Rio de Janeiro, VK
sabado | 16:31📍
PEIXE
Os fogos de artifício cortaram o céu, e antes que eu pudesse processar direito, os primeiros disparos ecoaram pelo morro.
Gritos. Correria. O barulho seco de fuzis rajando o vento.
— CHEFE, TÃO INVADINDO! — a voz de um dos menores estourou no radinho.
Levantei no impulso, sentindo o corpo inteiro reagir ao caos. Meu olhar encontrou Eduarda, que tava paralisada, os olhos arregalados.
— Vem, nega! — puxei a mão dela, forçando-a a se levantar. Não dava tempo pra ela processar o que tava acontecendo.
Fui direto nos moleques que tavam na contenção.
— Levem Eduarda, Ana Clara e Samantha pra minha casa agora! — mandei, vendo eles ajeitarem os fuzis na mão. — Protejam elas com a vida de vocês, entendeu? Se alguma delas se machucar, cabeças vão rolar!
Os caras assentiram, prontos pra agir.
Eduarda segurou meu rosto com as duas mãos e me deu um selinho rápido.
— Se cuida, tá? — a voz dela saiu tremida, e eu senti o peito apertar por um segundo.
— Sempre. Agora vai!
Ela se afastou junto com as meninas e os seguranças.
Respirei fundo e virei pro radinho, o sangue já fervendo.
— Quem é o filho da puta que tá tentando invadir meu morro, ein, caralho?!
A resposta veio rápido.
— Os cu azul, chefe!
Minha visão escureceu de ódio.
— A gente paga esses caralhos pra quê, se tentam subir essa porra na mesma?! — Danilo rosnou do meu lado, já descendo o morro com o fuzil apontado.
Fui atrás, dedo no gatilho, pronto pra largar tiro.
O cenário era de guerra. As ruas, que minutos antes tavam cheias de gente curtindo o sábado, agora eram puro desespero. Crianças chorando, mães puxando os filhos pras casas, gente se escondendo atrás de muros e carros.
E no meio dessa merda toda, os cu azul metendo bala sem dó.
— CHEFE, MATARAM OS MENORZINHOS QUE FICAM VIGIANDO! — a voz tremula de um dos garotos veio no radinho.
Senti um gelo na espinha.
Os vigias eram tudo novinho, moleque que tava começando na contenção... Não deu outra.
— ACABOU A PUTARIA! ATIREM PRA MATAR, NÃO QUERO UM CU AZUL SAINDO VIVO DAQUI!
O ódio me consumiu e saí atirando em qualquer verme fardado que aparecia na minha frente.
O barulho dos tiros era ensurdecedor. As balas cortavam o ar, e o cheiro de pólvora impregnava no nariz. Um dos cu azul tentou se esconder atrás de um carro, mas fui mais rápido e meti bala.
Gritei ordens pros meus, tentando segurar a invasão. O morro era nosso, e eles não iam subir.
Foi aí que senti um impacto forte no ombro esquerdo.
O baque me fez dar um passo pra trás. A dor veio quente, ardida, queimando minha pele.
— Porra! — xinguei, levando a mão no ferimento.
Meu braço amorteceu por um instante, mas não parei.
— Peixe, tu levou tiro?! — Gb apareceu do meu lado, os olhos arregalados.
— Foi de raspão, caralho! — rosnei, tentando ignorar a dor.
— Tem que descer pro postinho, irmão! Vai perder muito sangue! — Dn segurou meu outro braço.
— Vai se foder, eu não vou agora não!
— Vai sim, porra! Deixa que a gente segura aqui! — Gb insistiu, já me puxando.
Eu queria continuar ali, mas sabia que não ia durar muito daquele jeito. Xinguei baixo e deixei eles me arrastarem pro postinho.
EDUARDA
Cada segundo parecia uma eternidade.
Eu andava de um lado pro outro na sala, o coração disparado. Samantha e Ana Clara tavam do mesmo jeito, cheias de ansiedade, grudadas nos celulares, esperando qualquer notícia.
A guerra lá fora não dava trégua. O barulho dos tiros, das granadas explodindo... Era como se cada disparo acertasse meu peito.
Foi então que a porta se abriu com tudo, e Dn entrou apressado.
— Eduarda, vem comigo.
Meu coração quase parou.
— O que aconteceu?!
— Peixe levou um tiro de raspão, mas tá bem. Tá no postinho.
Minha visão ficou turva por um segundo, e meu corpo reagiu antes de qualquer pensamento. Saí correndo feito louca.
Meus pés batiam forte no chão, meu peito queimava de tanto arfar. Passei pelos becos, desviando das poças de sangue, dos carros tombados...
O morro tava um cenário de guerra, e eu só queria chegar nele.
Quando entrei no postinho, meu olhar varreu o ambiente até encontrar Gabriel.
Ele tava sentado numa maca, sem camisa, o ombro enfaixado. O rosto fechado, provavelmente reclamando com alguém, mas tava vivo.
Senti o peso do mundo sair das minhas costas.
— Você é um idiota.
Ele virou pra mim e riu de canto.
— Também senti sua falta, nega.
Me aproximei devagar, sentindo o coração ainda acelerado.
— Não brinca com isso, Peixe. Eu achei que... — minha voz falhou.
Ele pegou minha mão, apertando de leve.
— Então agora tu admite que gosta de mim?
Engoli seco, desviando o olhar.
— Sempre gostei.
O sorriso dele foi a coisa mais linda que já vi.
— Então bora parar de caô? Quer ficar só comigo?
Meu peito apertou. Meu coração gritava a resposta, mas minha boca hesitou por um segundo.
— Quero.
Os olhos dele brilharam. Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele segurou minha nuca e selou nossos lábios.
O beijo foi intenso, quente. Não durou muito, porque um enfermeiro apareceu mandando eu sair, mas foi suficiente pra selar o que a gente já sabia.
Ele riu baixo.
— Vai, nega. Daqui a pouco eu volto pra casa.
Dei um último aperto na mão dele antes de sair.
A guerra ainda rolava lá fora. O medo ainda tava ali.
Mas agora, eu tinha certeza de uma coisa.
Peixe tava bem.
E agora, ele era só meu.
(...)
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Loucuras - [M]
Fanfiction🇧🇷 +16 | rio de janeiro 📍 by mazaeni Iniciada: 04/05/23 Finalizada: ???
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