PEIXE
Acordei ouvindo alguém batendo na porta sem parar. Soltei um resmungo, sentindo o ombro latejar de leve, e levantei devagar.
A invasão da noite passada foi um inferno. Os moleques conseguiram fazer os polícia recuar, mas custou vidas. Do nosso lado, foram poucos que caíram, mas ainda assim, perder um irmão de cria sempre pesa. Já do lado dos cu azul... era um mar de sangue. Corpo de farda jogado pra tudo que é lado, parecia cena de terror.
Atravessei a casa e abri a porta, pronto pra xingar quem tivesse me perturbando, mas nem tive tempo de soltar um palavrão antes de sentir um corpo pequeno se jogar em mim.
— Por que você não foi pra minha casa ontem? — Eduarda perguntou rápido, me apertando contra ela — Fiquei preocupada, você tá bem? Como tá seu ombro? Tá tomando remédio? Já trocou o curativo?
Soltei uma risadinha, fazendo carinho no cabelo dela.
— Tô bem, nega. O ombro tá tranquilo, tô tomando os remédios certinho, mas o curativo ainda não troquei — dei um selinho demorado nela, vendo o olhar de preocupação dela suavizar um pouco — Oi, bom dia.
— Bom dia — sorriu pequeno, ainda analisando meu rosto como se quisesse se certificar de que eu tava falando a verdade.
Puxei ela pra dentro, indo em direção à cozinha.
— Já comeu?
— Não... acordei e vim direto te ver.
Ela falou num tom baixinho, e meu peito esquentou com aquela confissão.
— O que você quer comer? Vou fazer pra você.
— Você vai cozinhar? — perguntou surpresa.
— Ué, claro. Eu sei cozinhar.
— Nossa, quero muito provar sua comida, mas não hoje. Não quero que force o ombro.
— Não é nada demais, Duda. Dá pra fazer tranquilo.
— Não, nem vem. Vamos comer na Dona Eunice e depois ficamos o dia todo juntinhos.
Ela se aproximou, passando os braços pela minha cintura, e beijou meu pescoço devagar, só de sacanagem.
— A gente pode comer lá, mas passar o dia todo junto não rola.
— Por que não?
— Tenho que resolver os B.O. de ontem, separar o dinheiro pras famílias dos nossos que se foram e ainda organizar os enterros.
Ela suspirou contra meu peito e apertou mais os braços ao meu redor.
— Deixa eu ficar com você.
— Na boca? Nem fodendo. Aquilo lá não é lugar pra você.
— Vai, Gabriel, por favor.
— E a sua loja?
— Depois da invasão, não vai ter cliente nenhum hoje. Me deixa ir com você, prometo que fico quietinha.
Ela fez cara de cachorro abandonado, e eu sabia que já tinha perdido essa briga.
— Tá bom, mas se alguma coisa te incomodar, me avisa que te deixo em casa na hora.
— Tá bom! Vamos logo! — puxou meu braço bom, animada.
Ri da empolgação dela, mas antes de sair, ela me parou.
— Pera, você quer sair assim? Descalço e sem blusa?
— Ué, eu só ia botar um chinelo e já era.
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Loucuras - [M]
Fiksi Penggemar🇧🇷 +16 | rio de janeiro 📍 by mazaeni Iniciada: 04/05/23 Finalizada: ???
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