Bebê Interessante

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- Clica nessa aí!

- Qual? – Perguntei, meio perdido no álbum.

- Essa dele rindo, com a mãozinha pra cima, que fofura – Minha mãe apontou, pondo o dedo na tela do notebook.

Um detalhe importante era que, em todas as fotos, o bebê da Tia Berta estava rindo e com a mão pra cima. Inclusive, eu suspeitava que todas as oitenta e duas fotos do álbum "MEU LINDO BEBÊ" eram, na verdade, a mesma.

- Téo, abre aquela ali. 

- A gente já viu essa, mãe.

- Olha que coisinha mais fofa! Olha essas mãozinhas! - Minha mãe me obrigara a clicar em todas as fotos do novo bebê da família. Para cada uma, ela tinha um comentário óbvio para ser feito.

Olha o rostinho!

É a cara da mãe!

Vai ser tão grande quando crescer!

Aparentemente, ela não percebia que todos os bebês tinham a mesma cara: de joelho. Um joelho mais carismático, mas, ainda assim, um joelho. E é claro que o bebê tinha "mãozinhas", e "pezinhos", e "orelhinhas", e várias outras coisas no diminutivo, já que era um adulto em miniatura. Outro comentário que me fazia revirar os olhos era:

- Tem o nariz do pai!

Imagina se tivesse o nariz do padeiro? Ou do jornaleiro? OU SE NÃO TIVESSE NARIZ? Aí, sim, seria um bebê realmente interessante e digno de nota.

- Mãe, deixa eu te explicar. Esse bebê é filho do pai dele.

- Deixa de ser besta, Téo, isso é óbvio.

- Exatamente.

Conversas sobre bebês eram sempre entediantes e desnecessárias. Seguiam o mesmo protocolo: dizer que a criança era linda, que era um monstro de Frankenstein com partes do corpo de todas as pessoas da família e se maravilhar com as funções básicas do corpo humano, como respirar e babar.

Pude me livrar da seita adoradora do bebê da Tia Berta no Facebook, assim que a campainha tocou e minha mãe foi atender.

- Com certeza, é a Marilda! E adivinha! – Minha mãe disse, embora não tenha me dado tempo para adivinhar coisa nenhuma - Ela trouxe o netinho pra gente conhecer!

- Mais um bebê? – Perguntei.

- Mais um!

Ia começar tudo de novo. Continuei na cozinha com o notebook e deixei minha mãe atender a porta e protagonizar mais uma cena "Idolatre meu bebê". Ouvi os cumprimentos de praxe, mas me assustei com o grito gutural que veio da sala.

Minha mãe entrou na cozinha como se tivesse visto uma assombração e encostou na porta para garantir que nada viria atrás dela.

- Mãe, o que foi? – Fiquei realmente alarmado.

- Téo, não vai lá.

- Mãe...

- Por favor, NÃO VÁ! O bebê.

- O que tem o bebê?

- Filho, ele é... Horrível! O bebê mais estranho que já vi. Ele tem... UNS OLHOS.

Olhos. O bebê tinha olhos. Que surpreendente.

- Mãe, tenha dó. É um bebê. Você já viu mil deles, e todos são iguais. E a Marilda não pode ficar sozinha na sala para sempre.

- De repente, se ninguém aparecer, ela vai embora.

Puxei minha mãe de volta para a sala e cumprimentei Marilda, uma amiga bastante antiga da minha mãe. O bebê estava no colo dela, envolto numa manta, fazendo... coisas que bebês fazem.

- Olha, Téo, que gracinha é o Júnior – Marilda disse, virando o bebê para mim.

Estava preparando meu melhor elogio vazio, quando o próprio ficou entalado na minha garganta, e comecei a tossir.

O bebê.

O. Be. Bê.

- Esse bebê... – Não dava para disfarçar. Esse bebê não era igual aos demais. Não era um bebê casual. Ele era a cara da...

- É a cara da Lady Gaga, eu sei – Marilda completou meu pensamento.

- Tem certeza que é menino? – Perguntei, curioso.

- Um bebê tão... diferente – Minha mãe tentou fazer um elogio.

- Olhem pra essas mãos! E esses pés! – Esse comentário meu nunca me pareceu tão cheio de sentido como agora.

O bebê tinha as maiores mãos que eu já tinha visto numa criança em toda minha vida. Os sapatinhos convencionais não caberiam naqueles pés.

- Mas esse nariz, com certeza, é do pai – Minha mãe queria porque queria voltar ao fluxo normal das coisas.

- Que nada, menina, é do Lázaro Ramos – Marilda afirmou.

-QUEM? – Minha mãe berrou, chocada.

- Lázaro Ramos. O ator. É bem nítido. As bochechas são da Adele.

- E tem as orelhas da Ivete Sangalo – Completei.

- Sim, também já tínhamos reparado. Lindas orelhas, não acha? – Marilda sorriu com carinho para o bebê, minha mãe continuou chocada.

- O que ele faz além de respirar e babar? – Esse era o teste final.

- Bom, por enquanto, Júnior arrota as vogais quando está com fome.

- Meu Deus, esse bebê tem que ir pro Facebook.

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