, olho para trás e vejo Hideki acenar de leve antes de dar a partida e desaparecer rua abaixo.

Por algum motivo, fico ali por um momento, sentindo o vento frio. Algo dentro de mim me diz que essa não foi a última vez que nos vimos.

E, estranhamente, não me importo com isso.

Depois que entro na minha casa, solto um longo suspiro. Está silenciosa, apenas o som distante dos carros na rua ecoa pela janela entreaberta. Jogo as chaves sobre a mesa e me jogo no sofá, encarando o teto.

A noite foi... estranha. Não ruim, só diferente do que eu esperava. Hideki era alguém que eu nunca tinha visto antes, mas me tratou com uma naturalidade que me desconcertou. Ele não forçou nada, não me pressionou, apenas esteve ali. E agora que estou sozinho, percebo que isso me deixou mais confortável do que eu imaginava.

Respiro fundo, tentando afastar esses pensamentos. Amanhã tenho trabalho, e preciso dormir. Mas enquanto me reviro na cama, as palavras de Hideki ecoam na minha cabeça.

"Se precisar de uma desculpa para fugir de festas de novo, me avise."

Fecho os olhos, mas antes de pegar no sono, uma única certeza surge na minha mente.

Eu espero vê-lo de novo...

[...]

O despertador toca às 10h, mas eu demoro mais 10 minutos para me convencer a levantar. Meu corpo ainda parece pesado da noite anterior, e minha mente, mais ainda.

Depois de um banho quente, visto meu uniforme do restaurante e tomo um café rápido antes de sair. Quando chego ao trabalho, já são quase 12h. Matthew está encostado no balcão, mexendo no celular, mas levanta o olhar assim que me vê.

— Tá bem cara?

— Bom dia pra você também.

— Não desconversa. Que foi?

Eu hesito por um momento, mas acabo soltando um suspiro e me encostando no balcão.

— Ontem, na festa... conheci um cara.

Matthew arqueia uma sobrancelha.

— E...?

— Ele foi... legal. Me levou pra casa quando eu quis ir embora.

— Hm. — Matthew cruza os braços, analisando minha expressão. — Como ele se chama?

— Hideki.

Matthew franze a testa imediatamente.

— Hideki Nakahara?

Eu pisco, confuso.

— Não sei... Ele não me disse o sobrenome.

Matthew solta um riso baixo, parecendo meio incrédulo.

— Talvez seja o meu irmão.

Minha mente leva alguns segundos para processar essa informação.

— O quê?

— É. — Ele dá de ombros. — E ele não costuma ser tão prestativo com desconhecidos...

Eu fico em silêncio, tentando absorver essa nova revelação. Então, sem querer, sorrio de leve.

— Então é por isso que ele parecia familiar...

Matthew me observa por um momento e depois solta um suspiro dramático.

— Ai, meu Deus. Isso vai dar trabalho...

Eu só balanço a cabeça, rindo baixinho, enquanto volto a me concentrar no trabalho. Mas, no fundo, sei que minha mente ainda está longe dali...

[...]

Capítulo escrito por moonlightyunnn

Até a próxima.

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⏰ Última atualização: Feb 07 ⏰

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