Capítulo 38

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A luz da manhã em National City nunca pareceu tão vibrante. O sol atravessava as frestas das persianas do hospital, pintando o chão com listras douradas que pareciam dançar conforme o vento balançava as cortinas. Dentro daquele quarto, o ar antes pesado e estéril agora vibrava com uma eletricidade nova: a vida retomando seu território.
O Peso do Retorno
Lena sentia o corpo estranhamente pesado, como se estivesse submersa em água morna. Cada vez que abria os olhos, a claridade machucava um pouco, mas a visão de Kara — sempre ali, como uma sentinela incansável — era o que a impedia de fechar as pálpebras e se entregar ao esquecimento novamente.
Ela tentou mover os dedos da mão direita e sentiu o calor imediato da palma de Kara. O aperto foi instantâneo.
— Você está forçando demais, Lee — sussurrou Kara, aproximando o rosto com um sorriso que misturava alívio e uma preocupação profunda. — O médico disse que seus músculos precisam de tempo. Você ficou longe por muito tempo.
— Pareceu... uma eternidade — a voz de Lena saiu rouca, uma lembrança física das semanas de silêncio. — Mas eu ouvia você. No meio daquela névoa fria, sua voz era a única coisa que fazia sentido. Era o meu caminho de volta.
Kara sentiu um nó na garganta. Ela passou os últimos catorze dias contando histórias, lendo notícias e sussurrando planos para o futuro, sem saber se uma única palavra atravessava o véu do coma. Saber que Lena a ouviu era o maior presente que sua super-audição jamais poderia lhe dar.
A Chegada do Pequeno Herói
A porta do quarto rangeu suavemente. Alex Danvers apareceu na soleira, mas não estava sozinha. Um pequeno par de sapatos de dinossauro apareceu logo atrás dela. Pedrinho, com apenas cinco anos, segurava a mão da tia com uma força impressionante, os olhos fixos na porta como se esperasse um monstro, mas encontrasse um milagre.
Quando ele viu Lena — acordada, com os olhos abertos e focados nele — o menino travou por um segundo.
— Mamãe Lena? — ele perguntou, a voz fininha e carregada de incerteza.
— Vem aqui, meu amor — Kara chamou, estendendo o braço livre.
Pedrinho correu. Não foi a corrida desenfreada de costume; era um andar cuidadoso, como se ela fosse feita de vidro. Kara o levantou e o acomodou com cuidado na beira da cama, protegendo os acessos de soro.
— Eu desenhei pra você — disse o menino, tirando um papel amassado do bolso da bermuda. Era um desenho de três figuras de mãos dadas sob um sol amarelo gigante. — Eu disse pro Papai do Céu que você já tinha descansado o suficiente.
Lena não conseguiu conter as lágrimas. Elas escorreram quentes, molhando o travesseiro. Ela não tinha forças para abraçá-lo como queria, mas encostou a testa na dele, sentindo o cheiro de xampu de criança e de casa. Naquele toque, toda a dor das semanas anteriores pareceu valer a pena, apenas por aquele reencontro.
O Pacto Sob o Sol da Manhã
Alex observava da porta, com os braços cruzados e um sorriso de quem finalmente podia respirar sem sentir o peso do mundo. Ela deu um aceno discreto para Kara e levou Pedrinho para "ajudar a escolher o café da manhã", dando às duas um momento de privacidade necessário.
O silêncio que se seguiu não era mais o silêncio do hospital, mas um silêncio de reconstrução.
— O que acontece agora? — Lena perguntou, olhando para os aparelhos que ainda monitoravam seu coração.
— Agora, nós vamos passo a passo — Kara respondeu, sentando-se na beira da cama e acariciando o cabelo escuro de Lena. — Vamos reaprender a andar no jardim, vamos levar o Pedrinho na escola juntas, e eu vou te lembrar todos os dias o quanto você é amada. Não há pressa, Lena. O mundo pode esperar. Nós temos todo o tempo que você precisar.
Lena fechou os olhos por um momento, absorvendo a promessa. A vulnerabilidade de estar em uma cama de hospital era assustadora para alguém que sempre controlou tudo, mas estar sob os cuidados de Kara Danvers era o único lugar onde ela se sentia verdadeiramente segura para ser fraca até se tornar forte novamente.
— Kara... — Lena sussurrou, puxando a mão da loira para perto do coração. — Obrigada por não desistir de mim quando nem eu sabia como voltar.
— Eu nunca desistiria do meu coração, Lena. E você é o meu.
Ali, entre o bipe rítmico das máquinas e o calor do sol, elas selaram um novo pacto. A batalha pela vida tinha sido vencida; agora, começava a jornada mais doce: a de viver, simplesmente viver, um dia de cada vez.

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